Vieira Monteiro “surpreendido” com perdas de 340 milhões em operação da Caixa

Vieira Monteiro diz que conselho de administração aprovou uma operação para conter perdas com dívida pública. Mas o contrato final teve "discrepâncias" face ao que foi aprovado.

António Vieira Monteiro justificou as perdas da Caixa Geral de Depósitos (CGD) de 340 milhões de euros na operação Caravelas Boat com a “discrepância” entre o que foi aprovado pelo conselho de administração e o que veio efetivamente a ser assinado e contratualizado pelo banco. E manifestou “surpresa” com os resultados que o contrato veio a gerar para a instituição. “Quando saí da Caixa, a operação estava normal”, garantiu.

Em 1999, a CGD contratou um instrumento financeiro complexo para se proteger da desvalorização da carteira de dívida pública e cujos títulos estavam parqueados nas filiais de Espanha e França. Este instrumento, chamado Boats Caravela, provocou prejuízos de 340 milhões de euros ao banco público, sendo uma das operações mais ruinosas detetadas pela auditoria da EY.

Vieira Monteiro, que era administrador da CGD na altura, referiu que há diferenças entre o que o conselho de administração aprovou e o contrato final, nomeadamente quanto ao facto de dar poder ao banco Credit Suisse para alterar o conjunto de ativos do fundo contratualizado e, com isso, determinar o desempenho do produto, algo que não tinha sido aprovado inicialmente pela gestão.

“Lendo-o agora, em preparação para esta audição, e comparando-o com as deliberações do conselho de administração que haviam fixado as suas condições, verifico que existe uma discrepância entre o que este órgão autorizou (balizando rigorosa e zelosamente o nível de risco a assumir) e o que consta de duas cláusulas do contrato (que desviam condições aprovadas pelo conselho de administração)”, disse Vieira Monteiro durante a intervenção inicial na comissão de inquérito à CGD.

“Essencialmente, as deliberações do conselho apontavam para um fundo fechado composto por ativos de primeira qualidade, ao passo que a versão assinada do contrato, sem que se entenda porquê, atribui à contraparte do banco o poder de alteração discricionária da composição do fundo, podendo com isso a qualidade da pool de ativos ser afetada e, consequentemente, a performance do contrato prejudicada”, acrescentou.

Vieira Monteiro saiu do banco pouco depois, em 2000, e deixou de acompanhar a execução do contrato. Não sabe explicar, por exemplo, que “tipo de gestão o banco fez do contrato”, se se “equacionou extinguir o contrato a partir do momento em que se tornou claro que os resultados não seriam positivos” ou se “se ponderou lançar mão de algum mecanismo judicial” para defender os seus interesses.

O atual chairman do Santander Totta descarta responsabilidades neste contrato. “A fase da execução do contrato — que mais propriamente se devia chamar de fase de gestão dinâmica do contrato — decorreu integralmente depois do início de 2000, ou seja, depois do termo do meu mandato. Essa é a fase crucial, ao longo da qual a evolução do contrato tem de ser monitorizada e, se necessário, o seu conteúdo ajustado à evolução da realidade“, referiu Vieira Monteiro.

Numa anterior audição, António de Sousa, presidente do banco público entre 2000 e 2004, disse que os administradores que assinaram o contrato não sabiam muito bem o que estavam a assinar. “Era uma operação financeira complexa. Penso que vários membros do conselho de administração não entenderam bem o que estavam a assinar. (…) João Salgueiro não estava ciente do risco de uma operação daquelas”, considerou António de Sousa.

“Surpreendido” com as perdas

Vieira Monteiro revelou ainda que, depois de ter saído do banco, teve um um almoço com João Salgueiro e António de Sousa em que o tema das Caravela Boats veio à baila e de “como é que num curto período de tempo a operação teve resultados tão negativos”. Nesse encontro, Vieira Monteiro manifestou a sua surpresa e estupefação com as perdas que o contrato estava a gerar.

“Não quero fazer nenhum tipo de deduções relativamente aos termos com que foram aceites o contrato”, referiu o presidente não executivo do Santander Totta.

Mas “fiquei surpreendido porque a estrutura da operação não levava a estes resultados”, confessou Vieira Monteiro.

“Quando se sai da Caixa, a operação estava normal. Nada indicava na época que a operação ia apresentar os resultados que veio a ter”, disse ainda, garantindo que o racional da operação foi de “evitar o prejuízo” com a desvalorização da dívida pública e não “transferir o prejuízo de um momento para o futuro”.

(Notícia atualizada às 12h22)

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