E se a Fed estiver a cometer um erro? Não há consenso se juros dos EUA vão descer ou subir, mas há críticas a Powell

O banco central norte-americano colocou-se em modo defensivo e Wall Street celebrou. Analistas e economistas apontam para as incógnitas que poderão conduzir a Fed na escolha do próximo passo.

A economia, mas também os mercados norte-americanos, vacilaram… e a Reserva Federal norte-americana (Fed) passou do modo falcão, para um voo de pomba. Não agiu ainda, mas garantiu que iria avaliar — pacientemente — os desenvolvimentos, estando pronta para fazer ajustes. Wall Street celebrou as mudanças no discurso do banco central liderado por Jerome Powell, mas não há consenso sobre qual será o próximo passo.

“A Fed cometeu um erro político”, disse o economista-chefe e gestor de soluções multi-ativos da BMO Global Asset Management, ao ECO. Steven Bell explicou que o crescimento económico nos EUA (que se prepara para festejar em julho o maior ciclo da história do país) e a queda do desemprego (abaixo de 4% e em mínimos de quase meio século) não foram acompanhados por uma subida suficientemente robusta nos salários e na inflação.

“Mas os salários começaram a subir nos últimos meses e há sinais que os preços estão a arrancar. É nesta altura que a Fed diz que afinal está dovish. Se o tivessem feito em dezembro, quando o mercado acionista estava a cair e havia preocupações sobre recessão, percebia, mas fazer esta mudança agora foi um erro. Penso que a Fed vai ter de subir os juros ainda este ano e vai perder credibilidade por causa disso, sublinhou Bell.

Na primeira reunião de política monetária deste ano (que terminou a 30 de janeiro), a Fed manteve a taxa diretora inalterada (num intervalo entre 2,25% e 2,5%) devido aos desenvolvimentos económicos e financeiros globais, bem como às fracas pressões. O presidente Jerome Powell disse está preparado para ser “paciente”. As minutas da reunião, conhecidas esta quarta-feira, indicam que vários membros do comité “sugeriram que não é ainda claro que ajustes à taxa de juro sejam apropriados no final deste ano”.

"Fazer esta mudança agora foi um erro. Penso que a Fed vai ter de subir os juros ainda este ano e vai perder credibilidade por causa disso.”

Steven Bell

Economista-chefe da BMO Global Asset Management

Em 2015, a paciência também chegou ao discurso da Fed

A última vez que a Fed introduziu a palavra mágica — “paciente” — no discurso foi em 2015. Bell lembra que três meses depois estava a subir os juros. Manuel Arroyo, diretor de estratégia da JP Morgan Asset Management Ibéria, não é tão crítico, mas chega à mesma conclusão. Também espera subidas nas taxas de juro de referência dos EUA: uma ou duas e no fim do ano, apesar das expectativas do mercado.

“As expectativas mudaram radicalmente. Passaram de quatro subidas em 2019 para uma ou duas no final do ano, dependendo dos dados económicos”, disse Arroyo, num encontro com jornalista, esta semana em Lisboa. “É bom para os mercados, mas a subida que aconteceu em janeiro foi rapidíssima. Não se justificava uma subida tão grande nem se justificava uma queda tão grande no final do ano passado”.

Steven Bell, da BMO, tem uma justificação. O economista considera que os mercados já tinham invertido depois do dezembro negro e que a mudança da Fed apenas alimentou o rally. Da mesma forma, Arroyo sublinha que “o discurso mais agressivo dos bancos centrais, nomeadamente da Fed, é que tem impulsionado os mercados”.

O diretor de estratégia do JP Morgan antecipa que tanto os lucros das empresas nos EUA como Wall Street tenham uma taxa de crescimento entre os 5% e os 7% no total do ano. Vamos ver muita volatilidade ao longo do ano. Esperamos para todo o ano a subida que já tivemos este ano. Estamos um pouco mais conservadores do que estivemos durante muitos anos”, afirmou. No mercado cambial, Powell também deu força ao dólar, mas também neste caso Arroyo espera um abrandamento. “O dólar sobe há muito tempo e vamos ver um dólar mais fraco a longo prazo”, acrescentou.

"Se o crescimento económico global realmente enfraquecer e as consequências para as condições financeiras dos EUA enfraquecerem a economia, certamente que é possível que o próximo passo seja um corte”

Janet Yellen, ex-presidente da Fed

CNBC

Yellen antecipa que sucessor poderá ter de cortar juros

A perspetiva de que a Fed irá continuar a subir juros não é, no entanto, consensual. A antecessora de Jerome Powell, Janet Yellen, admite que a ação contrária é possível. “Se o crescimento económico global realmente enfraquecer e as consequências para as condições financeiras dos EUA enfraquecerem a economia, certamente que é possível que o próximo passo seja um corte”, disse a economista, no início do mês, em entrevista à CNBC. “Ambos os resultados são possíveis”.

Desde dezembro de 2015 — quando a Fed pôs fim a sete anos de juros zero –, o banco central já subiu a taxa nove vezes, como lembra Ann-Katrin Petersen. Numa nota aos investidores, a vice-presidente de estratégia económica global da Allianz Global Investors refere que enquanto leva algum tempo a avaliar a próxima decisão sobre os juros, a Fed poderá desacelerar o processo de redução da folha de balanço.

Três rondas de compra de ativos durante os anos de estímulos monetários levaram a folha de balanço da Fed até aos 4,5 biliões de dólares. A redução está a acontecer a um ritmo mensal de 50 mil milhões de dólares em Treasuries norte-americanas e títulos garantidos por ativos ou hipotecas. Já foram cortados 400 mil milhões de dólares e os analistas apontam para cerca de um bilião como o limite que a Fed quer manter nas reservas, mas os novos riscos poderão travar o plano.

“De forma geral, mantemos a nossa visão que os riscos políticos vão manter os mercados em aperto e gerar maior volatilidade. À medida que o ciclo empresarial amadurece, a economia global enfrenta abrandamento do crescimento a curto prazo, mas não há sinais de recessão”, acrescentou Petersen. “Apesar de os bancos centrais estarem a agir de forma mais cautelosa, não vão abandonar o curso de normalização”.

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