Empresas têm 3,5 biliões em dívida para reembolsar até 2021. Alerta é da OCDE

A colocação de novas obrigações empresariais caiu 41% no ano passado. OCDE sublinha, no entanto, que desde 2000 que a emissão de títulos em grau especulativo não era negativa.

As empresas não financeiras globais têm quatro biliões de dólares (mais de 3,5 biliões de euros) em dívida por reembolsar ou refinanciar, até 2021. Apesar da diminuição nas novas emissões, em 2018, um relatório publicado esta segunda-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) alerta para os desafios das empresas muito endividadas nos próximos três anos.

A OCDE aponta para “elevados riscos e vulnerabilidades associados ao atual stock de dívida empresarial” no relatório sobre o mercado de obrigações empresariais em tempos de política monetária não convencional. “Primeiro, há preocupações sobre o crescimento económico global”, afirma, sublinhando que empresas altamente endividadas irão enfrentar dificuldades em gerir as dívidas no caso de uma inversão económica. Por outro lado, a diminuição no investimento e taxas mais elevadas de incumprimento poderiam amplificar os efeitos dessa mudança na economia.

Em segundo lugar, a OCDE lembra que os maiores bancos centrais do mundo (incluindo a Reserva Federal norte-americana, mas também em menor escala o Banco Central Europeu) alteraram recentemente o uso de medidas extraordinárias. Apesar de no caso do BCE ainda ser uma mudança ligeira, o futuro da política monetária afeta as dinâmicas de dívida empresarial. Por último, a organização antecipa que a emissão de dívida pública pelos Estados globais atinja um novo recorde em 2019.

“Qualquer desenvolvimento nestas áreas irá acontecer numa altura em que as empresas não financeiras terão de reembolsar ou refinanciar cerca de quatro biliões de obrigações”, alerta a OCDE. Para pôr o montante em perspetiva, explica que este se aproxima do total da folha de balanço da Reserva Federal dos EUA. Em termos geográficos, o valor divide-se por 2,9 biliões de dólares (2,4 biliões de euros) em economias avançadas e 1,3 biliões de dólares (1,1 biliões de euros) em economias emergentes.

Desde a crise financeira, as empresas globais aumentaram “dramaticamente” o recurso a esta forma de financiamento, devido aos programas de compra de ativos dos bancos centrais, bem como incentivos regulatórios, de acordo com o relatório. A média das novas colocações atingiu, assim, os 1,7 biliões de dólares (quase 1,5 biliões de euros) por ano, o que compara com uma média anual de 864 mil milhões de dólares (760 mil milhões de euros) antes da crise.

Ainda assim, em 2018, a emissão global de obrigações empresariais diminuiu 41%, face ao ano anterior, atingindo o valor mais baixo desde 2008. Entre as várias regiões, os EUA mantiveram o lugar de maior mercado de dívida não financeira, com o Japão, o Reino Unido, França, Coreia e China a aumentarem o peso deste tipo de financiamento.

“Importa notar que a emissão líquida de obrigações em grau especulativo tornou-se negativa em 2018, indicando um reduzido apetite de risco entre os investidores. O único outro ano em que isto aconteceu foi há duas décadas, em 2008”, alerta, apontando para as cicatrizes da crise no rating das empresas: no caso da Europa, a média está três níveis abaixo de 2000. As revisões em baixa dos rating em países europeus como Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, Bélgica e França, durante a crise das dívidas soberanas também contribuiu para este declínio já que os ratings soberanos são determinantes significativos para os ratings das empresas”.

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