“O risco não era propriamente um órgão amado na CGD”, diz antigo diretor

Vasco d'Orey lança críticas duras à EY. Relatório tem "realidades alternativas" e "virtuais", acusa o antigo diretor de risco da CGD. Diz que não era propriamente amado dentro do banco.

Vasco d’Orey é ouvido perante a II comissão parlamentar de inquérito à recapitalização da CGD e à gestão do banco.Hugo Amaral/ECO 11 abril, 2019

O antigo diretor do risco da Caixa Geral de Depósitos (CGD) disse esta quinta-feira que o seu departamento “não era um órgão amado” dentro do banco público. Vasco d’Orey, que está a ser ouvido no Parlamento no âmbito da comissão de inquérito à CGD, lembrou as palavras de um antigo administrador, que chegou a dizer numa reunião do conselho de crédito, que os “pareceres de risco eram uma inutilidade”. O responsável lançou ainda várias críticas ao relatório da auditoria da EY. “Tem realidades alternativas”, acusou.

Vasco d’Orey foi o responsável que criou a direção de risco na CGD em 2001, pela mão do antigo presidente António de Sousa. Só que esse órgão nunca foi bem recebido no seio do banco. O antigo diretor lembrou um episódio de um administrador que disse numa reunião do conselho de crédito realizada por videoconferência a propósito de uma operação de financiamento: “Está aqui um exemplo da inutilidade dos pareceres de risco”.

“Porquê?”, questionou o antigo diretor da CGD, antes de prosseguir: “Porque o parecer de risco não acrescentava nada à proposta comercial. Mas o meu colega da área comercial dizia que era exatamente o contrário: que a proposta comercial só existia por causa do parecer de risco”, explicou depois, rematando a sua intervenção: “O risco não era propriamente um órgão amado na CGD”. “É bastante sintomático” do que se passou no banco, atirou o deputado Duarte Alves, do PCP.

Questionado sobre se se sentia desconsiderado pela administração, Vasco d’Orey disse que não. “Não éramos desconsiderados. A decisão é que não seguia muitas vezes aquilo que nós dizíamos. Não me senti desconsiderado. Isto acontecer só pode ser um incentivo para trabalharmos melhor”, considerou.

"Não éramos desconsiderados. A decisão é que não seguia muitas vezes aquilo que nós dizíamos. Não me senti desconsiderado. Isto acontecer só pode ser um incentivo para trabalharmos melhor.”

Vasco d'Orey

Antigo diretor de risco da CGD entre 2001 e 2010

Auditoria tem realidades alternativas

Vasco d’Orey foi diretor de risco da CGD entre 2001 e 2010. No relatório da auditoria, a EY criticou muitas vezes o facto de a direção de risco não ser independente porque participava em órgãos de decisão. O responsável refutou a acusação da auditoria, garantindo que a “direção de risco não participava nos órgãos de decisão para novo crédito”.

“A EY diz que a direção de risco estava envolvida na elaboração de proposta. Não. Estávamos envolvidos na elaboração de pareceres que eram incluídos nos processos de crédito” cujas propostas eram levadas ao conselho de crédito, explicou o antigo diretor. “Nós éramos completamente independentes na emissão das nossas opiniões”, completou, dizendo que o relatório contém “realidades alternativas” e “virtuais”.

Outra realidade alternativa exposta por Vasco d’Orey: “Há aí um acrónimo em diversas páginas: CRO [chief risk officer]. Nunca fui CRO. (…) Durante o período em que estive na CGD, não tenho conhecimento de um despacho, decisão ou normativo que me nomeasse CRO. A menos que a EY tivesse em 2019 o poder de me nomear CRO… É realidade virtual, isso não existia entre 2001 e 2010. Podem apagar a palavra”.

Vasco d’Orey diz que lhe custa olhar para o relatório. “Se eu olho para a minha área que é que pequena e tem estes problemas, imagino o que será com outras áreas que desconheço”, lamentou.

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