Reformas mais tardias e mulheres estão a mascarar impacto do envelhecimento na economia

Trabalhadores que se reformam cada vez mais tarde, mais mulheres no mercado de trabalho e imigração estão a ajudar a mascarar o efeito da envelhecimento da população na economia, mas não chega.

A economia portuguesa está a compensar a redução da população em idade ativa com os portugueses a trabalharem até mais tarde, com mais mulheres no mercado de trabalho e com imigração. Ainda assim, diz o Banco de Portugal, não chega. Portugal tem um dos rácios de dependência da população idosa mais elevados, bem como uma das reduções mais acentuadas da população ativa da União Europeia, o que terá impacto, mais tarde, na economia.

Numa análise do Banco de Portugal ao impacto das alterações demográficas na oferta de trabalho em Portugal, é possível perceber várias dinâmicas que estão a mitigar, para já, o efeito do envelhecimento da população e a redução da população ativa na economia portuguesa.

Entre estes efeitos está o amento da taxa de atividade entre as pessoas mais velhas, com os trabalhadores portugueses a reformarem-se cada vez mais tarde. A idade efetiva de reforma tem aumentado desde 2015 de forma mais continuada, aproximando-se da idade legal – que por sua vez também tem aumentado.

Mas não são apenas os trabalhadores portugueses a reformarem-se mais tarde. Outro dos efeitos é a presença de cada vez mais mulheres no mercado de trabalho. Não só o número tem aumentado, como a disparidade é cada vez menor, pelo menos entre os trabalhadores com ensino superior.

Em 2018, a taxa de atividade dos homens com ensino superior era de 83,7%, enquanto entre as mulheres era de 83%, uma diferença de apenas 0,7 pontos percentuais (este estudo não analisa, no entanto, a disparidade de rendimentos entre homens e mulheres). Nos trabalhadores com menos qualificações – até ao ensino secundário – a disparidade é significativamente maior. A taxa de atividade entre os homens é de 77,3% e a das mulheres 72,5%. À medida que as qualificações vão aumentando, a disparidade é cada vez menor, até que estão praticamente ao mesmo nível.

Estes dois fatores juntam-se ainda ao saldo migratório, que tem sido positivo para Portugal. Com menos portugueses a abandonarem o país e mais imigrantes a chegarem, há mais pessoas em idade ativa, algumas delas – especialmente os imigrantes – ajudam a preencher empregos para onde se procuram trabalhadores com menos qualificações, vagas que existem especialmente nos serviços e que começam a ter mais oferta do que procura.

Estas mudanças podem estar a ajudar a mitigar os efeitos, mas não chegam para resolver o problema. A tendência de redução da população iniciada em 2010 deverá continuar nas próximas décadas e Portugal já tem um dos rácios de dependência da população idosa mais elevados e uma redução da população ativa das mais acentuadas.

Esta tendência justifica-se não apenas com ganhos de longevidade que são comuns à generalidade dos países europeus, mas também de Portugal continuar a registar baixas taxas de fecundidade.

As consequências são um menor crescimento da economia face ao seu potencial, com maior impacto no médio e longo prazo à medida que a população ativa vai diminuindo, mas também, e já no curto prazo, uma pressão ascendente sobre os salários, depois de dois anos consecutivos em que as remunerações por trabalhador aumentaram 1,6% e 2,2% (em 2017 e 2018, respetivamente) no conjunto da economia.

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