BCE dá dinheiro. Porque é que a banca portuguesa não o quer?

Com a fraca procura de crédito pelas empresas, a banca em Portugal deverá passar ao lado do TLTRO III. A CGD, o maior banco nacional, diz que "não tem intenção, à partida, de participar".

O Banco Central Europeu (BCE) está a preparar o caminho para novos estímulos à economia da Zona Euro através da banca. A terceira ronda de financiamento de longo prazo a baixos custos — Targeted Longer-Term Refinancing Operations (TLTRO III) — vai começar em setembro, com Mario Draghi a dar incentivos para que os bancos concedam crédito às empresas. Para a banca portuguesa, a “borla” não terá grande interesse. Têm liquidez, não têm é a quem a emprestar, tornando mais complicado para o setor gerar rentabilidade num contexto de juros abaixo de zero.

Na última reunião de política monetária, a instituição liderada por Mario Draghi lançou o TLTRO III. Os pormenores ainda serão conhecidos, mas a maturidade de apenas dois anos (face aos três anos das anteriores rondas) e a novidade do juro variável desanimaram os bancos. Desde então, já foram dados alguns sinais mais animadores, nomeadamente que as taxas poderão ser mais favoráveis se a economia desacelerar, mas o mercado ainda espera detalhes que podem ser conhecidos na reunião desta quarta-feira.

“Ainda não são conhecidas as condições na totalidade. De qualquer forma, as sete operações trimestrais que irão decorrer entre setembro de 2019 e março de 2021 (tendo cada uma dois anos de maturidade) podem ser interpretadas como sugerindo que o setor bancário europeu terá acesso a condições favoráveis de liquidez na sua atividade de concessão de crédito até março de 2023, ou seja, ao longo dos próximos quatro anos”, afirma a Patris Corretora. “Apenas após serem conhecidas todas as condições é que poderemos avaliar até que ponto poderá revelar-se significativo o interesse do setor bancário”.

A Caixa Geral de Depósitos afirmou ao ECO que as condições técnicas e financeiras poderão ser “determinantes para avaliar” o interesse, mas por agora afasta a possibilidade de recorrer a estes empréstimos. “A CGD não tem intenção, à partida, de participar nestas novas operações, atendendo à sua sólida e muito confortável posição de liquidez”.

Fonte oficial recordou ainda que o banco público, o maior no país e responsável por um quarto do mercado em termos de clientes, reembolsou antecipada e integralmente o financiamento junto do BCE em junho do ano passado. Contactados pelo ECO sobre se têm interesse neste novo programa de financiamento de baixo custo, Novo Banco, BPI, BCP e Santander Totta não quiseram comentar.

Fraca procura por crédito das empresas portuguesas limita estímulos

Os analistas concordam que os bancos portugueses não deverão mostrar grande interesse por esta nova ronda de financiamento de baixo custo, apesar de fazerem um balanço positivo da medida. Por um lado, estimulam a banca a desempenhar o seu papel de fornecer de crédito à economia e, por outro, equilibram o impacto negativo das taxas de juro em mínimos históricos para a rentabilidade dos bancos.

Filipe Garcia, economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros considera que o programa até poderia ser “virtuoso” para a economia portuguesa, no curto prazo, se resultasse num crescimento do crédito. “Porém, o que se tem observado é que, no caso das empresas, não tem sido nem a disponibilidade do crédito nem as taxas de juro a provocar a queda nos empréstimos. Tem sucedido devido a uma fraca procura de crédito por parte das empresas“, diz.

A concessão de novo crédito às empresas atingiu os 2.259 milhões de euros em fevereiro, de acordo com os últimos dados disponíveis do Banco de Portugal. O valor representa uma quebra de 225 milhões face ao primeiro mês do ano e mantém-se ainda longe dos níveis pré-crise. O stock situou-se em 68.878 milhões de euros, em fevereiro. “Se destes TLTRO resultar uma alteração nos critérios de concessão de crédito, então poderemos observar uma aceleração nas operações de financiamento”, acrescentou o economista da IMF.

