BCP aprova dividendos e devolução dos cortes aos trabalhadores. À porta, sindicatos pedem mais. Maya pede “equilíbrio”

Foi em clima de contestação laboral que os acionistas do BCP aprovaram dividendos de 30 milhões, mas também a devolução dos salários retidos durante a crise. Sindicatos querem mais de Miguel Maya.

“Devoluções não são prémios. Queremos o que é nosso”. À porta da assembleia geral do BCP, no Taguspark, em Oeiras, centenas de trabalhadores e reformados do banco aguardavam pela administração e acionistas para lhes exigirem melhores condições salariais após o regresso do BCP aos lucros. Não faltaram assobios, apupos, tambores e cabeçudos num protesto que acabaria por desmobilizar cerca de duas horas e meia depois.

O banco liderado por Miguel Maya deu a volta à crise e, depois dos resultados de 301 milhões de euros obtidos em 2018, propôs agora regressar aos dividendos (30,1 milhões de euros, ou 0,002 euros por ação) e ainda compensar os trabalhadores pelos cortes salariais que foram impostos aos trabalhadores entre 2014 e 2017 (devolução de 12,6 milhões de euros de um total de 36 milhões retidos naquele período).

Esta proposta foi levada à assembleia geral num único ponto e foi aprovada pela maioria dos acionistas (por 99,98%) já depois de a manifestação ter desmobilizado lá fora. A reunião magna contou com a representação de 64,5% do capital do banco, sendo a mais participada desde 2008.

A devolução dos 12,6 milhões não satisfaz os três sindicatos que organizaram o protesto, o Sindicado dos Bancários do Norte (SBN), o Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários (SNQTB) e o Sindicato Independente da Banca (SIB). Pretendem sobretudo que o processo seja mais rápido e os representantes das três organizações sindicais entregaram mesmo uma carta à comissão executiva a pedir a devolução imediata da totalidade das verbas cortadas.

“O que se afigura é que esta devolução vai ser feita num prazo muito longo. Para cortar foi feito num ápice e agora para devolver é um tempo demasiado longo. Há condições económicas e financeiras que o banco pode fazer este movimento de forma muito mais célere“, disse Paulo Gonçalves Marcos, presidente do SNQTB, aos jornalistas.

Conforme avançou o ECO, Miguel Maya propôs a restituição faseada dos valores retidos durante os próximos três anos, sendo que os salários até 1.500 euros vão rever a totalidade dos cortes já este ano. Para as remunerações que variam entre 1.500 euros e 2.500 euros, a restituição das verbas retidas entre 2014 e 2017 situar-se-á entre os 33% e os 50%.

Por outro lado, a intransigência da administração de Miguel Maya à mesa das negociações com vista à atualização salarial levou outros dois sindicatos do setor, o Sindicato Bancário do Sul e Ilhas (SBSI) e o Sindicato dos Bancários do Centro (SBC), a juntarem-se ao protesto.

“Desde 2010 que os salários não são aumentados e, por força disso, também não são aumentadas as pensões porque os reformados não veem repercussões nas suas pensões e são cerca de 17 mil”, afirmou Cristina Damião, coordenadora do SBSI. “Esperamos que depois desta assembleia geral haja um processo mais célere de forma a repor as atualizações salariais. Entendemos que não deve haver aumentos inferiores à inflação”, frisou.

Paulo Marcos complementa o descontentamento: “Há uma intransigência absoluta em fazer atualizações em 2018 e as propostas que estão em cima da mesa para 2019 ficam muito aquém. Acima de tudo, será mais um ano de perda de poder de compra, o que nos parece que dez anos consecutivos é demasiado e não há qualquer justificação. Não encontramos flexibilidade do lado do banco. A continuar esta intransigência, o banco perde a moral”.

Acionistas dão luz verde a antigo administrador financeiro da EDP

Além dos dividendos e da compensação salarial, e à exceção do ponto 11, todos os outros pontos que constavam na ordem de trabalhos foram aprovados por mais de 99% dos acionistas presentes na assembleia geral, incluindo a cooptação de Fernando Costa Lima para o conselho de administração como vogal do conselho da administração e da comissão de auditoria, que era para ser ocupado por Norberto Rosa, nome que entretanto caiu devido ao relatório da auditoria da EY aos atos de gestão da Caixa Geral de Depósitos. Fernando Costa Lima aguardava ainda autorização do Banco Central Europeu.

Também por causa da retirada de Norberto Rosa, que passou a desempenhar funções na Associação Portuguesa de Bancos, os acionistas do BCP também deram luz designação de Nuno Alves, antigo administrador financeiro da EDP, para o cargo de vogal do conselho de remunerações e previdência do banco. O ponto foi aprovado com uma taxa de 99,79%.

A Deloitte foi também reconduzida para exercer funções de auditora independente do banco para o biénio 2019/2020.

Assembleia Geral Millennium BCP, Taguspark - 22MAI19
Miguel Maya e Nuno Amado falaram no final da assembleia geral.Hugo Amaral/ECO

“Não estamos a privilegiar ninguém”

À saída da assembleia geral, Miguel Maya sublinhou as “diferentes opiniões” entre banco e sindicatos no que toca à forma de compensar os trabalhadores pelos cortes e, perante as exigências de atualizar a tabela salarial congelada há anos, referiu que no ano passado 24% dos trabalhadores tiveram aumentos através de promoções.

“Como tínhamos assumido no compromisso perante os colaboradores de compensar pelas remunerações que deixaram de receber durante o período mais difícil da vida do banco e estamos a cumprir essa promessa. O que fizemos aqui foi propor aos acionistas e os acionistas aprovaram essa compensação no montante equivalente a um terço do total. Se não aprovássemos nesta assembleia, provavelmente só no próximo ano é que teríamos esta oportunidade e não podíamos fazê-lo defesa dos direitos dos trabalhadores do BCP. Estamos convencidos de que fizemos a opção correta“, afirmou.

“No ano passado, o BCP aumentou salários a 24% dos trabalhadores. Pergunto: empresas privadas com mais de 1.000 trabalhadores, quantas é que conseguiram fazer aumentos desta natureza?”, acrescentou ainda.

Maya pretende obter uma solução “equilibrada” com os trabalhadores. Só dessa forma estará a proteger o banco. “Ao proteger os interesses do banco estamos a proteger os interesses de todos os stakeholders. Não estamos a privilegiar nenhum stakeholder em concreto. passos corretos para que a situação do BCP seja sólida para o futuro. Temos de pensar que queremos ser o banco das famílias e das empresas hoje e nos muitos anos que temos pela frente”, comentou.

(Notícia atualizada às 18h01 com mais informação sobre os restantes pontos)

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