China desvaloriza moeda para contra-atacar Trump, mas arrisca efeitos colaterais

Desvalorização da moeda chinesa poderá mitigar os efeitos das novas tarifas de Donald Trump. Mas está livre de novas retaliações por parte dos EUA nem do impacto negativo na economia e nos mercados.

A guerra comercial entre Estados Unidos e China ganhou novos contornos de guerra cambial. O banco central da China nega que seja o caso, apesar de ter desvalorizado a moeda para o valor mais baixo em mais de uma década. O volte-face no conflito permite aos chineses terem mais controlo e limitar o impacto das ameaças norte-americanas. No entanto, há riscos e os analistas esperam que a estratégia seja limitada.

As taxas de câmbio do yuan chinês face ao dólar norte-americano quebraram a barreira psicológica de sete yuans para um dólar, nos mercados locais. O Banco Popular da China rejeitou a ideia que irá “envolver-se numa desvalorização competitiva” ou “usar a taxa de câmbio para fins competitivos”. Mas não negou que a movimentação estivesse relacionada com a guerra comercial depois de, na última semana, o presidente dos EUA ter anunciado novas tarifas aduaneiras a todas as importações da China.

Algumas situações novas que surgiram recentemente a nível económico internacional e as tensões comerciais, fizeram alterar as expectativas do mercado“, justificou o banco central, em comunicado. “Afetadas por isso, muitas moedas desvalorizaram face ao dólar norte-americano e a taxa de câmbio do yuan também foi afetada em certa medida”.

A cotação, a mais baixa desde abril de 2008, indica o enfraquecimento da divisa chinesa, mas joga a favor do gigante asiático. A um mês de entrarem em vigor novas tarifas de 10% sobre produtos chineses avaliados em 300 mil milhões de dólares, o yuan mais fraco torna os produtos chineses mais baratos. O efeito cambial poderá colmatar o aumento das taxas nos preços e impedir uma redução nas importações.

Por outro lado, torna mais caro a detentores de moeda chinesa comprarem em dólares, o que desincentiva a compra de produtos norte-americanos. E esta realidade não é limitada à China já que a moeda tem ganho relevância global. Em especial, as moedas de outros países asiáticos — como a Coreia do Sul, Taiwan ou Singapura — são especialmente vulneráveis às movimentações, tal como acontece com uma série de países africanos que usam o yuan como reserva cambial.

Há ainda uma terceira forma em que a China conseguiu afetar os EUA. Os investidores veem a escalada da guerra comercial com receio, levando a uma fuga de ativos de risco como as ações para refúgios como a dívida alemã, o ouro ou… o dólar norte-americano. O apetite valoriza ainda mais a moeda e irrita ainda mais Donald Trump.

“A China afundou o preço da moeda praticamente para mínimos históricos. Chama-se «manipulação cambial». Está a ouvir Reserva Federal dos EUA? Esta é uma violação enorme, que irá a prazo enfraquecer muito a China“, escreveu o Presidente dos EUA, no Twitter.

Fotomontagem: Lídia Leão / ECO

Ato isolado é o mais provável, mas yuan ainda pode cair mais

Em parte, Trump tem razão. A desvalorização da moeda torna as exportações mais baratas e atrativas (dinamizando a economia), mas também as importações mais caras. No caso de produtos importados que não possam ser substituídos por produção interna, as famílias e empresas têm de pagar o preço mais elevado. Em simultâneo, a inflação tende a acelerar, o que impulsiona o crescimento económico, mas causa uma queda do poder de compra pela redução dos salários reais.

Além de empresas dependentes de produtos estrangeiros, também as cotadas chinesas em bolsas estrangeiras são especialmente penalizadas ao tornar-se menos atrativas, enquanto os investidores estrangeiros podem gerar uma forte saída de capitais do país. Para as contas públicas, a dívida do país torna-se mais pesada de reembolsar.

O risco associado às guerras cambiais, a par dos acordos internacionais com vista a garantir a paz entre países, tornaram esta estratégia cada vez mais rara. Durante a Grande Depressão nos anos 1930, o ouro deixou de ser usado como paridade e as desvalorizações cambiais eram comuns, mas a chegada do sistema de Bretton Woods (após a Segunda Guerra Mundial) pôs fim à manipulação.

"Consideramos improvável um crash dramático do yuan. Por um lado, o yuan ainda não quebrou mínimos de sempre contra o cabaz de moedas que reflete o cabaz comercial. Por outro, as autoridades têm mais capacidade de lidar com a fuga de capitais do que tinham em 2015.”

Enrique Dias-Alvarez

Chief risk officer da Ebury

Em 2005, devido à crise asiática, e em 2010, devido à crise nos EUA e Zona Euro, os receios de uma guerra cambial regressaram. Em 2015 foi um forte e prolongado sell off nas bolsas asiáticas a determinar a desvalorização do yuan. De todas essas ocasiões, aquela em que houve maior dificuldade em controlar a situação foi a última. Desta vez, a grande dúvida é se este será um ato isolado ou se a China irá mais longe.

“A China puxou da arma ‘taxa de câmbio’ e desvalorizou o yuan face ao dólar. Reinicia a guerra cambial, mostrando que também tem cartas na manga”, afirmou Carla Maia Santos, sales team leader da corretora XTB. Já a ActivTrades lembra que abrir uma “nova frente” na guerra comercial entre os dois blocos contribui para “inflamar ainda mais uma situação” que ameaça o crescimento da economia global.

Será, assim, provável que esta desvalorização do yuan seja apenas um aviso por parte da China, não sendo de esperar que o declínio persista”, referiram os analistas ActivTrades. A Ebury, fintech especializada em câmbio, concorda que a escala de tensão pode desacelerar, mas o yuan cair ainda mais não está fora de questão.

“Consideramos improvável um crash dramático do yuan”, disse Enrique Dias-Alvarez, chief risk officer da Ebury. “Por um lado, o yuan ainda não quebrou mínimos de sempre contra o cabaz de moedas que reflete o cabaz comercial. Por outro, as autoridades têm mais capacidade de lidar com a fuga de capitais do que tinham em 2015, da última vez que houve um susto sério com o yuan, pelo que qualquer sell off tem uma maior probabilidade de ser controlado“, conclui.

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