Fórum para a Competitividade admite contração de 1% a 2% do PIB por causa do vírus. Vê défice acima dos 3%

O Fórum para a Competitividade antecipa que a economia portuguesa possa contrair entre 1 a 2% em 2020 com a taxa de desemprego a subir ao patamar dos 8 a 9%.

Se o novo coronavírus atingir o seu pico em abril e desaparecer durante o verão, a economia portuguesa poderá contrair entre 1 a 2% em 2020, a taxa de desemprego pode subir para os 8% a 9% e o défice orçamental poderá superar os 3% do PIB. Este cenário que, ressalve-se, tem uma “elevada incerteza envolvida”, foi elaborado por Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade.

O impacto económico do vírus dependerá da sua duração e dimensão em Portugal e no resto do mundo, mas já é certo que o choque será grande e algumas análises internacionais, como a do Morgan Stanley, já apontam para uma recessão global. A economia portuguesa não escapará, mas também aqui é difícil fazer previsões, de tal forma que o Conselho das Finanças Públicas decidiu adiar a divulgação de um relatório sobre as finanças públicas.

Ainda assim, e ressalvando que existe uma “excecional incerteza que rodeia qualquer tipo de previsões neste contexto“, o Fórum para a Competitividade lança os primeiros números daquilo que poderá vir a ser o impacto da (quase) paralisação da economia portuguesa.

Os resultados são claros a traçar 2020 como um ano de crise: poderá haver uma recessão que tira 1% a 2% ao PIB, um aumento do desemprego (a taxa está na casa dos 6%) para os 8 a 9% e uma subida do défice para lá dos 3% do PIB, patamar que abandonou em 2016. Estes números já têm em conta as medidas anunciadas pelo Governo que vão aumentar a despesa pública — a ministra do Trabalho referiu o custo de dois mil milhões de euros por mês com medidas de apoio às famílias, por exemplo — ou baixar as receitas, além do impacto da evolução do PIB e do mercado de trabalho nos estabilizadores automáticos.

Estas estimativas têm como hipótese de partida que “o pico da aceleração do contágio seria atingido em abril, com desaceleração posterior e contenção a partir de julho”, explica Pedro Braz Teixeira, referindo que “o impacto económico seria máximo no 2º trimestre, abrandando no 3º trimestre e quase nulo no 4º trimestre”.

Esta é uma primeira análise que o Fórum admite ser muito incerta. “Aguardamos toda e qualquer informação vindoura que permita ir afinando estas estimativas iniciais“, refere o diretor do gabinete de estudos, descrevendo este choque como “excecional” dado que tem uma origem “não económica” e por ser um problema de saúde a nível mundial.

Perante a gravidade da situação e apesar da dificuldade em estimar, há mais economistas a fazer os primeiros cálculos. Na segunda-feira, o Público dava conta de um estudo do economista Francesco Franco que apontava para uma perda de 4 mil milhões de euros por mês, o que corresponde a cerca de um quarto do valor acrescentado mensal da economia portuguesa. Já o Correio da Manhã escrevia esta terça-feira que há 340 mil empregos ameaçados, citando os economistas Eugénio Rosa e Carlos Pereira da Silva.

A nível oficial, o Governo, que já assumiu que deverá rever em baixo a previsão de crescimento de 2020, vai atualizar as projeções económicas a 15 de abril, dia em que terá de entregar o Programa de Estabilidade à Comissão Europeia. Bruxelas neste momento já trabalha num cenário em que a recessão na Zona Euro em 2020 é muito provável.

Portugal tem “duas vantagens e uma grande desvantagem”

Apesar de não se conhecer a dimensão do choque, as vias do impacto económico do novo coronavírus são conhecidas. Em primeiro lugar, haverá uma diminuição “genérica” da procura, “embora com subidas muito significativa de procuras específicas, como máscaras de proteção, desinfetantes, etc (papel higiénico, …)”. Em segundo lugar, haverá uma quebra na oferta pela falta de força de trabalho e pela escassez de componentes em “inúmeras cadeias de valor”.

Em contrapartida, já foram anunciadas medidas pelos Governos e pelos bancos centrais que visam combater este impacto negativo: “Existem mecanismos clássicos de correção de diminuição temporária da procura agregada (políticas monetária e orçamental expansionistas), mas, atualmente, a margem para estas atuarem é limitada, sobretudo na zona euro, mais do que nos EUA”, considera Pedro Braz Teixeira, assumindo que na Europa — que se tornou o epicentro da pandemia — será “mais difícil contrariar” este choque pelo que “os efeitos sobre o PIB podem ser, aqui, mais acentuados”.

Portugal, que está dentro enquadramento da Zona Euro em que faltam instrumentos de estabilização macroeconómica, tem “duas vantagens e uma (grande) desvantagem”, na análise do Fórum. A economia portuguesa beneficia de ter, para já, “menor incidência relativa de casos” do que outros países europeus e de não fazer parte das principais cadeias de valor a nível mundial, “o que, sendo, em geral, negativo, neste caso, é-nos favorável”, assinala Pedro Braz Teixeira.

Contudo, há uma desvantagem que poderá superar essas duas vantagem: “a elevada exposição ao turismo e viagens, que deverão ser muito afetadas pelas medidas de contenção do contágio“. Só a título de exemplo, em Portugal, que é um dos países da União Europeia onde esse setor mais pesa no PIB, a TAP já cancelou milhares de voos e a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) disse na semana passada que o impacto deverá chegar a uma queda de 50% da receita entre março e junho até a um máximo de 800 milhões de euros.

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