Meta do Governo para o crescimento deste ano está praticamente garantida

Apesar do abrandamento verificado no terceiro trimestre, a primeira metade do ano foi melhor que o esperado e deixa a economia numa posição muito confortável para crescer pelo menos 1,9% este ano.

A economia abrandou no terceiro trimestre do ano, com o investimento a crescer menos e a procura externa dirigida à economia portuguesa a pesar sobre a economia. A perda de fôlego não é uma boa notícia, mas também não é inesperada num contexto de abrandamento generalizado, mas, juntamente com a revisão operada pelo Instituto Nacional de Estatística nos dados da primeira metade do ano, a previsão de crescimento de 1,9% feita pelo Governo está praticamente garantida.

Depois da forte revisão em alta do crescimento da economia em 2017 e em 2018, esta quinta-feira o INE também reviu em alta os dados da primeira metade do ano. Em comparação com os trimestres imediatamente anteriores, a economia cresceu mais uma décima no primeiro e no segundo trimestres, passando a 0,6%.

Já quando se compara com o mesmo trimestre do ano anterior, a melhoria dos dados é ainda mais pronunciada. Em vez de crescer 1,8% no primeiro e no segundo trimestres, a economia afinal cresceu 2,1% nos primeiros três meses, e 1,9% entre abril e junho.

Evolução da economia portuguesa

Por essa razão, a primeira estimativa do INE para o PIB no terceiro trimestre dá sinais contraditórios. Por um lado, quando se analisam os dados em cadeia, a economia demonstra um abrandamento expressivo, de um crescimento de 0,6% para 0,3%, algo que tinha conseguido evitar até agora, mas uma tendência que se tem vindo a verificar entre as principais economias mundiais. Por outro lado, quando se comparam os dados com o mesmo período do ano passado, a economia mantém o ritmo de crescimento nos 1,9%, consistente com a estimativa para o conjunto do ano do Governo.

Na opinião do economista chefe do Montepio, Rui Bernardes Serra, a meta do Governo não só é exequível, como até pode ser ultrapassada. Para que a economia falhar a meta do Governo, seria necessária uma travagem mais brusca no último trimestre do ano.

“A nossa estimativa era de um crescimento em cadeia de 0,3% — entre 0,2% e 0,4% — no terceiro trimestre e um crescimento homólogo de 1,9%, crescimentos que foram confirmados. Mantemos a nossa previsão anual para 2019 de um crescimento de 2%, pelo que é exequível a meta do Governo de 1,9%”, explicou o economista.

Rui Serra diz que para atingir a meta “bastaria que a economia crescesse mais de 0,22%” — em comparação com o trimestre anterior — nos últimos dois trimestre do ano, sendo que os dados revelados esta quinta-feira pelo INE já dão conta de um crescimento superior no terceiro trimestre.

Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade, diz que os dados divulgados esta quinta pelo INE estão em linha com o que já era esperado pela organização, por isso “não têm nada de surpreendente”, explicando que o abrandamento da economia já era esperado.

Sobre a meta de crescimento de 1,9% para este ano, o economista diz que “seria necessária uma queda muito abrupta no último trimestre” para que não fosse atingida, algo que não espera que aconteça, especialmente quando já vamos a meio do trimestre e não há sinais a apontar nesse sentido.

No que diz respeito ao próximo ano, o cenário é diferente. “O cenário de abrandamento deve continuar nos próximos trimestres. A conta externa deve continuar a deteriorar-se e a contagiar a procura interna”, diz, lembrando que o Fórum para a Competitividade já antecipa uma “desaceleração face a este ano”.

“Aliás, há convergência nesse sentido [nas previsões das principais instituições para um abrandamento]. Só o Ministério das Finanças é que está desalinhado”, disse.

José Brandão de Brito, economista chefe do Millennium BCP, também diz que os números divulgados hoje estão em linha com o esperado, de um abrandamento na parte final do ano.

“O número para o PIB do terceiro trimestre divulgado pelo INE veio em linha com as expetativas da generalidade dos analistas e revela alguma atenuação do ritmo de crescimento, o qual no entanto se manteve bem acima do verificado no conjunto da área do euro”, disse.

O economista explica que a manutenção do crescimento através do consumo privado é uma tendência que se verifica nas principais economias. Por isso, diz, o banco mantém a estimativa para a totalidade do ano, que é de um crescimento de 1,9%, a mesma previsão que a do Governo.

As instituições que dispõem de previsões atualizadas — FMI, Comissão Europeia e Conselho das Finanças Públicas — antecipam um abrandamento da economia durante o ano de 2020, para valores entre os 1,6% e os 1,7%. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) atualiza as suas previsões na próxima semana. O Banco de Portugal também fará uma atualização nas próximas semanas.

O Governo é, nesta altura, o único que está a prever um cenário de aceleração da economia em 2020, tendo enviado para Bruxelas novas previsões para economia a 15 de outubro que colocam o crescimento da economia em 2% no próximo ano.

 

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