Banca dá zero. Nem assim fundos e seguros conseguem atrair poupanças

Supervisor do mercado de capitais traça um retrato em que os aforradores ficam limitados aos depósitos e produtos de investimento do Estado. A gestão de ativos é quase exclusiva para grandes clientes.

Os fundos de investimento e os produtos de aforro das seguradores não conseguem atrair as poupanças dos portugueses — que continuam a apostar na segurança dos depósitos e dos certificados –, enquanto a gestão de ativos é dominada pelas famílias ricas que gostam de investir em dívida. É este o retrato pouco animador do mercado de capitais em Portugal, tirado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Num quadro de baixas ou mesmo nulas taxas de remuneração [dos depósitos a prazo], nem o setor segurador nem o dos fundos de investimento têm conseguido afirmar-se como dinamizadores da poupança em Portugal, e não têm constituído alternativas para a aplicação das poupanças dos investidores, que continuam a preferir alternativas mais tradicionais, mas também de menor risco”, refere o supervisor no Relatório sobre os Mercados de Valores Mobiliários de 2018.

Por um lado, as novas subscrições de depósitos a prazo ultrapassaram os oito milhões de euros no ano passado (especialmente entre os particulares) e as aplicações em certificados de aforro e do Tesouro também foram superiores aos resgates. Por outro, a atratividade foi menor em outros instrumentos financeiros.

Depósitos a prazo lideraram crescimento em 2018

Fonte: Relatório sobre os Mercados de Valores Mobiliários (2018) da CMVM

Entre subscrições e resgates, o saldo dos fundos de investimento mobiliário nacionais foi negativo em 412 milhões de euros. Nos fundos estrangeiros comercializados em Portugal, foi positivo, mas menor que nos últimos cinco anos. “Esta evolução diferenciada acentuou a perda de relevância dos fundos de investimento mobiliário geridos por entidades nacionais em matéria de aplicação de poupanças por residentes”, assinala a CMVM.

A exceção são os fundos de investimento imobiliário abertos, que voltaram no ano passado a registar subscrições líquidas positivas, “o que está certamente associado à dinâmica recente do mercado imobiliário em Portugal e aos níveis de rentabilidade mais elevados que este tipo de fundos tem proporcionado”.

"Num quadro de baixas ou mesmo nulas taxas de remuneração [dos depósitos a prazo], nem o setor segurador nem o dos fundos de investimento têm conseguido afirmar-se como dinamizadores da poupança em Portugal, e não têm constituído alternativas para a aplicação das poupanças dos investidores.”

CMVM

Do lado dos seguros, os produtos de aforro (incluindo unit linked, operações de capitalização e fundos de pensões de adesão individual) também tiveram subscrições marginalmente superiores aos resgates, de acordo com os dados da CMVM. “Nos últimos seis anos assistiu-se a um forte desinvestimento (4.867 milhões de euros) em produtos do setor segurador, o que estará associado às baixas taxas de longo prazo proporcionadas pelos títulos de taxa fixa”, revela o supervisor.

Gestão de ativos dominada por famílias ricas que adoram dívida pública

Todo o setor da gestão de ativos em Portugal está mais fraco e com menor peso junto dos pequenos aforradores. O total de ativos sob gestão (individual e coletiva) atingiu 86 mil milhões de euros (42,7% do PIB) no final de 2018, o que representa uma descida de 0,6% em relação ao ano anterior. Se a gestão individual aumentou 1%, a gestão coletiva caiu 5,3%.

Coletiva é a gestão das várias aplicações de investidores de retalho e esta representa apenas 19 em cada 100 euros sob administração de sociedades financeiras. Ou seja, os restantes 81% correspondem a carteiras individuais como fortunas de famílias (a esmagadora maioria), mas também fundos de pensões, empresas ou outros clientes institucionais.

Ativos sob gestão continuam abaixo dos níveis de 2010

Fonte: Relatório sobre os Mercados de Valores Mobiliários (2018) da CMVM

O instrumento financeiro preferido dos gestores nacionais de carteiras individuais tem sido a dívida pública, em particular a nacional, que este ano apresenta um dos melhores desempenhos entre os soberanos europeus. Já na gestão coletiva, a dívida privada estrangeira assume maior relevância. As ações apresentaram um peso reduzido (menos de cinco em cada cem euros investidos) na gestão nacional de ativos, num ano em que o índice português PSI-20 desvalorizou 12,2% e o europeu Stoxx 600 caiu 13,2%.

“O mercado obrigacionista de dívida privada continua a representar uma importante fonte de financiamento de longo prazo para as empresas e representa uma classe de ativos para os investidores”, diz ainda o supervisor. A dívida privada emitida em Portugal ascendeu a 16.787 milhões de euros em 2018 (mais 5,1% que no ano anterior), com as empresas a recorrerem a este tipo de financiamento em alternativa ao crédito da banca, que caiu 4,2%. Do lado dos investidores, não há apetite, salienta a CMVM.

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