O dia em que Draghi voltou a ser Super Mario

Mario Draghi voltou a puxar dos galões, mexeu com os mercados e garantiu que o seu legado perdurará para além do seu mandato. Pelo meio, deixou recados aos críticos e ainda irritou Trump.

Super Mario voltou a vestir o fato e a arregaçar as mangas para usar as armas disponíveis e enfrentar os males que se avizinham. Não o Super Mário do jogo do Reino dos Cogumelos, mas sim o Super Mario que com três palavras apenas — whatever it takes — salvou o euro no verão de 2012, prometeu agora mais estímulos, garantindo que o seu legado vai perdurar além de outubro e atando as mãos aos mais conservadores.

A poucos meses de terminar o seu mandato de oito anos à frente do Banco Central Europeu (BCE), e com muitos dos seus potenciais sucessores na audiência, Mario Draghi demonstrou porque a sua palavra ainda tem tanto peso nos mercados e entre os líderes mundiais.

As frases de Draghi que agitaram os mercados:

  1. “Na ausência de melhorias, de tal forma que o regresso sustentado da inflação à nossa meta é ameaçado, serão necessários estímulos adicionais”.
  2. “Continuam a fazer parte do nosso leque de instrumentos mais cortes nas taxas de juro e outras medidas”.
  3. “Tal como o nosso enquadramento de política evoluiu no passado para responder a novos desafios, pode fazê-lo novamente”.
  4. “Se a crise nos mostrou alguma coisa, é que usaremos toda a flexibilidade dentro do nosso mandato para cumprir o nosso mandato“.

A reação foi quase instantânea, o euro depreciou face ao dólar e os mercados europeus subiram. Mas Mario Draghi não quis deixar a questão passar e, num painel já na parte da tarde, o presidente do BCE explicou que a questão já não é se serão necessários estímulos caso algum risco se venha a materializar. Agora, o que está previsto é que estas medidas adicionais avancem caso a situação não mude o suficiente para mudar a opinião do BCE.

“O trigger que sugeriria a necessidade de agir já não é ‘se’ algo adverso se materializar, mas antes na ausência de melhorias”, explicou.

Mas Mario Draghi não se ficou apenas pelo que o BCE ainda irá fazer sob o seu comando, garantindo efetivamente que o seu legado irá perdurar muito além do seu mandato. O italiano que abandona a presidência do BCE no final do outubro tinha na audiência alguns dos governadores mais críticos das decisões que tem tomado, como é o caso do alemão Jens Weidmann — um dos nomes apontados à sucessão –, e a estes deixou vários recados, defendendo as medidas tomadas nos últimos anos.

Os recados de Draghi aos conservadores:

  1. “Alguns até questionaram, e ainda questionam, a legalidade da compra de ativos na Europa e a sua eficácia numa economia ancorada no sistema bancário como a nossa. (…) A nossa capacidade para reagir desta forma foi tornada possível pela flexibilidade que está incluída no nosso mandato, uma flexibilidade que foi confirmada pela decisão recente do Tribunal de Justiça da União Europeia“.
  2. “Essa decisão não só afirmou que a compra de ativos é um instrumento de política monetária legal na Zona Euro, como sublinhou a ampla margem de manobra do BCE no uso de todos os instrumentos que temos à nossa disposição, de forma necessária e apropriada para atingir o nosso objetivo”.
  3. “Não há nada institucionalmente ou legalmente especial na Zona Euro que proíba a política monetária de acrescentar mais flexibilização”.
  4. “Há provas crescentes que estes instrumentos foram eficazes”.

Todos os nomes de que se fala para a sucessão de Mario Draghi apontam para um futuro presidente do BCE mais conservador que o italiano. O alemão Jens Weidmann é conhecido pela caracterização alegadamente feita por Mario Draghi de dizer ‘nein zu allem‘, alemão para ‘não a tudo’. O finlandês Olli Rehn pelo seu perfil mais político e a defesa das medidas de austeridade enquanto comissário europeu dos Assuntos Económicos durante a última Comissão Europeia de Durão Barroso. O francês François Villeroy de Galhau por ser mais próximo da Alemanha em termos de pensamento. Até o preferido na corrida, outro finlandês, Erkki Liikanen é conhecido mais pela proximidade a posições mais ortodoxas.

Estes já estariam limitados pela natureza do cargo de presidente do BCE dentro do conselho de governadores da instituição e da administração da própria, mas a orientação da política monetária dada pelo ainda presidente do BCE deixa pouca margem para mudanças abruptas que o seu sucessor possa ter planeadas. As taxas de juro vão continuar baixas como reafirmado pelo forward guidance do BCE, mais medidas terão que se seguir agora que foram anunciadas sob penas de haver uma correção brusca nos mercados, e qualquer decisão tomada agora teria sempre de ser revertida por uma maioria.

