Coronavírus trava marchas pelo clima. Greta pede luta online e Guterres diz que não se pode esquecer crise climática

Greta Thunberg usou o Twitter para pedir aos seus seguidores que não desistam. Já António Guterres alertou que a luta contra o coronavírus não pode invalidar nem fazer esquecer a luta pelo ambiente.

A jovem ativista sueca Greta Thunberg usou a sua conta na rede social Twitter para fazer uma série de quatro posts a apelar aos seus seguidores e ativistas em defesa do clima para que não abrandem a sua luta contra as alterações climáticas, ainda que neste momento devam evitar a todo o custo as grandes concentrações de pessoas e marchas de protesto pelo mundo, por causa da pandemia provocada pelo novo coronavírus.

Face à disseminação do Covid-19 pelo mundo todo e à urgência de conter a doença e o contágio do vírus entre humanos, usou o mesmo mote da luta em defesa do ambiente: “Ouvir a ciência”.

O apelo de Greta Thumberg significa que, por causa do coronavírus, milhares de jovens ativistas em todo o mundo terão agora de mudar a forma como se manifestam: em vez de grandes marchas e aglomerados de pessoas, cada um deve resguardar-se, evitar multidões e protestar sobretudo online. O movimento “Fridays for Future” foi fundado em agosto de 2018 em solidariedade com a ação de protesto da jovem sueca em frente ao Parlamento do seu país, a exigir ações legislativas mais fortes e concretas para travar as alterações climáticas. Desde aí, os seus seguidores multiplicaram-se aos milhares por todo o mundo e, nos últimos meses, milhões organizaram marchas em várias cidades para tentar forçar os governos a agir contra a degradação ambiental.

Agora, Greta Thunberg usou o Twitter para pedir que não deixem de lutar e de manifestar, transferindo as ações de luta para o mundo virtual, usando e abusando de tags como #DigitalStrike e #ClimateStrikeOnline. “Não podemos resolver uma crise sem reconhecer que se trata de uma crise, e devemos unir-nos e ouvir os especialistas e a ciência. Isto vale para todas as crises. Agora os especialistas dizem-nos para evitar os grandes aglomerados públicos para termos uma melhor hipótese de travar a disseminação do vírus. Por isso eu, pessoalmente, recomendo que façamos o que eles dizem. Especialmente em zonas de alto risco. Nós os jovens somos os menos afetados por este vírus, mas é essencial que actuemos em solidariedade com os mais vulneráveis e no melhor interesse da nossa sociedade”, escreveu Thunberg.

E acrescentou ainda: “A crise climática e ecológica global é a maior que a Humanidade já enfrentou, mas por agora (dependendo, claro, de onde vivam) teremos de encontrar novas maneiras de alertar para esta problemática e apelar à mudança de comportamentos, que não envolvam grandes multidões. Ouçam as vossas autoridades locais”.

“Mantenham o entusiasmo e vamos enfrentar uma semana de cada vez. Juntem-se ao movimento #DigitalStrike e publiquem fotos dos vossos protestos e dos vossos cartazes usando as hashtags #ClimateStrikeOnline, #fridaysforfuture, #climatestrike, #schoolstrike4climate”, rematou a jovem.

Greta em protesto, pela 82ª semana consecutiva, pela primeira vez em casa, esta sexta-feira, 13 de março.

“Não vamos combater as alterações climáticas com um vírus”, alerta Guterres

Por seu lado, o secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, outra das vozes mais ouvidas no mundo em matéria de alterações climáticas, argumentou que a luta contra o Covid-19 não pode fazer esquecer a luta em defesa do ambiente. Na visão da figura máxima da ONU, tanto o coronavírus como a degradação ambiental são problemas muito graves, mas “de natureza diferente”.

Guterres alertou que, apesar da queda momentânea nas emissões de gases poluentes, devido ao surto mundial de coronavírus, esta não deve ser sobrestimada porque “a magnitude de uma crise climática não tem comparação com o impacto temporário de uma pandemia”.

No início deste mês, a NASA e Agência Espacial Europeia registaram quedas significativas na presença de gases poluentes sobre a China. A responsabilidade é do coronavírus, que fechou fábricas e fez abrandar a economia. A análise tem base científica e foi já confirmada pelos satélites de monitorização da poluição da norte-americana NASA e da Agência Espacial Europeia (ESA) que “detetaram quedas significativas na presença de dióxido de nitrogénio (NO2) sobre a China”.

“Há provas de que esta alteração se deve, em grande parte, ao abrupto abrandamento económico no país na sequência do surto de coronavírus”, refere o NASA Earth Observatory em comunicado. “Esta é a primeira vez que se assiste a uma queda tão dramática das emissões, numa área tão alargada, na sequência de um evento específico”, disse Fei Liu, investigador em qualidade do ar no Goddard Space Flight Center da NASA, acrescentando que uma redução significativa nas emissões poluentes foi observada em Pequim durante os Jogos Olímpicos de 2008, mas o efeito foi localizado apenas na cidade e os níveis de poluição regressaram ao normal após o evento desportivo.

Liu recorda também uma queda a pique nas emissões de dióxido de nitrogénio em vários países, durante a última recessão económica que começou em 2008, mas neste caso a redução foi gradual e não tão acentuada como agora.

“Tanto o coronavírus como as alterações climáticas são problemas sérios. Uma coisa é a doença que esperamos que seja temporária, bem como os seus impactos. Mas as alterações climáticas já estão aqui há muitos anos e deverão continuar por mais algumas décadas, requerendo sempre ação constante. Não devemos sobrestimar o facto de as emissões se terem reduzido por alguns meses. Não vamos combater as alterações climáticas com um vírus”, disse Guterres no lançamento do relatório “State of Global Climate Report”, da World Meteorological Organisation, esta semana, em Nova Iorque.

 

É importante que toda a atenção que a luta contra o coronavírus exige não nos distraia da necessidade de combater também as alterações climáticas. Nada pode mudar no objetivo de organizar a COP26 em Glasgow, este ano, e chegar ao compromisso de alcançar a neutralidade carbónica em 2050. Esperamos que os líderes mundiais sejam capazes de se comprometer com os dois objetivos com a mesma vontade política”, disse o secretário-geral na ONU.

O relatório “State of Global Climate Report” conclui que a crise climática está no seu pico e 2020 é um ano chave para começar a mudar o cenário. Os cientistas também já referiram que o aquecimento global tem influência no surgimento e disseminação de novos vírus, já que provoca uma alteração nas migrações dos animais e os aproxima do contacto humano, transmitindo novas doenças. Com a Terra a aquecer, há já indícios de fortes mudanças na incidência temporal, geográfica e na intensidade dos novos surtos, ou seja, o vírus da gripe poderá deixar de ter o seu grande pico apenas no inverno, e estar mais disseminado pelos restantes meses do ano, por exemplo.

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