Oito explosões no Sri Lanka mataram pelo menos 311 pessoas, incluindo um cidadão português. Foram detidos 24 suspeitos

  • Lusa e ECO
  • 21 Abril 2019

Uma série de explosões em igrejas, hotéis e um complexo residencial no Sri Lanka fizeram pelo menos 311 mortos e 500 feridos neste domingo de Páscoa. Há um português entre as vítimas.

Pelo menos 311 pessoas morreram este domingo na sequência de oito explosões em quatro hotéis, três igrejas e um complexo residencial no Sri Lanka. Há um português entre as vítimas entre as 38 vítimas estrangeiras. O atentado coordenado provou ainda cerca de 500 feridos e foram detidas 24 pessoas suspeitas de estarem relacionadas com os ataques. As autoridades do Sri Lanka suspeitam que o responsável seja de um grupo islâmico, o National Thowheed Jamaath, e que tenha tido apoio internacional.

As primeiras seis explosões ocorreram “quase em simultâneo”, pelas 8h45 — 3h15 em Portugal –, em três hotéis de luxo e uma igreja em Colombo, outra em Katana, a oeste do país e a terceira em Batticaloa, a este da ilha, explicou Gunasekara. A sétima detonação, que provocou duas mortes, registou-se horas mais tarde num pequeno hotel situado a cerca de 100 metros do jardim zoológico de Dehiwala, um subúrbio a uma dezena de quilómetros do centro de Colombo. Já a oitava e última explosão, até ao momento, teve lugar num complexo de vivendas na zona de Dermatagoda, também na capital, sem que as autoridades tenham revelado mais detalhes para já.

Imagens difundidas pelos meios de comunicação locais mostram a magnitude da explosão pelo menos em uma das igrejas, com o teto do templo semidestruído, escombros e corpos espalhados enquanto muitas pessoas os tentam socorrer. Os fiéis católicos celebram o Domingo de Ressurreição, o dia mais importante entre os rituais da Semana Santa.

Para já, ninguém reclamou a autoria dos ataques coordenados, sendo que as autoridades estão empenhadas em prestar atenção especial à eventual difusão de notícias falsas que possam gerar confusão ou atos de represália contra algum grupo étnico ou religioso. A polícia deteve 24 pessoas suspeitas de estarem relacionadas com os atentados.

Após as oito explosões, o Governo decretou o Estado de Emergência e a polícia impôs o recolher obrigatório com efeito imediato perante o perigo de novos ataques. O recolher obrigatório no país vai entrar em vigor “até nova ordem”, na sequência da vaga de ataques. O Ministério da Defesa anunciou que o recolher obrigatório entra em vigor às 18h00 (13h30 em Lisboa), por um período de 12 horas.

O Governo do Sri Lanka também decidiu decretar um bloqueio temporário às redes sociais para impedir a difusão “de informações incorretas” relacionadas com a vaga de explosões que aconteceram na ilha. “O Governo decidiu bloquear todas as plataformas de redes sociais para evitar a disseminação de informações incorretas e falsas. Essa é apenas uma medida temporária”, afirmou a presidência em comunicado.

Uma série de explosões ocorreram em três igrejas e três hotéis no Sri Lanka este domingo.EPA/M.A. PUSHPA KUMARA

Presidente do Sri Lanka apela à calma após explosões no país

O Presidente do Sri Lanka, Maithripala Sirisena, apelou à calma. “Por favor, permaneçam calmos e não sejais enganados por rumores”, pediu Sirisena numa mensagem à nação, num país onde os confrontos têm sido frequentes no passado em reação a eventos violentos. O presidente mostrava-se “em choque” e triste com o sucedido, esclarecendo que “investigações estão em andamento para descobrir que tipo de conspiração está por detrás destes atos cruéis”.

Também o primeiro-ministro do país, Ranil Wickremesinghe, liderou uma reunião de emergência com altos cargos das forças de segurança e outros membros do Governo, entre eles o ministro para as Reformas Económicas e a Distribuição Pública, Harsha de Silva, que deu detalhes do encontro na rede social Twitter. O Ministério da Educação anunciou o encerramento de todas as escolas do país na segunda e terça-feira.

Ataques contra minorias religiosas na ilha têm sido habituais no passado, o último em 2018, quando o Governo teve de declarar estado de emergência após confrontos entre muçulmanos e budistas cingaleses com dois mortos e dezenas de detidos.

No Sri Lanka a população cristã representa 7%, enquanto os budistas rondam 67%, os hindus são 15% e os muçulmanos 11%. Atentados desta magnitude não tinham tido lugar no Sri Lanka desde a guerra civil entre a guerrilha tâmil e o Governo, um conflito que durou 26 anos e terminou em 2009, e que deixou, de acordo com dados da ONU mais de 40.000 civis mortos.

A partir de Portugal, o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, disse à Lusa já ter falado com a esposa do português vitimado pelo atentado, a quem transmitiu uma mensagem de condolências. Bruxelas também reagiu ao massacre, com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, a afirmar que a União Europeia está “pronta a apoiar”.

Turistas portugueses correm para o aeroporto

Dois turistas portugueses que estão de visita, com os filhos, ao Sri Lanka, vão tentar chegar ao aeroporto horas antes do voo, tentando evitar o recolher obrigatório no país, que começou às 18h00 locais, disse uma filha à Lusa. Ana Inácio explicou à Lusa que os pais, que tinham previsto sair do país às 24h00 locais, vão para o aeroporto “várias horas antes”, para poder evitar o recolher obrigatório decretado na sequência dos ataques.

“Só têm voo à meia-noite de hoje, mas vão ver se conseguem partir para lá já e não ficarem em terra. O nosso hotel em Negombo informou-nos que o recolher obrigatório é a partir das 18h00 e até as seis da manhã de amanhã [segunda-feira] e ninguém está autorizado a circular no Sri Lanka”, disse a filha do casal que estava a terminar um curto período de férias no país. “Isto é desolador”, contou a portuguesa que está com a família num hotel a cerca de um quilometro a norte da igreja de São Sebastião, em Negombo, uma das igrejas onde ocorreu uma explosão.

“Estamos sem acesso a Facebook, Messenger e WhatsApp. Houve várias explosões em vários locais”, contou Ana Inácio. “As lojas em Colombo e restaurantes também tiveram instruções para fechar para evitar gente a passear na rua, e os turistas foram também aconselhados a regressar aos seus hotéis”, disse. A família almoçou num restaurante católico “e os donos estavam inconformados”. “Uma das filhas, professora, começou a chorar à nossa frente e o pai, penso que era o pai, disse que foi tão difícil alcançarem a paz há 10 anos depois de tanta violência”, contou.

Governo português desaconselha viagens para a ilha

O Ministério dos Negócios Estrangeiros já veio desaconselhar todas as viagens para o Sri Lanka. “Devido ao atentado no domingo 21 de abril de 2019, desaconselham-se todas as viagens ao Sri Lanka até publicação de novo aviso”, pode ler-se na mensagem publicada no Portal das Comunidades Portuguesas na internet.

Contatado pela Lusa, o secretário de Estado das Comunidades lamentou a morte de um cidadão português nas explosões ocorridas no Sri Lanka, avançando que estão a tentar contactar os portugueses que se encontram no país, embora não haja conhecimento de mais vítimas.

De acordo com o secretário de Estado das Comunidades, existem dez portugueses com residência inscrita na embaixada de Portugal em Nova Deli, e até agora os únicos contatos que o gabinete de emergência teve foi das duas famílias cujos familiares estavam em turismo na ilha.

“Para já, não temos quaisquer informações que suscitem preocupação. O que ocorre nestes casos é o contacto das famílias com o gabinete de emergência consular. Estamos a fazer uma despistagem para procurar contactar as famílias que estão inscritas no serviço consular de Nova Deli”, disse.

Marcelo repudia atentados

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, repudiou hoje os ataques no Sri Lanka, tendo já apresentado as condolências à viúva da única vítima portuguesa conhecida até ao momento. “O meu pensamento vai em especial para a família da vítima portuguesa e já tive a oportunidade de apresentar as condolências à viúva”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, em declarações à agência Lusa.

O Presidente da República transmitiu também o seu pesar em nome do povo português às autoridades do Sri Lanka e aos familiares das vítimas. Marcelo Rebelo de Sousa expressou o seu repúdio “a mais um ato contrário à dignidade da pessoa humana e aos princípios fundamentais do Direito Internacional e especificamente à liberdade religiosa”.

(Notícia atualizada às 07h58 de terça-feira)

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