Camionistas escrevem carta aberta. Pedem “perdão” aos portugueses, mas greve é para avançar

Motoristas desafiam ANTRAM para debate sobre negociações. Pedem desculpa aos portugueses pelo transtorno de uma nova greve, mas lembram: "Somos portugueses a passar pelo mesmo que muitos de vós".

O Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias (SIMM) e o Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) divulgaram esta tarde uma carta aberta à ANTRAM e também aos portugueses. À Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM) é feito um desafio para um debate televisivo, e aos portugueses são pedidas desculpas que uma nova greve possa causar.

“Desde já pedimos perdão aos portugueses por eventuais transtornos no seu quotidiano”, dizem os dois sindicatos, a propósito do novo pré-aviso de greve em preparação. Mas pedem compreensão: “Sabemos que os portugueses nos vão perdoar por ao fim de 22 anos pensarmos um pouquinho em nós e nas nossas famílias, afinal de contas também somos homens e mulheres, pais, mães, filhos, etc…, somos portugueses a passar pelo mesmo que passam muitos de vós.

O SNMPP foi o sindicato que convocou o protesto que em abril quase paralisou o país por completo, protesto que na altura só não teve a adesão do SIMM por uma questão de dias. Esta greve acabou por levar à intermediação do Governo entre patrões e motoristas, que ao cabo de duras negociações acabaram por aceitar um acordo genérico para um Contrato Coletivo de Trabalho (CCT) que devia ser negociado ao longo dos meses seguintes.

Contudo, este sábado, perto de três centenas de motoristas estiveram reunidos no 1º Congresso Nacional de Motoristas, onde acabaram por aprovar levar para a próxima reunião com a ANTRAM, dia 15, um pré-aviso de greve a partir de 12 de agosto, do qual só abdicam se entrar em vigor a proposta de CCT por si aprovada — que prevê aumento do salário base de 100 euros nos próximos três anos (1.400 euros brutos para 2020, 1.600 para 2021 e 1.800 para 2022), indexado ao aumento do salário mínimo, melhoria das condições de trabalho e pagamento das horas extraordinárias, entre outras medidas.

Em reação à decisão tomada pelo Congresso, a ANTRAM acusou os motoristas de agirem de forma premeditada. “Esta posição até já era esperada, depois de na semana passada o processo negocial ter sido interrompido por iniciativa dos sindicatos que nem sequer aguardaram pelas respostas da ANTRAM às suas propostas”, apontou a associação em comunicado.

No documento, a ANTRAM salientou igualmente constatar “com grande preocupação” a postura dos dois sindicatos, por se pautar “por uma lógica de conflito, ausência de lealdade negocial e desrespeito pelos compromissos escritos assumidos com as restantes entidades do setor do transporte rodoviário de mercadorias, incluindo o próprio Governo”. E é contra isto que a carta aberta se insurge.

Segundo os dois sindicatos que representam mais de 1.400 camionistas de mercadorias — perigosas e não só –, esta posição da ANTRAM é não mais do que uma “tentativa de manipulação da opinião pública” por parte dos representantes das empresas.

“Cansados destes joguinhos de diplomacia”

“Não podemos deixar de registar com desagrado a tentativa de manipulação da opinião pública com o intuito de fazer passar uma imagem que não corresponde à verdade”, começa por se ler na carta aberta dos sindicatos. Onde assumem: “Não desejamos a greve por variadíssimas razões, a principal é a perfeita consciência do impacto e do transtorno que vai causar aos portugueses e à economia do país.Mas ao fim de 22 anos, chegou a hora de bater o pé, justificam.

“Andamos há 22 anos a servir a economia e o país com elevado sentido de responsabilidade e verdadeiro espírito de missão, sabemos que os portugueses nos vão perdoar por ao fim de 22 anos pensarmos um pouquinho em nós e nas nossas famílias, afinal de contas também somos homens e mulheres, pais, mães, filhos, etc…, somos portugueses a passar pelo mesmo que passam muitos de vós.” E passam de seguida a explicar aos portugueses que toda a abertura a que se foi assistindo por parte das empresas de transporte não foi mais que ‘joguinhos’.

“Os motoristas estão cansados destes joguinhos de diplomacia cujo único objetivo é, simular abertura e interesse em melhorar o setor para que no fim tudo fique na mesma e os motoristas continuem a alimentar a sustentabilidade do setor com base na precariedade das suas condições laborais e sociais“. E lembram que quando chega a hora de falar com os patrões, sofrem com o mesmo que muitos portugueses enfrentam: “Muitos dos atuais gestores chegaram ao setor no tempo do quero, posso e mando, nunca conheceram o diálogo, apenas o ‘eu imponho tu obedeces’!”

“Vamos de uma vez esclarecer a opinião pública”

É neste ponto em que a carta aberta concentra baterias na ANTRAM, com os sindicatos a voltarem novamente a pedir a realização de um debate com os representantes das empresas de transporte de mercadorias para “esclarecer a opinião pública”, de uma vez por todas, sobre a guerra entre motoristas e empresas.

“O SIMM e o SNMMP desafiam a ANTRAM e os demais intervenientes para um debate televisivo sobre toda a situação, vamos falar do processo negocial em curso, dos protocolos e acordos de compromisso celebrados, das várias propostas já apresentadas”, apresentam como desafio. E se é para debater, que se debata tudo, defendem. “Não nos vamos cingir ao processo negocial em curso, vamos falar sobre o que se tem passado no setor nos últimos 22 anos e que levou os motoristas a assumirem agora estas tomadas de posição.”

“Também vamos falar na forma de pagamento das ajudas de custo e quem são os verdadeiros beneficiários e os prejudicados por esse tipo de pagamento”, prosseguem, numa alusão à acusação de que várias destas empresas pagam ajudas de custo ‘por baixo da mesa’, apontando também querer falar da perda de direitos associada a uma valorização salarial levada a cabo em 2017, ou do stress a que a profissão sujeita os trabalhadores e do trabalho “que é feito pelos motoristas sob coação das entidades patronais, chefes de tráfego e até dos operadores logísticos com a vossa conivência”.

Em resumo: “Vamos falar de tudo?”, rematam.

A carta aberta, assinada por Jorge Cordeiro (SIMM) e Francisco São Bento (SNMMP), termina com os sindicatos a manifestarem que aguardarão “a resposta” a estes desafio com tranquilidade, mas também com a certeza que “aquele que o recusar tem alguma coisa a esconder”.

(Notícia atualizada às 19h30)

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Camionistas escrevem carta aberta. Pedem “perdão” aos portugueses, mas greve é para avançar

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião