Guerra comercial acelera tecnologia europeia. Mas ecossistema em Portugal abranda

O estudo "Estado da tecnologia Europeia 2019" conclui que o ecossistema tecnológico português sofreu abrandamento durante o último ano, com menos financiamento e crescimento de talento.

A guerra comercial tem trazido ao setor tecnológico europeu um dinamismo digno de nota, mas Portugal não tem beneficiado com esse incremento. É essa a conclusão do relatório “Estado da tecnologia europeia 2019“, que refere que o crescimento da tecnologia em Portugal abrandou durante este ano.

De acordo com as conclusões do estudo divulgado esta quinta-feira, “à medida que o mundo se focava no choque entre os governos americano e chinês e o mercado global sofria, a tecnologia europeia continuava, silenciosamente, o seu crescimento firme e sólido apesar da queda de Portugal“: em 2019, as empresas tecnológicas europeias registaram números recorde de mais de 26 mil milhões de euros de financiamento, de acordo com a Dealroom, face aos 22 mil milhões angariados no ano anterior. O número aumenta para os 34,3 mil milhões se considerarmos o capital investido na Europa, um aumento de 124% face a esse período.

Já em Portugal, o ano deverá fechar com uma queda de financiamento de 66% face a 2018, para 126 milhões. A quebra reflete o efeito da ronda de 322 milhões levantada pelo unicórnio OutSystems em 2018.

 

Capital investido em milhares de milhões de dólares na Europa, Estados Unidos e Ásia, por ano.

“Se a ronda da OutSystems fosse retirada, o investimento em tecnologia portuguesa seria, na verdade, 1,4 vezes superior face ao ano passado”, explica Tim Wehmeier, parceiro e head of insights na Atomico, ao ECO.

Ainda assim, o relatório sublinha que há outras áreas tecnológicas em que Portugal cresceu durante este ano. Uma delas é como hub de deep tech, na qual o financiamento chegou aos 89 milhões, igualando o somatório dos últimos cinco anos.

“Estamos a assistir a um aumento no investimento deep tech pela Europa, porque as universidades e instituições de pesquisa melhoraram a sua capacidade de comercializar pesquisas e apoiar investigadores que escolhem abordar o percurso empreendedor. Portugal tem talento forte comparado com outros países do sul da Europa. Existem 9.123 programadores profissionais por cada milhão de pessoas, mais do que em Itália, Espanha e França, e 4,299 investigadores em pesquisa e desenvolvimento por milhão de pessoas, mais do que em Itália e Espanha”, esclarece o head of insights na Atomico.

Europa (ainda) pouco diversa

Cerca de 92% do financiamento obtido por tecnológicas em Portugal e Espanha, em 2019, foi para equipas de homens, um nível semelhante ao de 2018. O relatório conclui que, nas 119 empresas avaliadas entre os dois países — apoiadas por fundos de investimento que angariaram rondas de Série A ou B entre 1 de outubro de 2018 e 30 de setembro de 2019 –, existe apenas uma mulher no cargo de Chief Technology Officer (CTO), apesar de 7,5% das engenheiras de software serem mulheres.

Ainda assim, no que toca ao investimento, a Europa continua bem aquém da realidade nos Estados Unidos. “O facto de a tecnologia americana ter 40-50 anos de avanço em relação à Europa é usualmente esquecido. Se voltássemos atrás no tempo até ao ponto onde a América estava num nível semelhante, seria claro que a Europa está relativamente avançada. A probabilidade de a próxima Google do mundo ser construída na Europa aumentou drasticamente nos últimos anos. Estamos no caminho para fazê-lo, e faremos mais rapidamente que Silicon Valley”, acrescenta o responsável, sublinhando que o velho continente irá, nessa missão, criar uma marca própria. “Iremos criar o nosso próprio caminho com os nossos valores. Estes valores incluem mais cooperação com reguladores, especialmente em temas como a privacidade, construção de empresas diversificadas e inclusivas, e ter um propósito, ou seja, encontrar soluções para alguns dos maiores problemas que a humanidade está a enfrentar”.

Para Chris Grew, parceiro da Orrick baseado em Londres, que foi classificado como o melhor advisor de capital de risco na Europa por 14 trimestres consecutivos, “todos os sinais apontam para o facto claro de que o ecossistema tecnológico é o engenho de maior crescimento para a Europa — com mais empresas tecnológicas privadas, bem-sucedidas e bem financiadas que nunca e um curto percurso para tais empresas que atingem status de unicórnio. (…) Ao mesmo tempo, os avanços tecnológicos continuam a não acompanhar a regulamentação — e devemos colaborar para abordar este problema – tendo em conta as vertentes de business e social”.

A probabilidade de a próxima Google do mundo ser construída na Europa aumentou drasticamente nos últimos anos. Estamos no caminho para fazê-lo, e faremos mais rapidamente que Silicon Valley.

Tom Wehmeier

Parceiro e head of insights na Atomico

Europa, terra de IPOs

O estudo revela ainda que a Europa, nos últimos seis anos, produziu mais IPOs do que os Estados Unidos, um facto que pode ser surpreendente para muitos. O número de IPOs em empresas tech na Europa também é superior, comparativamente ao que acontece no continente norte-americano. E se, em 2018, a Europa produziu 87 IPOs de tecnológicas contra apenas 32 nos Estados Unidos, em 2019 o número diminuiu, mas o velho continente continua em primeiro lugar: 33 na Europa contra 29 nos Estados Unidos.

Número de IPO de empresas tecnológicas por região, entre 2015 e 2019.London Stock Exchange

Saúde mental entre empreendedores

Dois em cada oito fundadores diz que o processo de fundação da sua empresa teve um “grande impacto negativo” na sua saúde mental. Entre as principais dificuldades e desafios estão “encontrar o equilíbrio trabalho-vida pessoal” e a “solidão” enquanto estão à frente de uma empresa.

“A saúde mental não é uma campanha de relações públicas, é uma mudança de paradigma”, explica Abby Scarborough, cofundadora da Yena, sublinhando a importância do tema na atração e retenção de talento pertencente às gerações de millennials e Z. “Trata-se de assegurar que os empreendedores têm um sistema de suporte e que têm alguém com quem ter conversas honestas”.

O desafio mais recorrente é o acesso a capital, mas a procura de mentores e conselheiros é outros dos gaps com que os fundadores se debatem quando criam negócios na Europa.

Maiores desafios dos fundadores de startups na Europa.The State Of European Tech Survey

O relatório, realizado pela Atomico em parceria com a Slush e a Orrick, envolveu 5.000 membros do ecossistema tecnológico europeu, incluindo 1.000 fundadores.

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