Está tudo nas “diversabilities”. Como a IKEA tem reforçado aposta na diversidade, de dentro para fora

Sari Brody, responsável pela igualdade, diversidade e inclusão do IKEA, contou à Pessoas quais as estratégias do grupo para ser mais inclusivo e diverso e quais são os desejos para o futuro.

Sari Brody nasceu em Israel e lá viveu a sua juventude. O percurso naquele país acabou por aguçar o seu sentido de justiça e luta pela igualdade e definiu o que viria a ser o seu percurso profissional. Do Médio Oriente partiu para os EUA, onde se formou em psicologia das organizações e tirou um doutoramento em psicologia social na universidade de San Diego. Iniciou o percurso no IKEA em 2001, como consultora para a igualdade de género e garante que foi lá que encontrou uma empresa que ia ao encontro dos seus valores. Desde 2012, é responsável pela área de igualdade, diversidade e inclusão do grupo.

Sari esteve em Portugal a propósito do lançamento do novo plano global de igualdade da empresa. À revista Pessoas revelou as estratégias do grupo para reforçar a aposta da empresa na diversidade, o que tem sido feito para o pôr em prática, e de que forma quer ser uma referência em matéria de igualdade.

Quando chegou à IKEA, Sari Brody conta que não havia diversidade nas chefias e a empresa tinha uma cultura “onde as pessoas podiam ser elas próprias, mas não era muito diversa”, começa por contar. Desde a sua entrada na empresa, o grupo tem apostado em políticas de igualdade de género, desde a chefia até aos serviços de atendimento ao público. A IKEA tem hoje 49,6% de igualdade de género entre os 18.000 trabalhadores que ocupam cargos de gestão a nível global.

Sari Brody, responsável pela igualdade, diversidade e inclusão do grupo IKEA, em entrevista ao ECO/Pessoas
Sari Brody, responsável pela Igualdade, Diversidade e Inclusão do grupo IKEA, em entrevista à Pessoas.Hugo Amaral/ECO

A tríade para a igualdade: pessoas, negócio e sociedade

O novo plano de igualdade global da IKEA, lançado em dezembro, abrange os colaboradores, o negócio e a sociedade. Esta nova visão da empresa baseia-se na inclusão e na diversidade na força de trabalho, na igualdade como força do negócio e, em simultâneo, o esforço com os governos e organizações para mudar leis, tendo em conta a cultura e a realidade de cada país.

“Sabemos que as pessoas que não veem, têm uma audição fantástica. E as pessoas que não ouvem, têm outras habilidades fantásticas“, sublinha Sari Brody. Com o primeiro movimento, a IKEA quer alcançar a igualdade de género na força laboral e apostar na inclusão multicultural e diversa. Assim nasceu o conceito de “diversabilities”, que inclui as várias diferentes dimensões da diversidade.

Quando falamos em igualdade de género, toda a gente pensa em mulheres. Mudámos a narrativa. Não é uma questão sobre as mulheres, é um assunto de igualdade de género, de negócio, é um assunto familiar e pessoal.

Sari Brody

“IKEA é o lugar que acredita realmente em valores humanísticos. É possível ver isso quando tratamos as pessoas de forma igual, damos um tratamento justo e queremos que sejam elas próprias. É mais divertido, sentes-te valorizado e também trabalhas e tens um melhor desempenho”, destaca. “Já não há fronteiras, as pessoas movem-se. Não sei como é que as empresas podem sobreviver ao ser exclusivas, e todas iguais”, sublinha Sari.

Recrutar por valores

O segundo movimento integra a diversidade no negócio, desde o momento em que publicamos o anúncio, até à carreira profissional”, explica Sari.“O recrutamento por valores integra o recrutamento para a igualdade, porque parte dos nossos valores é tratar as pessoas de igual forma”, reforça.

“Estamos extremamente conscientes e a recrutar em sítios que trarão tanto homens como mulheres e pessoas de diferentes nacionalidades”, através de parcerias com organizações e recrutadores que têm os mesmos princípios. Em cada país, a IKEA conta com a ajuda de organizações para garantir o recrutamento com base na diversidade. Em Portugal, a IKEA é parceiro da associação Cais, que ajuda a integrar a pessoas em situação de sem-abrigo e outros tipos de risco social ou exclusão.

