Subida de juros do BCE, imposto de Trump ou nova moeda asiática. Dez previsões (improváveis) do Saxo Bank para 2020

"As projeções absurdas deste ano têm como tema a disrupção porque o nosso paradigma atual está simplesmente no fim da linha", alerta o economista-chefe do Saxo Bank.

Chegou aquela altura em que se fecham as contas do ano e se fazem previsões para o próximo. Os analistas multiplicam-se em projeções para 2020, ano que será marcado pelas eleições presidenciais norte-americanas e pela continuação de três temas que têm marcado os mercados financeiros: a guerra comercial entre China e EUA, os estímulos do Banco Central Europeu (BCE) e as perspetivas de uma recessão global.

Entre as projeções, há já uma tradição anual: os cisnes negros do Saxo Bank. O banco de investimento dinamarquês divulgou esta terça-feira as suas previsões improváveis para 2020 e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é a figura dominante. Este não é o outlook para o próximo ano, mas sim uma espécie de aviso (exagerado) para potenciais riscos para os investidores caso algum dos eventos se materialize.

“As projeções absurdas deste ano têm como tema a disrupção porque o nosso paradigma atual está simplesmente no fim da linha. Não porque queiramos que acabe, mas porque estender a tendência da última década para o futuro significaria uma sociedade em guerra consigo mesma, os mercados substituídos por Governos, monopólios como único modelo de negócio e um debate público totalmente partidário, altamente fragmentado e polarizado”, explica Steen Jakobsen, economista-chefe do Saxo Bank.

O ambiente é de yields negativas em grande parte da dívida global, desincentivos à poupança das gerações mais jovens, maiores critérios de concessão de crédito e imobiliário com preços altamente insuflados. Neste cenário, o banco alerta que os mecanismos económicos que permitiram às gerações mais velhas criar riqueza poderão estar esgotados.

“Vemos 2020 como um ano em que, em quase todos os ângulos, a disrupção do status quo é um tema dominante. Este ano poderá representar um grande movimento no pêndulo político, das políticas monetária e orçamental, bem como do ambiente“, acrescentou Jakobsen. Face a esta convicção, estas são as dez previsões improváveis desenhadas pelo Saxo Bank para 2020:

1. BCE inverte e sobe juros

A banca europeia, que tem sido penalizada pelas taxas de juro em mínimos históricos a par do reforço da regulação e da competição das fintech, recupera inesperadamente e o índice setorial Stoxx Banks valoriza 30% em 2020. Num volte-face, a nova presidente do BCE, Christine Lagarde, anuncia que a política monetária ultrapassou os limites. Defende que manter a taxa de juro dos depósitos em “terreno” negativo poderia penalizar seriamente o setor e começa, a 23 de janeiro, um ciclo de subidas nos juros. O objetivo é incentivar os países da Zona Euro (em especial a Alemanha) a usar a política orçamental para estimular a economia.

2. Suécia entra em recessão

A posição politicamente correta da Suécia face à imigração torna-se politicamente incorreta, com os partidos a quererem tanta abertura que proíbem qualquer voz anti-migração (que já representa 25% dos votos). O país é invadido por uma atitude massiva de pragmatismo e tornam-se exemplo de más práticas democráticas para outros países. A economia acaba por entrar em recessão e o país afunda numa crise social e económica.

3. Hungria abandona a União Europeia

A Hungria tem vivido um crescimento económico “impressionante” desde a entrada na União Europeia em 2004, mas as relações entre Budapeste e Bruxelas entram em conflito. A UE o procedimento previsto no artigo 7 contra o país devido à repressão dos media, juízes, académicos, minorias e grupos que defendem direitos humanos. A Hungria argumenta que está apenas a defender-se e aproxima-se da Turquia. O país acaba por desistir de adotar a moeda única e decide por fim à relação de 15 anos.