O próprio Tribunal de Justiça da União Europeia, como referiu Mario Draghi, expressou o entendimento que as decisões foram legais e que o BCE dispõe da margem de manobra que a instituição pretende voltar a dar uso.

Talvez sinal do distanciamento que marcou as posições de ambos durante o seu mandato, Mario Draghi que descia do hotel até ao local da conferência acompanhado de Jens Weidmann, saiu do lado do alemão quando entrava na passadeira onde os fotógrafos os esperavam para aquela que seria certamente a foto do evento para trocar duas ou três palavras com os seus assessores, impedindo que a imagem ficasse para memória futura.

Corte de juros poderá chegar já no próximo mês: a reação dos mercados

“Draghi não excluiu nenhum instrumento”, sublinhou Michael Schubert, economista sénior do Commerzbank, num comentário ao discurso. Não só falou das hipóteses de cortar juros (atualmente em mínimos históricos) e de lançar uma ronda de programa de compra de ativos, como lembrou as antigas transações monetárias definitivas (outright monetary transations – OMT). Estas são operações realizadas nos mercados secundários de dívida soberana que visam garantir a transmissão da política monetária para o mercado e que tinham sido anunciadas em 2012 como um instrumento possível, mas nunca chegaram a ser utilizadas.

Na última reunião de política monetária do BCE, os governadores tinham já discutido estas hipóteses, mas Draghi apresentou-as de forma passageira. Desta vez, não quis deixar dúvidas e os mercados reagiram em conformidade.

Após o discurso de Draghi, o euro desvalorizou 0,25% contra a par norte-americana para 1,119 dólares, enquanto as ações fecharam a sessão em alta graças à perspetiva de mais dinheiro barato no mercado. O Stoxx 600 avançou 1,67%, enquanto a bolsa de Lisboa ganhou 1,22%.

No mercado de dívida, as yields das dívidas soberanas caíram ainda mais graças à rede de segurança europeia. O juro das Bunds alemãs a 10 anos está ainda mais negativo, em -0,32%, enquanto o juro dos títulos portugueses com a mesma maturidade tocou um novo mínimo histórico, em 0,529%.

Face a este cenário, esperamos que o BCE desça a taxa de depósitos dos atuais -0,40% para -0,50% já na próxima reunião a 25 de julho”, disse Schubert. “A anterior projeção indicava que aconteceria no quarto trimestre. Além disso, como Draghi sinalizou, o BCE deverá anunciar que vai examinar novamente a introdução de um sistema de taxas diferenciadas. Provavelmente, irá decidir fazê-lo numa das duas reuniões seguintes, em setembro ou outubro”, acrescentou.

Mario D vs Donald T

Além do Super Mario, houve outra presença impossível de ignorar esta terça-feira em Sintra. Não viajou até Portugal, mas o presidente dos EUA, Donald Trump, fez-se presente. “Mario Draghi anunciou mais estímulos, o que imediatamente gerou uma desvalorização do euro contra o dólar, fazendo com que seja injustamente mais fácil para eles competirem contra os EUA. Eles têm-se safado com isso há anos, tal como a China e outros”, escreveu Trump no Twitter.

Num painel em que participou juntamente com o governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, e do ex-vice-presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Stanley Fisher, o presidente do BCE foi confrontado com as declarações de Donald Trump e o comentário foi curto e seco.

“Temos o nosso mandato. O nosso mandato é a estabilidade de preços, definida por uma meta de inflação perto, mas abaixo, de 2% no médio prazo. Ainda agora disse que estamos prontos para usar todos os instrumentos para cumprir este mandato. E nós não temos como alvo a taxa de câmbio”, disse Mario Draghi, sem dizer mais uma palavra, perante algum riso da audiência sobre o seu silêncio.

Mas Donald Trump não desarmaria e continuaria a insistir no tema, desta vez apelidando o líder do BCE de ‘Mario D’.

Num comentário a Yannis Stournaras, governador do Banco da Grécia, Mario Draghi voltou a dizer o mesmo, mas no final já com um sorriso na cara: “Yannis, lembra-te, nós não temos como alvo a taxa de câmbio”.

Também Fischer aproveitou para criticar o presidente norte-americano. Após um longo discurso focado na independência do banco central sem nunca se referir a Donald Trump — que tem sido particularmente crítico em relação à subida de juros pela Fed e em relação ao presidente Jerome Powell –, acabou por rematar com um comentário sobre o magnata do imobiliário: “Se for reeleito, os EUA vão tornar-se num país do terceiro mundo, tendo em conta a forma como o Governo federal está a ser gerido”.

“Jerome Powell conhece a lei do banco central. A lei é que o governo não pode dar ordens ao banco central no que à determinação de políticas diz respeito”, disse, acrescentando no entanto que isto será um problema mais tarde, uma vez que o mandato do presidente da Reserva Federal é de apenas quatro anos e que, caso Trump seja reeleito, poderá escolher um novo presidente do banco central que esteja mais alinhado com o seu pensamento.

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