Já não há fronteiras, as pessoas movem-se. Não sei como é que as empresas podem sobreviver ao ser exclusivas e todas iguais.

Sari Brody

“Mesmo a linguagem que nós usamos é inclusiva. Garantimos que mesmo aqueles que fazem as entrevistas são diversos. Um dos exemplos da integração dentro da empresa é a grandparent interview [entrevista dos avós], em que o candidato é entrevistado pela pessoa que será a superior ao seu manager.

“O recrutamento por valores integra o recrutamento para a igualdade, porque parte dos nossos valores é tratar as pessoas de igual forma”, frisa a responsável.

Os embaixadores da diversidade

A Suécia, país de origem do IKEA, está em primeiro lugar do índice da igualdade de género da UE, uma posição que tem vindo a manter desde 2005. A origem da empresa tem ajudado a impulsionar as estratégias para a igualdade, mas os desafios são diferentes em cada um dos 30 países onde o grupo está presente.

Para garantir que o plano é implementado em cada país, a IKEA criou a função de “embaixador da diversidade”. “Quando eu vim para o global, o primeiro pensamento foi ter um plano e dá-lo aos países, mas são muito diferentes uns dos outros. Se conheceres pessoas apaixonadas por diversidade, trá-las para a minha equipa, reuniremos uma vez por ano, por telefone, melhorarei o conhecimento e tentaremos adaptar o plano global ao local”, garante Sari.

E as palavras também têm força. “Quando falamos em igualdade de género, toda a gente pensa em mulheres. Mudámos a narrativa. Não é uma questão sobre as mulheres, é um assunto de igualdade de género, de negócio, é um assunto familiar e pessoal. É sobre homens e mulheres, juntos, a trabalhar e sobre como podemos construir um melhor local de trabalho”, frisa. “O que digo e o que não digo tem exatamente o mesmo significado, inclusivo ou exclusivo”, acrescenta.

A minha esperança é que, até ao fim de 2022, cada colaborador diga: este é realmente o melhor sítio para trabalhar, porque posso ser eu próprio.

Sari Brody

Os líderes como os trabalhadores também devem ser responsáveis. “Cada líder tem a responsabilidade de criar inclusão. A responsabilidade dos líderes na nossa organização é garantir que todas as vozes são ouvidas. Cada colaborador ficará responsável pela igualdade, o que quer dizer que precisam de defender os seus direitos, mas também é necessário agir quando vês o teu colega a ser maltratado”, exemplifica.

Empresas que ajudam a mudar o mundo

“Se somos uma boa empresa, que quer criar uma mudança positiva na sociedade, temos de fazer o que dizemos”, salienta Sari Brody. O terceiro movimento do plano de igualdade inclui ações com governos a nível local, no sentido de mudar leis e dar mais condições aos trabalhadores da IKEA em cada país.

Na Índia, a IKEA providencia autocarros e transportes públicos para mulheres que queiram trabalhar à noite e criou um espaço de cuidados para crianças no local de trabalho. Em alguns países, como é o caso dos EUA, oferecem licenças de paternidade. “Cada país tem de encontrar parceria com organizações externas que trabalhem com pessoas com diferentes competências. Nós queremos que essas pessoas façam parte da nossa força de trabalho, que nos ensinem o que sabem e façam parte de nós. Mas também queremos que sejam o reflexo dos nossos clientes, da nossa sociedade”, sublinha.

Sari Brody, responsável pela igualdade, diversidade e inclusão do grupo IKEA, em entrevista ao ECO/Pessoas

Um futuro mais igualitário

Atualmente, o grupo IKEA colabora com a Comissão Europeia e reforçou o compromisso com a assinatura da Carta da Diversidade e da UN Women – Women Empowerment Principles). De acordo com o Fórum Económico Mundial, são precisos 180 anos para fechar o fosso salarial entre homens e mulheres, mas Sari quer que a IKEA se antecipe. Até 2021, a empresa quer garantir que homens e mulheres ganhem o mesmo dentro da empresa.

No futuro, a IKEA quer juntar mais empresas e mais organizações a este movimento de inclusão, diversidade e igualdade, “para que seja possível continuar a mudar as leis que são contra os direitos humanos”, reforça Sari Brody. A minha esperança é que, até ao fim de 2022, cada colaborador diga: este é realmente o melhor sítio para trabalhar, porque posso ser eu próprio”, remata.

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