“Europa não pode deixar que sejam EUA e China a tomar as decisões”, diz Trichet

  • Lusa
  • 17 Novembro 2019

"Somos a economia aberta mais importante do ponto de vista do comércio global (...) e devemos defender ferozmente o nosso interesse", disse o ex-presidente do BCE.

O antigo presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, considera que a Europa deve defender “ferozmente” os seus interesses no comércio global e não pode deixar que as decisões sejam tomadas apenas pelos Estados Unidos e China.

Não podemos deixar que as decisões sejam tomadas pelos Estados Unidos e pela China sozinhos. Somos a economia aberta mais importante do ponto de vista do comércio global, somos o mercado mais importante do mundo no que diz respeito ao comércio global, e devemos defender ferozmente o nosso interesse”, afirmou o antigo presidente do BCE, em entrevista à Lusa.

Questionado sobre como pode uma economia como a portuguesa, muito aberta ao exterior, proteger-se de riscos internacionais, o economista francês disse que é importante “ser flexível” e parte de um “conjunto mais amplo e coeso de países e economias”, frisando que Portugal é uma pequena economia, mas integrada na zona euro.

Trichet disse ainda que se trata, na verdade, de um problema da União Europeia (UE) no seu conjunto. “A UE no seu conjunto e a zona euro são mais abertas ao comércio internacional do que os Estados Unidos da América. Posso até dizer que somos duas vezes mais abertos ao comércio internacional em termos de volume de exportações e importações tendo em conta o PIB”.

Trichet acrescentou que a UE está também duas vezes mais integrada nas cadeias globais de valor que os Estados Unidos, o que faz com que o protecionismo norte-americano contra a China, mas também contra a Europa, “constitua um perigo muito importante” para os europeus. “Porque somos duas vezes mais vulneráveis que os Estados Unidos a uma diminuição do comércio global, a uma diminuição das nossas exportações”, salientou.

Questionado sobre o Brexit, Trichet manifestou-se convicto de que “foi um erro”. “Não é do interesse do Reino Unido e creio que também não é do interesse da Europa”, afirmou, admitindo que alguns franceses pensam que, uma vez que o Reino Unido não embarcou verdadeiramente no processo de integração da UE, não partilhando totalmente a visão histórica de longo prazo, talvez fosse melhor sair.

Contudo, o antigo presidente do BCE frisou não pensar dessa forma e considerou ser “realmente uma pena” a saída do Reino Unido da UE, com impacto na “influência da Europa como um todo e também na sua capacidade de ser uma voz forte no cenário global”.

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