“Pancada” do vírus no PIB será grande. Há previsões, mas incerteza é elevada

É a pergunta que todos fazem, mas a resposta é difícil de dar. Alguns economistas avançam com estimativas sobre o impacto económico do novo coronavírus, mas a palavra de ordem é incerteza.

Que impacto económico poderá ter o novo coronavírus? Esta é a pergunta que está na cabeça de todos, mas quem habitualmente responde à questão está, nestas circunstâncias de elevada incerteza, bastante cauteloso. Os economistas avançam com os primeiros números, mas alertam para a fragilidade das previsões dada a rápida evolução do problema.

Queda abrupta da produção e das exportações, menos consumo e suspensão do investimento. São estes os três impactos negativos mais óbvios que o vírus terá no PIB de qualquer economia do mundo, mas a incerteza sobre a duração e a dimensão desta (quase) paralisação dificulta a sua quantificação. Os economistas avançam com estimativas para a economia portuguesa, mas pedem cautela na sua interpretação.

Foi essa mesma dificuldade — a “incerteza absoluta” e a dificuldade de ter previsões atualizadas — que levou o Conselho das Finanças Públicas a adiar a divulgação de um relatório sobre as finanças públicas. Uma opinião partilhada pelo subscritor do manifesto que propõe um plano de emergência europeu financiado pelo Banco Central Europeu (BCE), o economista Fernando Alexandre, que é perentório em resposta ao ECO: “Não é possível fazer [uma previsão do choque]”, diz, referindo que “só a Autoridade Tributária (AT) pode ter uma ideia da magnitude dos efeitos na atividade económica”.

“Os canais de transmissão do choque são parte da novidade da crise, o que torna neste momento impossível fazer previsões. Só sabemos que a queda no PIB, o aumento do desemprego e do défice vão ser muito elevados“, defende o professor da Universidade do Minho. Esta cautela é partilhada pelos economistas que avançaram com algumas estimativas para Portugal, os quais aguardam mais informação económica e a evolução do problema de saúde pública para tirar conclusões mais fiáveis.

O próprio ministro das Finanças disse no início do mês que era “cedo” para fazer contas. Esta segunda-feira, Mário Centeno engrossou o discurso e admitiu que “o confinamento forçado está a trazer as nossas economias a tempos semelhantes aos de uma guerra”. Já António Costa alertou para a “pancada” que a economia e o emprego vão sofrer. O Governo, que já assumiu que deverá rever em baixo a previsão de crescimento de 2020, vai atualizar as projeções económicas a 15 de abril, dia em que terá de entregar o Programa de Estabilidade à Comissão Europeia. Em Bruxelas, já se trabalha num cenário em que a recessão na Zona Euro em 2020 é muito provável.

O impacto económico do vírus dependerá da sua duração e dimensão em Portugal e no resto do mundo, mas já é certo que o choque será grande e algumas análises internacionais, como a do Morgan Stanley, já apontam para uma recessão global. Na sexta-feira, a Standard & Poor’s, apesar de ter ter mantido a perspetiva positiva sobre o rating da República, avisou que “os riscos económicos do coronavírus são consideráveis, dado que mais de um quinto das receitas externas (e cerca de 8% do valor acrescentado bruto) vêm do turismo”. Ainda assim, a previsão o crescimento do PIB manteve-se positiva nos 1,3% em 2020.

PIB português pode contrair entre 1 a 2%

Se o novo coronavírus atingir o seu pico em abril e for desaparecendo durante o verão, a economia portuguesa poderá contrair entre 1% a 2% em 2020, a taxa de desemprego pode subir para os 8% a 9% e o défice orçamental poderá superar os 3% do PIB. Este cenário que, ressalve-se, tem uma “elevada incerteza envolvida”, foi elaborado por Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade.

Estes números já têm em conta as medidas anunciadas pelo Governo que vão aumentar a despesa pública — a ministra do Trabalho referiu o custo de dois mil milhões de euros por mês com medidas de apoio às famílias, por exemplo — ou baixar as receitas, além do choque provocado pela contração do PIB e do mercado de trabalho nos estabilizadores automáticos. “O impacto económico seria máximo no 2º trimestre, abrandando no 3º trimestre e quase nulo no 4º trimestre”, antecipa Pedro Braz Teixeira.

Esta é uma primeira análise que o Fórum admite ser muito incerta. “Aguardamos toda e qualquer informação vindoura que permita ir afinando estas estimativas iniciais”, refere o diretor do gabinete de estudos, descrevendo este choque como “excecional” dado que tem uma origem “não económica” e por ser um problema de saúde a nível mundial.

Economia pode perder 4 mil milhões de euros por mês

Um exercício do professor da NOVA SBE, Francesco Franco, permite perceber a ordem de grandeza do impacto: as perdas podem chegar aos 4 mil milhões de euros, o que corresponde a cerca de um quarto do valor acrescentado mensal da economia portuguesa ou a 2% do PIB anual. Porém, é de assinalar que estes números, que foram divulgados na segunda-feira pelo Público, são apenas indicativos e têm como base uma série de pressupostos que podem vir a mudar.

Em causa está a implementação estrita da quarentena que paralisa todos os setores cuja produção de bens ou serviços não pode ser feita através de teletrabalho, o que tem impacto de três formas: há menos bens e serviços a serem consumidos fora da habitação, menos pessoas a produzir bens e também serviços que não podem ser prestados a partir de casa ou consumidos online. Assim, haverá menos rendimento, menos consumo e investimento e mais incumprimento de dívida, os ingredientes para se cozinhar uma recessão dado o efeito de contágio de todas estas componentes do PIB.

Efeitos desta crise podem ser “mais devastadores” do que o resgate

Uma análise ainda mais pessimista é feita pelo economista Eugénio Rosa que aproveita para criticar o desinvestimento feito pelo Governo, o elevado endividamento público e a sua exposição à banca e ainda a desigualdade entre o capital e o trabalho. Nestas circunstâncias, o economista sugere que Portugal não está preparado para suportar as consequências desta crise, existindo “o risco de recessão e do desemprego disparar”.

Eugénio Rosa admite que “os efeitos desta crise para a vida dos portugueses poderão ser mais devastadores do que os da crise 2008/2015” dado que “não sabemos a sua duração”. “Em vários setores a quebra nas vendas é elevada e muitas empresas já começaram a ter problemas de liquidez e a despedir trabalhadores”, lê-se numa nota divulgada neste domingo.

Para o economista é “vital” manter a economia em funcionamento e evitar a destruição “de centenas de empresas e de centenas de milhares de postos de trabalho”. Caso isso não aconteça, “se a recessão atingir a economia, o desemprego disparará e rapidamente se alcançará uma taxa de desemprego de 22%“, antecipa.

Nesse cenário, o impacto poderá também dar-se nos juros da dívida pública — que subiram significativamente nas últimas sessões no mercado secundário –, como na crise das dívidas soberanas da Zona Euro após o descalabro financeiro de 2008, o que teria impacto nos bancos portugueses que têm comprado obrigações soberanas. “E a acontecer isso o país enfrentará os efeitos da banca já conhecidos”, remata.

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