T-Roc dá força às exportações mas o setor tem dificuldades pela frente

A indústria automóvel está a acelerar as exportações nacional, dando um importante contributo para o crescimento. Portugal brilha neste setor, mas o Banco de Portugal alerta para perigos na "estrada".

Portugal está a ganhar peso na produção automóvel. Com o K9, nome de código para o Peugeot Partner, Citroën Berlingo e Opel Combo, mas principalmente do Volkswagen T-Roc, conquistou um lugar mais destacado na indústria europeia, ao mesmo tempo que começou a sentir os efeitos positivos nas exportações. O setor está a dar dinamismo às exportações, refletindo-se positivamente no comportamento da economia. A rota é positiva, mas o GPS do Banco de Portugal apresenta alguns alertas para perigos que podem surgir mais adiante.

“O setor de produção automóvel em Portugal tem apresentado um dinamismo elevado desde a segunda metade de 2017, com reflexo positivo nas exportações de bens”, lê-se no Boletim Económico, num destaque específico para esta indústria no mercado nacional. Este dinamismo expressa-se com o aumento de 27,7% na produção de ligeiros em 2017, seguida de um disparo de 85,6% em 2018, ano em que se alcançou o recorde de produção, destronando o ano de 1998.

Em 2017, a explicação para o forte crescimento da produção está no arranque da produção do T-Roc, na Autoeuropa, de Palmela. Em 2018, há dois fatores que quase mais do que duplicaram o número de veículos que saíram das fábricas nacionais. Por um lado, o T-Roc entrou em produção cruzeiro, ao mesmo tempo que o aumento da capacidade da linha de produção permitiu colocar mais dois T-Roc por hora no parque. Por outro, a fábrica da PSA de Mangualde começou já a produzir o K9, um ligeiro de mercadorias que começou a ser comercializado já este ano.

Portugal tem crescido na produção automóvel, mantendo essa tendência este ano: há um aumento de 22,3% no primeiro semestre. “Dado o seu dinamismo, as exportações deste setor mantiveram um contributo notório para o crescimento das exportações totais de bens em termos nominais no primeiro semestre de 2019, ainda que inferior ao do ano anterior (contributos de dois e três pontos percentuais, respetivamente, no primeiro semestre de 2019 e 2018)”, nota o Banco de Portugal. O país surge em 5.º lugar no ranking de países do euro em termos de peso nas exportações.

Portugal a ganhar quota… numa Europa a travar

Exportações do setor são dignas de nota pelo Banco de Portugal, traduzindo-se positivamente no comportamento da economia portuguesa que no ano passado cresceu 2,4% e deverá acelerar 1,9% este ano, nas contas do Governo. E o país está a aumentar a sua relevância como produtor de veículos a nível europeu, mas também mundial. “As exportações cresceram acima da procura externa relevante nos dois últimos anos, o que implicou ganhos de quota nos mercado externos, uma tendência que se deverá ter mantido na primeira metade de 2019”, refere o Boletim Económico.

“Este desempenho é particularmente assinalável já que ocorreu num contexto de perturbações da oferta do setor a nível europeu na segunda metade de 2018, decorrentes da introdução de uma nova norma regulatória relacionada com a emissões de gases poluentes“, o WLTP que veio substituir o NEDC, obrigando muitas fábricas a pararem para se adaptarem ao novo sistema. E a nível mundial há “uma preocupação crescente no setor com fatores de procura, num contexto de incerteza”, alerta o Banco de Portugal.

"Num contexto de desaceleração da atividade global, eventuais decisões de redução da produção por parte de um conjunto limitado de empresas multinacionais podem ter um impacto macroeconómico relevante [em Portugal].”

Banco de Portugal

Por um lado, há o Brexit. O Reino Unido tem um peso relevante nas exportações de automóveis produzidos no mercado nacional — 97% segue para exportação –, representando 10,7% do total em 2018. Este ano, as exportações para o Reino Unido já caíram 14% no primeiro semestre, afirmou recentemente Helder Pedro, secretário-geral da Associação do Comércio Automóvel de Portugal (ACAP). Por outro lado, há questões como as políticas protecionistas, nomeadamente dos EUA, sendo que a maior incerteza prende-se com a desaceleração da economia global. O FMI vai cortar as suas previsões.

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Estes fatores de incerteza são preocupantes, ameaçando o dinamismo que se tem observado no setor em Portugal. Mas há mais alertas a ter em conta. E estes são ainda mais perigosos. “O enquadramento nos países desenvolvidos é de redução tendencial da procura de veículos automóveis de passageiros, dado o fraco crescimento populacional e a elevada densidade automóvel já existente”, nota o Boletim Económico.

“As alterações nas preferências dos consumidores no sentido de veículos mais ecológicos”, mas também de mobilidade partilhada, como seja o crescente recurso ao carsharing, “são tendências que criam desafios aos produtores”. A juntar a isto há ainda os avanços tecnológicos ligados ao software dos veículos (veículos autónomos e conectividade), com a entrada de novos fornecedores no mercado, que podem provocar alterações na cadeia de valor do setor.

“Estes desafios assumem acentuada relevância no contexto do setor em Portugal, fortemente dependente de investimento direto estrangeiro e da procura externa“, alerta o Banco de Portugal. “Num contexto de desaceleração da atividade global, eventuais decisões de redução da produção por parte de um conjunto limitado de empresas multinacionais podem ter um impacto macroeconómico relevante”, acrescenta o regulador, notando, no entanto, que a reestruturação das cadeias de produção também pode ter oportunidades para o país. É importante, para as agarrar, “promover um enquadramento institucional favorável” ao setor.

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