Credit Suisse: Ações lideram retornos, mas a crise deu brilho à dívida

Portugal não fugiu à mudança expressiva. Os retornos das ações desde 1900 ascenderam a 3,5%, mas caíram 1,8% desde 2000. Nas Obrigações, a quebra de 1,5% mudou para ganhos de 4,9%.

As ações mantêm-se como a classe de ativos com maior retorno para os investidores, mas a última crise financeira alterou profundamente os standards dos mercados de capitais globais. O anuário de rendibilidades de investimento globais, de 2019, do Credit Suisse Research Institute indica que — depois de 2018 ter sido o pior ano depois da crise — os retornos continuam a esperar-se baixos e os mercados emergentes poderão ser a alternativa.

Os retornos das ações globais, em 2018, foram de apenas 9%, com “os confrontos internacionais sobre o comércio global a darem destaque uma fonte de risco de mercado e económico que poucos investidores contemplavam antes”, explica o relatório.

“Colocado na perspetiva dos 119 anos de história do anuário e de um prémio de risco de ações no período de pouco mais de 4%, destaca-se como foi recompensadora — e anómala — a década pós-crise para os investidores em ações“, assinala.

Os dados sobre Portugal são representativos desta mudança expressiva. Enquanto os retornos das ações entre 1900 e o ano passado ascenderam a 3,5%, face a -1,5% das Obrigações do Tesouro e -1,1% dos Bilhetes do Tesouro, uma análise mais próxima temporalmente mostra a transição. Desde 1969, a rendibilidade da dívida já se aproxima de 0% e das ações começa a cair. Entre 2000 e 2018, as ações perderam 1,8%, enquanto os Bilhetes cederam 0,2% e as Obrigações ganharam 4,9%.

Retornos reais anualizados das classes de ativos em Portugal entre 1900-2018 (em %)

Fonte: Credit Suisse Global Investment Returns Yearbook 2019

Bilhetes do Tesouro superam Obrigações apenas em Portugal

“O desvio médio standard dos retornos reais das obrigações foi de 13% face a 23,4% para as ações e 7,6% para os bilhetes”, refere o relatório, sublinhando que as ações (sendo os ativos mais arriscados) superaram as obrigações em todos os países. “De forma semelhante, as obrigações (que são menos arriscadas que as ações, mas mais que os bilhetes) bateram os bilhetes em todos os países, exceto Portugal“, afirma apesar de nos últimos anos o país ter conseguido juros negativos nestes instrumentos de dívida de curto prazo.

Há ainda outra diferença no mercado de dívida português face à tendência global, que se prende com o prémio de maturidade das obrigações, ou seja, a remuneração que compensa os investidores pela maior volatilidade e risco de inflação associada a investimento de longo prazo.

Por um lado, a curva de rendimentos tem sido historicamente, em média, inclinada para cima; ou seja, os títulos longos normalmente oferecem um rendimento maior de resgate do que títulos e bilhetes mais curtos. Por outro, os retornos reais das obrigações são muito mais voláteis do que os retornos reais dos bilhetes.

“Nos últimos 119 anos, o prémio de maturidade das obrigações foi positivo em todos os países, exceto Portugal. O prémio para o índice europeu é bastante baixo, em apenas 0,4%, medido sob a perspetiva de um investidor norte-americano, em relação aos títulos dos EUA, ou seja, os investidores norte-americanos conseguiriam apenas um pouco mais com dívida europeia do que com títulos norte-americanos”, diz.

Prémio anualizado das ações globais face a bilhetes e obrigações entre 1900 e 2018 (em %)

Fonte: Credit Suisse Global Investment Returns Yearbook 2019

Prémio de risco dos emergentes poderá compensar no futuro

A nível temporal também houve diferenças nos retornos: a primeira metade do século XX não foi favorável para os investidores em obrigações, enquanto o período entre 1982 e 2014 é visto como “idade dourada, com condições favoráveis sem precedentes”. No entanto, “extrapolar esses retornos de obrigações notavelmente altos e os prémios de maturidade para o futuro seria fantasia”, alertam. Sobre o futuro, “para os principais mercados, onde há um risco muito baixo de incumprimentos do Governo, estimamos um prémio de vencimento de 1% ao ano”.

O Credit Suisse antecipa que, de forma global, todas as classes de ativos mantenham retornos baixos ao longo dos próximos anos, devido às baixas de juro reais. Os autores do outlook estimam que o retorno das ações supere o cash, no futuro, em 3,5%. A concretizar-se, será um nível de rendimento menor que a média dos últimos 119 anos, que se situou em 4,2%. Mesmo assim, é o dobro do rendimento esperado do dinheiro nas próximas duas décadas.

Entre as diferentes geografias, o Credit Suisse vê especial potencial nos mercados emergentes. Desde 1900, estes tiveram um desempenho abaixo dos mercados desenvolvidos, mas esta performance remonta ao período até aos anos 1940. Desde 1950, os emergentes superaram os desenvolvidos em apenas 1% ao ano. Na última década, deveu-se somente ao desempenho excecional dos EUA.

Dadas as dinâmicas por trás das tendências populacionais atuais, os mercados emergentes só podem crescer em importância relativa e os investidores devem reconhecer as oportunidades e os riscos. Os emergentes tendem a oferecer uma viagem mais acidentada para os investidores do que os desenvolvidos, mas a nossa análise ressalva a importância de um portfólio diversificado”, acrescentaram os autores, Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton.

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