Líderes: maestros de orquestra ou artistas de jazz?

Improvisar, tocar sem ensaios e sem saber o resultado. Mário Rosa, head of business development da escola Echos, defende que o jazz e a liderança dinâmica têm mais em comum do que podemos imaginar.

As organizações são, muitas vezes, comparadas a orquestras, onde os músicos são os trabalhadores. Os líderes, por outro lado, são comparados aos maestros que conduzem os músicos num concerto. Mário Rosa, head of business development da Echos, escola de design thinking em São Paulo e orador convidado da apresentação da 3.ª edição da Rock in Rio Innovation Week, contraria esta ideia e propõe que se olhe para as organizações como um grupo de artistas de jazz a tocar numa jam session.

Mário Rosa defende que os modelos tradicionais, mais centralizados, dentro das organizações, “são interessantes, mas dependem muito da previsibilidade”. Para o brasileiro, a solução passa por uma liderança dinâmica e descentralizada que crie um espaço seguro para os colaboradores, para que consigam ser criativos, produtivos e preparar-se para a imprevisibilidade de um futuro em rápida transformação.

Jazz: o poder do improviso e da imprevisibilidade

O jazz pode ter mais a ensinar sobre liderança do que aquilo que se pensa. Esta é a convicção de Mário Rosa, que acredita que as jam sessions –momentos de atuação com base no improviso –, podem comparar-se com a liderança dinâmica dentro de uma organização: um ambiente criativo e colaborativo, onde não há medo de errar e arriscar, e onde o objetivo comum é o de fazer a música “soar bem”.

“A jam session atua a partir da interação das pessoas com o improviso, num campo seguro. Não estão num processo competitivo, estão num processo colaborativo, por isso a inovação emerge a partir do que acontece na música entre os solos, e não nos momentos individuais de cada um”, explica Mário Rosa à Pessoas. “Peter Drucker tem uma frase famosa que diz que o protótipo de organização do século XXI é a orquestra sinfónica, porque o maestro define qual vai ser a pauta, onde cada um toca a sua música e todo o mundo tocando a mesma partitura. Quando olhamos para este modelo, é bastante interessante, só que depende muito da previsibilidade“, explica à revista Pessoas.

"A música é a soma dos solos, e não o melhor solo de cada um. É como acontece a inovação também nas nossas organizações. A inovação dá-se com a interação entre as pessoas.”

Mário Rosa

Head of business development da Echos

“Parece que é tudo sem padrão, ou estrutura, mas na verdade é o contrário. O jazz tem uma série de padrões e estruturas que já está enraizado nos músicos. Como já sabem, os músicos conseguem abrir espaço para trazer outros elementos do repertório, e aí começa a improvisação, que é interagir com aquilo que emerge. Num contexto organizacional, vem um novo concorrente, uma nova tecnologia, acontece um desafio político, uma nova lei, e tudo isso faz parte de um contexto que nem sempre é previsível”, sublinha.

Jam room

Durante a sua apresentação, Mário Rosa desafiou os participantes a ouvir duas músicas e a avaliar a dinâmica de trio de jazz a tocar numa jam session. “Há um líder no grupo?”, “Algum instrumento se distingue dos outros?”, “Como é que os músicos reagem ao erro?”, foram algumas das questões feitas ao público, num apelo à reflexão sobre a liderança dinâmica.

Lançamento da 3ª edição do Rock in Rio Innovation Week. LACS Conde d’Óbidos

 

A música é a soma dos solos, e não o melhor solo de cada um. É como acontece a inovação também nas nossas organizações. A inovação dá-se com a interação entre as pessoas”, explicou Mário Rosa.

A música só acontece a partir da genialidade de cada um, em conjunto. E para isso os músicos têm de estar disponíveis. A inovação vem do interagir com aquilo que não é planeado, que é o incerto, do que gera insegurança.

Mário Rosa

head of business development da Echos

“Precisamos de preparar o campo. Não basta colocar juntas as pessoas tecnicamente boas se não estabelecermos um padrão de interação, uma linguagem comum entre elas“, esclarece. Tal como o jazz, “a liderança vai mudando de acordo com o contexto e torna-se dinâmica”, destaca Mário Rosa.

Para alcançar uma liderança dinâmica é preciso “aumentar o grau de interatividade e a qualidade de interatividade entre as pessoas”, defende. “A música só acontece a partir da genialidade de cada um, em conjunto. E, para isso, os músicos têm de estar disponíveis e isso tem a ver com a relação de empatia. A inovação vem de interagir com aquilo que não é o planeado, que é o incerto, com o que gera insegurança”, acrescenta.

A importância das emoções

Não ter medo das emoções é essencial para os futuros líderes que querem apostar neste tipo de liderança, defende o brasileiro. “Quando não alcançamos o nosso campo de vulnerabilidade, não chegamos ao nosso campo das emoções. Não ver a vulnerabilidade como uma fraqueza mas como uma força para conseguir criar esse campo de confiança, para criar campos mais criativos e exercer-se no seu melhor potencial, é um passo fundamental”, aconselha Mário Rosa. Numa liderança dinâmica cria-se um campo favorável para que as pessoas interajam, mas onde também lhes permita sentirem-se seguros e sem medo de arriscar. “A liderança está pautada em entender como é que eu crio esse campo de confiança, de criatividade e de vulnerabilidade, para que as pessoas consigam chegar a outro lugar”, frisa.

“Quando vejo uma organização mais distribuída e a comunicação acontece entre as pessoas, então preciso, enquanto líder, de criar e entender quais são as melhores regras de envolvimento para atuar num novo modelo, que não necessariamente um modelo que precise de um chefe que dá ordens às pessoas. É importante que as pessoas tenham autogestão, que consigam trabalhar com integridade, ver um campo de segurança e responsabilidade”, frisa Mário Rosa.

“A pergunta não é… ‘como faço a inovação acontecer?’ mas sim, ‘como crio o contexto para que a inovação aconteça?'”, acrescenta. “A lógica do jazz traz justamente essa oportunidade de interagir com o que está a acontecer, e com o que está a acontecer com o mundo lá fora. A velocidade das coisas é cada vez maior. O mundo vai passando e a empresa vai-se desconectando e acaba por se tornar obsoleta em algum momento. Esse é o maior risco”, remata Mário Rosa.

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