A expectativa dos bancos sondados pelo BdP aponta para que não ocorram “alterações de relevo” na procura de crédito tanto por parte das empresas como de famílias no segundo trimestre deste ano. Sobre os critérios de disponibilização, também “não antecipam alterações de relevo” depois de no primeiro trimestre de 2019, critérios e termos terem permanecido, “praticamente inalterados” e de, em julho, terem entrado em vigor recomendações do Banco de Portugal para que os bancos tenham em conta três tipos de limites nos critérios para a concessão de crédito à habitação e consumo.

Stock de empréstimos das empresas em queda

Fonte: Banco de Portugal

Bancos mais fracos são os que mais pedem

A nova ronda financiamento pretende exatamente que os bancos mantenham linhas de crédito abertas aos consumidores, mas especialmente às empresas. “É natural que quem peça os empréstimos seja quem mais precisa de liquidez. É uma tendência que deverá continuar e espera-se que o crédito concedido nesses países possa acelerar, mas também que a dívida pública desses países possa beneficiar”, afirmou Garcia, da IMF.

Ao contrário da estratégia expectável de retirada dos estímulos, a desaceleração da economia global obrigou o BCE a reforçá-los e retomar o financiamento de baixo custo à banca. “As economias periféricas da Zona Euro estão ainda muito fracas e sem força para se protegerem de uma recessão global“, alertou Mário Martins, analista da ActivTrades.

“É possível, mas não previsível, que os bancos portugueses procurem aumentar a exposição nesta nova ronda. No panorama económico atual português, não acredito que o setor bancário português tenha possibilidade de competir por estes fundos”, concordou Martins.

Espanha e Itália foram os países que mais recorreram ao TLTRO II, com 250 mil milhões e 200 mil milhões de euros, respetivamente. O montante compara com menos de 25 mil milhões de euros em Portugal. Atualmente, o único banco fora de Itália com mais de 10% de fundos TLTRO II face aos ativos é o Novo Banco e nenhum outro banco português tem uma exposição significativa a este programa.

A forte procura por esta ronda deveu-se às condições mais favoráveis que a primeira, que levou os bancos a substituírem os fundos que tinham ao abrigo do primeiro TLTRO, para alargarem o prazo de pagamento e usufruírem das condições preferenciais. Isto num cenário em que os bancos têm de pagar para ter dinheiro guardado no BCE.

TLTRO não é boia de salvação, mas dá oxigénio em tempos de juros negativos

“Enquanto a nova ronda de empréstimos baratos irá ajudar os bancos mais fracos, o atraso na subida dos juros de referência penaliza a rentabilidade do setor bancário enquanto um todo”, defende Azad Zangana, economista sénior e estrategista da Schroders. A gestora de ativos projeta, desde a última reunião do BCE, que as taxas de juro subam pela primeira vez apenas em março de 2020 e, pela segunda vez, em dezembro desse ano.

Juros negativos têm sido desastrosos para muitos bancos, especialmente em Itália, Espanha e Portugal”, diz sobre a taxa de depósitos em -0,40%, enquanto a aplicável às operações principais de refinanciamento está em 0% e a aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez em 0,25%. “O BCE reconhece que há bancos que estão a ser negativamente influenciados e que, em consequência, os empréstimos poderão ser mais baixos. Ainda assim, continua a manter os juros negativos, apesar de ser um claro erro”, critica ainda Zangana.

Mário Martins alerta, no entanto, que é “redutor” considerar este tipo de opção como uma “boia de salvação” para bancos problemáticos, já que a eficácia da última ronda foi menor em países mais vulneráveis. “O que se pode constatar é que os empréstimos concedidos nos países vulneráveis caíram, tanto nos bancos que acederam ao TLTRO II, como nos que não acederam“, sublinhou o analista da ActivTrades.

Dados do último relatório económico do BCE indicam que, nos países vulneráveis (grupo em que Portugal se inclui), o TLTRO II foi utilizado para fortalecer o balanço dos bancos em dificuldades ou como financiamento de baixo custo. Em sentido contrário, nos países menos vulneráveis, os empréstimos concedidos por bancos que acederam ao TLTRO II subiram consideravelmente, ou seja, teve o efeito desejado pelo BCE de fomentar o investimento na economia.

Objetivo do BCE não foi conseguido em países vulneráveis

Fonte: Banco Central Europeu

Comentários ({{ total }})

BCE dá dinheiro. Porque é que a banca portuguesa não o quer?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião