O que pensa um holandês, a viver em Portugal há 26 anos, do ministro das Finanças do seu país? Tem “vergonha”

"Vergonha" e "reflexo da posição política" de alguns holandeses. É assim que Piet Hein Bakker, holandês a viver em Portugal há 26 anos, olha para as declarações do ministro das Finanças da Holanda.

Naquela manhã, Piet-Hein Bakker olhou para os jornais holandeses. A viver em Portugal desde 1994, o holandês teve curiosidade de ver, face à polémica que, nos últimos dias, tem marcado a agenda noticiosa, como os jornais locais tratavam o tema. Por um lado, o Volkskrant, jornal mais de esquerda, “tem uma opinião mais crítica em relação à posição” do ministro holandês”, descreve o produtor de televisão. Por outro lado, o NRC, “jornal mais de centro/direita mal fala disso e, indiretamente, está a apoiar a posição da Holanda”. Uma posição com a qual Piet-Hein não concorda.

Piet-Hein Bakker trabalha na SP Televisão.D.R.

Há 26 anos a viver em Portugal, Piet-Hein Bakker considera que as declarações do ministro das Finanças holandês fizeram-no “ter vergonha” do responsável político. “O que está a acontecer é uma crise tão grave que só pode ser visto na sua totalidade, e não segundo o interesse de cada país”, assegura.

O produtor de televisão sublinha ainda que a opinião do ministro, ainda que não seja reflexo da totalidade dos holandeses, revela a posição política de muitos deles. “É perigoso que os holandeses e os alemães estão a fazer porque estamos todos no mesmo barco. Se a Europa não consegue viabilizar dinheiro para os países que são mais atingidos, todo o projeto europeu deixa de fazer sentido. Deveria ser também para este tipo de cenários que a Europa serve”.

"O que está a acontecer é uma crise tão grave que só pode ser visto na sua totalidade, e não segundo o interesse de cada país.”

Piet-Hein Bakker

Produtor de televisão holandês, a viver em Portugal há 26 anos.

“Depende um pouco da cor política, mas há uma faixa grande na Holanda que defende essa opinião. Basicamente, defende que se esses países não têm dinheiro para resolver a crise, deviam ter feito um melhor trabalho orçamental”, analisa. Piet-Hein Bakker refere ainda que, “se fosse um extraterrestre, olhasse para a Terra neste momento e visse uma discussão entre o norte e o sul da Europa, pensaria que eram malucos”. “Como é que nos lembrámos de estar a discutir estes temas? Isto enfraquece-nos como humanidade”, afirma o produtor.

As declarações dos ministros holandeses manifestam assim “uma profunda convicção de que os países do norte não querem pagar seja o que for aos países do sul”. “A noção aqui é de que os países do norte não podem sofrer pelo mal que os do sul fizeram”, assinala. No entanto, não é disso que se trata. “Aqui a questão não é o mal que fizeram porque não podemos comparar os países. (…) Se há uma coisa que é evidente é que aqui ninguém tem culpa. Não vamos falar sobre como Itália geriu o seu orçamento nos últimos dez anos, não é o momento. Agora, é o momento de providenciar os fundos para que a Itália não vá à falência. Esta ideia de que norte não quer pagar por um barco comum… mas se o barco for ao fundo vamos todos”.

Sobre as “coronabonds”, Piet-Hein defende que podem ser também uma forma de ajuda aos países mais afetados. “Neste tipo de situação, se não nos conseguimos ajudar uns aos outros, nunca vamos conseguir. É tão evidente e tão pertinente que este é um problema comum a todos os países, ninguém escapa. A melhor solução neste momento é ajudar as zonas da Europa que foram mais atingidas. Itália e Espanha estão numa situação muito pior do que qualquer outro país da Europa. E não é precisa nenhuma discussão para chegar à conclusão de que estes países precisam de ajudam”.

Os holandeses foram criticados, em particular, por políticos espanhóis e italianos pela relutância em concordar em usar o Mecanismo Europeu de Estabilidade sem condições, durante as negociações de crise. A Holanda, tal como a Alemanha, opõe-se também à criação de um instrumento de emissão de dívida europeia conjunta, chamado de “coronabonds”.

Já esta terça-feira, o ministro das Finanças holandês reconheceu que as suas observações, e as do primeiro-ministro Mark Rutte, foram mal recebidas. Em declarações à RTL citadas pela Reuters, o ministro holandês Wopke Hoekstra admite que demonstrou pouca “compaixão” com os países da Europa mais afetados pelo coronavírus, durante as reuniões com os líderes europeus sobre a resposta à pandemia. O ministro pediu que Espanha fosse investigada por não ter capacidade orçamental para fazer face à pandemia, numa intervenção que António Costa apelidou de “repugnante”.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

O que pensa um holandês, a viver em Portugal há 26 anos, do ministro das Finanças do seu país? Tem “vergonha”

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião