Diogo Gaspar Ferreira: “Pus todo o dinheiro que tinha e não tinha em Vale do Lobo”

Diogo Gaspar Ferreira diz que promotores de Vale do Lobo foram surpreendidos quando a Caixa exigiu ser acionista do empreendimento para financiar operação.

Diogo Gaspar Ferreira foi um dos promotores de Vale do Lobo.

Dois fundos internacionais tentaram comprar Vale do Lobo, já depois de ter entrado em incumprimento em 2009, mas a Caixa Geral de Depósitos (CGD) acabou por rejeitar ambos os negócios porque o banco estará à espera receber um valor maior pelos créditos que concedeu ao empreendimento turístico que gerou uma perda por imparidade de crédito no valor de 75 milhões de euros.

Foi Diogo Gaspar Ferreira quem deixou esta ideia na II comissão de inquérito à recapitalização e aos atos de gestão do banco público. Aquele responsável contou que, depois de Vale do Lobo ter entrado em incumprimento com a CGD, o fundo inglês Moorfield ofereceu 180 milhões pelo resort, em 2013, uma proposta que o banco rejeitou. Posteriormente, o banco voltou a receber uma oferta de 160 milhões de euros (fundo Kildare), esta também recusada.

“Só se conseguirá aferir as perdas de Vale do Lobo no momento em que a Caixa se decidir pela sua efetiva alienação”, afirmou Gaspar Ferreira. “Se a Caixa não decidiu vender os seus créditos é porque espera receber um valor superior ao que era oferecido”, acrescentou o mesmo responsável.

Os créditos de Vale do Lobo foram vendidos em 2018 ao fundo de reestruturação ECS, fundado por António de Sousa, antigo presidente da Caixa (2000-2004), com o banco a manter uma participação de cerca de 30% do fundo que detém aquele resort de luxo no Algarve. “As verdadeiras perdas que a Caixa vai ter vão depender a gestão que o fundo fizer das dívidas”, reforçou.

Diogo Gaspar Ferreira garantiu que a operação de financiamento montada e aprovada em 2006 estava “totalmente em linha com o mercado”. Mas depois veio a crise financeira e Vale do Lobo deixou de conseguir honrar os seus compromissos em 2009. A partir daí, o banco começou a exigir juros de mora e a totalidade das receitas do resort, o que tornou o empreendimento ainda mais insustentável. “O resultado negativo foi uma consequência direta de um evento imprevisível, único na história”, lamentou o responsável, lembrando que desde 2007 Vale do Lobo já pagou 100 milhões à Caixa, entre juros e reembolsos.

“Se o projeto tivesse sido feito 20 anos antes, não teríamos entrado em incumprimento. Neste período, tivemos duas crises de imobiliário, só que demoraram um ano ou um ano e meio. A última crise demorou cinco anos e as vendas do resort afundaram entre 90% e 95%”, disse.

Surpreendidos com entrada da Caixa no capital

Mais tarde, Diogo Gaspar Ferreira revelou que os promotores ficaram surpreendidos quando, em 2006, a CGD lhes disse que só aceitaria financiar a operação se entrasse no capital.

“Nós não fomos” quem propôs a criação da Wolfpart, disse. “A Caixa propôs que fosse acionista, nós não respondemos imediatamente porque era uma surpresa para nós. (…) Disseram que só nos financiavam se aceitássemos algumas condições, como essa. A cedência de uma quota não era um tema irrelevante para nós. Aceitámos mais tarde”, adiantou. “Ao contrário da primeira reação negativa de perdermos parte do capital, achamos interessante porque poderia dar bagagem financeira para outros projetos”, explicou. “A ligação a uma entidade financeira forte era um ponto bom”, acrescentou.

Inicialmente, tinha sido pedido um aval pessoal aos promotores, mas o banco mudou as condições da operação, passando a exigir uma componente de capitais próprios. E foi aí que surgiu a Wolfpart, que foi decidida por Armando Vara e na qual a CGD veio a colocar 30 milhões de euros, enquanto os promotores injetaram seis milhões de euros, como condição para o crédito de 200 milhões.

Apesar do interesse da CGD em entrar nos capitais, Gaspar Ferreira lamentou o facto de ter sido sempre “um acionista ausente” e que “não conhecia a empresa, por forma a dar valor ao trabalho que se estava a fazer”. E também considerou “triste” o facto de nenhum administrador do banco ter visitado Vale do Lobo.

Diogo Gaspar Ferreira garantiu que não foi ele quem apresentou o projeto a Armando Vara, e assegurou que conheceu o antigo administrador do banco público quando era diretor do Sporting, a propósito de uma reunião por causa do Euro-2004.

Alexandre Santos, antigo diretor de Empresas Sul, revelou há poucas semanas que foi antigo administrador quem lhe apresentou um dossiê preparado sobre o projeto de Vale do Lobo. Gaspar Ferreira lembrou que geralmente era Rui Horta e Costa, outro dos promotores, quem contactava os bancos — aliás, além da Caixa, também foram contactados o Santander, BCP e BES. Mas foi a CGD a revelar maior interesse desde o início, sublinhou Gaspar Ferreira.

“Pus todo o dinheiro que tinha e que não tinha em Vale do Lobo”

Mariana Mortágua questionou depois como é que os promotores tinha dado um aval de 180 milhões de euros, mas só conseguiram adiantar apenas seis milhões como capitais próprios. Gaspar Ferreira explicou que não é preciso ter o dinheiro para dar um aval pessoal de milhões a um banco, um comentário que apanhou de surpresa deputada bloquista.

“A senhora deputada pode dar os avales que quiser sem ter dinheiro ou não sabe disso?”, afirmou Diogo Gaspar Ferreira, ao que a parlamentar do BE respondeu: “Eu posso tentar, duvido é que me aceitem”. “Então vá para uma empresa, peça empréstimo e veja o que é que lhe acontece”, retorquiu o gestor.

Mas Gaspar Ferreira não quis desvalorizar o seu envolvimento e interesse com o projeto. Pelo contrário. “Pus todo o dinheiro que tinha e não tinha em Vale do Lobo. Não quero vitimizar-me. Acreditava que era um bom negócio”, contou. “Trabalhei 20 anos, ganhei bem”, disse. Depois, confrontado com uma transferência de 100 mil euros de Rui Horta e Costa, o responsável admitiu que passou por dificuldades e que teve de se socorrer junto de amigos.

Sobre a Operação Marquês, onde é um dos arguidos, Gaspar Ferreira foi questionado por uma transação de dois milhões de euros feita com um investidor alemão e cujo dinheiro terá ido parar a uma conta de Joaquim Barroca na Suíça. Na resposta, o responsável assegurou que todos os valores que constam das escrituras da venda de lotes em Vale do Lobo correspondem ao valor efetivo da transação. Mais explicações? “Não me parece o local certo para usar o meu argumentário que vou usar mais tarde para a minha defesa”, disse, acompanhado do seu advogado de defesa, Rui Medeiros.

(Notícia atualizada às 20h34)

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