Um cartaz é só um cartaz? As mensagens dos partidos nas Europeias

As eleições europeias estão à porta, e os partidos já começaram a montar cartazes. Na maioria dá-se o destaque ao candidato e a mensagens nacionais, dizem os politólogos com quem o ECO falou.

Templates do tempo de Sócrates, poupança nas letras, candidatos em destaque. Daqui a pouco mais de um mês os portugueses vão deslocar-se às urnas para escolher os seus representantes no Parlamento Europeu, e as cidades já estão cheias de cartazes. O ECO foi falar com alguns politólogos e especialistas de comunicação para perceber quais as mensagens que os partidos querem passar com os cartazes.

As eleições europeias, que por cá se realizam a 26 de maio, são marcadas por eurodeputados que procuram reeleição, e estreantes em representação de novos partidos. Paulo Rangel, Marisa Matias, Nuno Melo, João Ferreira e Marinho e Pinto são caras já conhecidas do Parlamento Europeu que voltam agora a figurar nos cartazes dos partidos para as eleições.

São candidatos que procuram capitalizar um tipo de experiência política diferente“, explica Patrícia Silva, investigadora do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro, ao ECO. Em quase todos os cartazes existe uma grande “personalização”, ao colocar o foco na pessoa que lidera a lista, aponta. Com esta aposta, estão a usar “um trunfo de continuidade”, nota Nuno da Silva Jorge, professor de comunicação política na Escola Superior de Comunicação Social.

Entre os 17 partidos que vão figurar no boletim de voto das europeias, há novos partidos à procura de lugar, nomeadamente o Aliança, partido liderado por Santana Lopes, o Iniciativa Liberal e o Basta, que nasceu de uma coligação entre o Partido Popular Monárquico e o Chega.

Na corrida está também um ex-ministro, Pedro Marques, que saiu do Governo para encabeçar a lista socialista às europeias. O número dois da lista é também uma ex-ministra, Maria Leitão Marques. “Mais emprego, mais igualdade, contas certas” é a mensagem do antigo ministro das Infraestruturas e do Planeamento no cartaz, bandeiras do Executivo.

O cartaz do PS destaca bandeiras associadas ao Governo, como as contas certas.Hugo Amaral/ECO

Para Vasco Ribeiro, professor de comunicação política na Universidade do Porto, no cartaz do PS “há uma colagem clara ao Governo”. Pedro Marques “não é tido como um líder muito carismático, e esta ideia de colar ao Governo é um pouco na expectativa de ganhar eleições a reboque de todo o sucesso e panorama nacional que impulsiona esta candidatura”, aponta Patrícia Silva.

O PS “usa o mesmo template desde o tempo de Sócrates”, aponta Vasco Ribeiro, destacando as ondas azuis. Este cartaz é um dos que se inclui no “grupo dos monótonos”, como caracteriza o politólogo, em conjunto com o PSD, o CDS e a CDU. “Se recuarmos 10 anos conseguimos ver as mesmas campanhas, parece que não querem mudar nada”, remata.

O cartaz do PSD poupa nas palavras.Hugo Amaral/ECO

No caso do PSD, “há uma poupança. Até nas letras poupa”, comenta Vasco Ribeiro. Na indumentária escolhida parece seguir o estilo do líder, Rui Rio. “Hoje em dia a utilização de gravata tem a ver com o eleitorado a que querem chegar, segmentos mais conservadores e até com mais idade”, defende.

Tanto o PSD como o CDS escolhem destacar o candidato e colocar frases curtas, sinalizando que “o candidato é a escolha, e não as políticas”, aponta Nuno da Silva Jorge. Para o professor, na Europa “há uma série de temas que dividem a esquerda, como a política económica e o exército europeu”, que o centro direita podia ter puxado, mas optou por não o fazer, uma decisão “estranha”, comenta.

Nuno Melo é a figura central do cartaz do CDS.Hugo Amaral/ECO

Entre os maiores partidos, apenas os cartazes da CDU não destacam o candidato, apostando ao invés no texto. A coligação PCP/PEV aposta na mensagem mais crítica, ao escrever que “basta de imposições da União Europeia”. Garantem ainda que, no Parlamento Europeu, vão “defender o povo e o país”.

“É um cartaz clássico do PCP, de rejeição da Europa mas não do sistema político”, aponta Nuno da Silva Jorge. Neste partido, “o candidato não é muito importante, porque o eleitorado vota no partido, no coletivo“, e em muitos cartazes do PCP ao longo dos tempos o candidato não aparece, nota.

A mensagem da CDU denota uma posição mais defensiva.Hugo Amaral/ECO

Já no cartaz do Bloco, a cabeça de lista Marisa Matias, que foi também candidata presidencial em 2016, aparece rodeada de pessoas. Este “não permite identificar de forma objetiva quem é a pessoa central”, considera Patrícia Silva. “Não sei se é uma estratégia deliberada, de se tratar de um partido uno”, comenta.

Para Nuno da Silva Jorge, este cartaz passa a ideia de “votar num grupo de pessoas”. “O próprio texto é claramente uma ideologia marxista espelhada em todo o seu pleno, de que não é só de alguns, é de toda a gente”, aponta. “Não fala da Europa, mas fala de uma afirmação ideológica”, acrescenta.

Marisa Matias encontra-se rodeada de pessoas.Hugo Amaral/ECO

Os “partidos mais clássicos gastam pouco, não têm um marketing muito atrativo“, corrobora José Adelino Maltez, professor universitário e investigador de ciência política. Para além disso, a maioria dos cartazes destaca em grande plano a figura do candidato, reforça Patrícia Silva.

Naqueles mais recentes, é o Iniciativa que se demarca sem o candidato. Num dos reclames optaram pelo apelo “contribuintes de todo o pais uni-vos pelo corte da despesa pública”. Noutro cartaz, escolheram destacar a sua ideologia, com uma citação de Fernando Pessoa sobre liberalismo.

Para Vasco Ribeiro, “se trocássemos o cartaz da Iniciativa Liberal e do Bloco ninguém ia achar confuso”. A candidata bloquista quer passar uma “mensagem de proximidade das pessoas”, enquanto o Liberal segue uma “linha estética mais próxima da esquerda”, aponta.

O recém-chegado Iniciativa Liberal opta por não destacar o candidato.Hugo Amaral/ECO

Uma amálgama de mensagens

No conjunto de cartazes dos partidos portugueses “há uma grande amalgama de mensagens que deixa o eleitorado baralhado“, defende Vasco Ribeiro. “Temos alguns partidos europeístas convictos e outros que são contra o projeto europeu, mas num exercício de focus group garanto que os inquiridos iam ficar confusos”, destaca.

José Adelino Maltez defende que, nesta fase da campanha às europeias, “ninguém está a discutir a Europa, até porque a Europa não é um problema em Portugal”. Até partidos como o Bloco se mostram mais “europeístas”, sendo que “não há um debate dramático sobre a Europa”.

As mensagens nacionais por cá são “coincidentes com as campanhas europeias”, aponta Vasco Ribeiro. O projeto europeu “é estratosférico, parece que não nos toca diretamente”, uma ideia que impede uma campanha muito virada para a UE. Os fundos europeus são aplicados pelos empresários, autarcas e outras figuras nacionais, o que leva a que para as pessoas pareça que não vêm da Europa, repara.

Já Patrícia Silva destaca uma “maior saliência da UE e da Europa, se compararmos com os cartazes usados em 2014. Nota-se a diferença”. Mesmo assim, defende que “não podemos ignorar que há agenda nacional nos cartazes”. Até porque, em outubro, chegam as eleições legislativas nacionais, e o discurso político já está a ser preparado em função disso.

Como vão os portugueses escolher?

Sobretudo nos casos em que eleições europeias ocorrem pouco antes das nacionais, estas funcionam como um barómetro“, aponta a investigadora. Vê-se os “partidos a jogar estratégias de campanha”, para perceber o que funciona e como o público responde. Para os novos partidos é também “uma espécie de referendo”. “As eleições europeias são muitas vezes uma plataforma para partidos menos conhecidos”, acrescenta.

Para José Adelino Maltez estas eleições vão acabar por ser uma luta entre o PS e o PSD, e vai haver muita abstenção, como já tem acontecido no país. Mas para Patrícia Silva, “seria muito mau sinal se a abstenção aumentasse em 2019, comparativamente com 2014“, até porque nesse ano “foram muito marcadas pela dimensão nacional”, com “um cenário muito difícil”. Para tentar contrariar a abstenção, o Parlamento Europeu “iniciou uma campanha muito mais vincada a apelar ao voto”, lembra.

No cartaz da Aliança, o candidato Paulo Sande está em destaque.Hugo Amaral/ECO

Para Nuno da Silva Jorge, a Iniciativa Liberal “pisca olho à abstenção” com o seu cartaz. “Quando dizem ‘contribuintes uni-vos’, estão a querer dizer para deixarem o sofá”, nota. Mas esta posição é, no entanto, quase “uma antítese do que seria uma iniciativa liberal, do ponto de vista de luta de classes” que não é tão associada a esta ideologia, acrescenta.

A “mensagem politica tem de ser muito simples e primária, numa função de captação optam por referências à Europa”, diz Vasco Ribeiro. Enquanto os partidos já estabelecidos confiam no tempo de antena que têm, aqueles mais recentes precisam dos cartazes para difundir o nome e acabam por definir mais as políticas.

Os cartazes são uma espécie de registo de presença“, para aqueles que não têm uma plataforma tão grande nos meios de comunicação para defender as suas ideias, defende Adelino Maltez. “Os partidos mais recentes tiveram que bater à porta do público assim”, com mensagens na via pública.

O Chega opta por focar um tema nacional.Hugo Amaral/ECO

Um dos cartazes da Iniciativa, colocado na IC19, em Sintra, esteve no centro de uma polémica. A Infraestruturas de Portugal (IP) retirou a estrutura metálica do partido, que tinha sido montada para a colocação de um cartaz. Mas a Comissão Nacional de Eleições (CNE) notificou a IP para repor a estrutura, visto que “a atividade de propaganda político-partidária, com ou sem cariz eleitoral, seja qual for o meio utilizado, é livre e pode ser desenvolvida”.

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