4. Mulheres e millennials levam Democratas a vencer eleições nos EUA

O homem branco que votou em Donald Trump em 2016 tem menor peso no eleitorado norte-americano, com os liberais millennials a ganharem espaço. Motivados pela desigualdade geradas pela política monetária e pelo medo das alterações climáticas, os norte-americanos (em especial jovens e mulheres) viram-se contra Trump. Os Democratas vencem ambos órgãos do Congresso dos EUA e implementam o sistema de saúde Medicare para toda a população. As negociações para baixar os preços dos medicamentos cortam a rentabilidade da indústria e as ações dos setores de saúde e farmacêuticas colapsam 50%.

5. Trump anuncia imposto para reduzir défice

Em guerra comercial há mais de um ano, a China e os EUA chegam a um acordo provisório, no cenário desenhado pelo Saxo Bank. O ano começa com alguma estabilidade graças ao acordo que abrange um desagravamento das tarifas aduaneiras, política cambial e importações de bens agrícolas. Mas a economia norte-americana enfrenta dificuldades e — antes das eleições presidenciais — Trump adota uma nova posição em relação ao protecionismo. O presidente dos EUA cria o “Imposto America First” que reformula todo o sistema tributário, beneficiando a produção nacional. Todas as tarifas são eliminadas e é implementado um IVA igual, de 25%, a todas as receitas vindas de produção estrangeira.

6. Estagflação leva investidores a abandonarem FANG

Com as taxas de juro reais em mínimos e os EUA a acumularem défices crescentes, uma recessão norte-americana leva a Reserva Federal (Fed) a insuflar novamente a folha de balanço, até máximos históricos. O presidente Donald Trump usa a liquidez na economia para financiar um mega programa de infraestruturas que o leve à reeleição. Mas à medida que os estímulos chegam à economia, salários e preços disparam no país. A aceleração da inflação e a subida das yields levam a uma forte desvalorização dos mercados e o MSCI World Value (que agrega empresas médias e grandes com características de valor) supera em 25% as FANG (Facebook, Amazon, Netflix e Google).

7. Na energia, verde não é o novo preto

A combinação de baixos preços do petróleo com a fuga dos investidores a empresas de energia fóssil levou as ações das energéticas tradicionais a negociarem com um desconto de 23% face às empresas de energia limpa. Em 2020, há uma nova inversão no outlook de investimento. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) prolonga os limites à produção, a baixa rentabilidade do petróleo de xisto faz desacelerar o crescimento do setor e a procura volta a aumentar na Ásia. Estes fatores levam não só a indústria do petróleo e gás a ser a vencedora de 2020 como a energia limpa a afundar.

8. Ásia lança nova moeda de reserva

Num cenário de crescente guerra comercial entre as duas maiores economia e de medo de que os EUA transformem o dólar em arma, o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas decide criar uma nova moeda digital de reserva, a Asian Drawing Right (ASR). A China abandona a dependência do dólar norte-americano e outros países asiáticos também concordam em negociar nesta divisa. Cada ADR equivale a dois dólares, fazendo com que a ADR se torne a maior moeda do mundo. Em poucos meses, o dólar desvaloriza 20% contra a ADR e 30% contra o ouro.

9. Dívida da Eskom “eletrocuta” a África do Sul

O dólar norte-americano valoriza face ao rand sul-africano, criando problemas para a África do Sul. O Governo do país anunciou, ainda em 2019, um bailout à empresa de utilities Eskom num processo que irá prolongar-se no próximo ano e levar a despesa pública para o valor mais elevado em mais de uma década. A previsão improvável é que a Eskom possa, assim, levar os credores a deixarem de querer financiar o país. A falta de capacidade de financiamento da África do Sul leva os mercados emergentes para o precipício em 2020.

10. Setor dos chips congelam no inverno da inteligência artificial

As aplicações dos chips geram uma forte queda nos retornos e o índice acionista de semicondutores afunda 50%. O setor tem sido impulsionado pelo crescimento do investimento em infraestruturas em nuvem, criptomoedas, inteligência artificial (IA) ou big data. Mas 2020 marca uma quebra nos retornos e leva o setor de semicondutores a enfrentar uma “parede”. Aliás, toda IA entra num “inverno” semelhante ao dos anos 60 e 80.

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