Metade dos trabalhadores está a viver com salários e apoios do Estado

Portugal tem 4,9 milhões de trabalhadores nos setores público e privado. Neste momento, 2,3 milhões estão a viver com salários ou apoios do Estado.

Os números dos apoios dados pelo Estado aos trabalhadores afetados pela crise económica provocada pela Covid-19 foram atualizados esta quarta-feira pela ministra do Trabalho, numa audição na Comissão Parlamentar do Trabalho e da Segurança Social.

Os valores permitem concluir que nesta altura 1,6 milhões de trabalhadores estão a receber ajudas públicas, por estarem desempregados ou por estarem a beneficiar dos programas de apoio extraordinário lançados pelo Governo para ajudar a amenizar o impacto económico do coronavírus.

Em Portugal existem 4,913 milhões de pessoas a trabalhar, sendo que desses 698 mil são funcionários públicos. Isto quer dizer que, nesta altura, o Estado está a pagar o salário ou a comparticipar salários de quase metade dos trabalhadores existentes no país (ver tabela em baixo).

A fatia de leão dos apoios públicos vai para o regime de lay-off simplificado, mecanismo em que a Segurança Social ajuda as empresas a pagarem parte dos salários dos trabalhadores. Os números mais atuais mostram que 931 mil trabalhadores estão abrangidos por este regime de suspensão temporária de contrato ou redução da carga horária e em que, genericamente, o trabalhador fica a receber, pelo menos, dois terços remuneração, sendo que 70% desta verba é paga pela Segurança Social e os restantes 30% pelo empregador.

Este regime pode vir a abranger, nas previsões do Governo, um milhão de trabalhadores, o que implica a saída de mil milhões de euros mensais dos cofres do Estado.

A ministra do Trabalho atualizou ainda os números dos trabalhadores independentes que estão a receber o apoio extraordinário criado para aqueles que estejam em paragem total ou com uma quebra de faturação de, pelo menos, 40%. Este apoio abrange agora 145 mil trabalhadores, sendo que o prazo para solicitar esta ajuda pública termina esta quarta-feira.

Ana Mendes Godinho avançou também o número de pais que já tiveram acesso ao apoio criado para os trabalhadores que tiveram de faltar ao trabalho, no final de março, para cuidar dos filhos (até aos 12 anos) face ao encerramento das escolas fixou-se nos 172 mil.

O Governo, entretanto, já anunciou que este apoio excecional de assistência à família vai ser prolongado até ao final do ano letivo para os pais que tenham os filhos no ensino à distância.

Estes três apoios públicos, somados aos 19 mil que estão a receber o apoio estatal por estarem em isolamento profilático, eleva para 1,3 milhões o número de trabalhadores que estão a receber ajuda do Estado por causa da pandemia da Covid-19.

353 mil desempregados

Estes não são os únicos trabalhadores que estão a receber ajudas do Estado. Os números mais atualizados, anunciados esta quarta-feira pela ministra do Trabalho, apontam para a existência de 353 mil desempregados em Portugal, mas a governante não avançou a percentagem dos que estão a receber o subsídio de desemprego. Números da Segurança Social, do dia 1 de março, apontavam para que 177.844 trabalhadores a receber a prestação de desemprego, um valor que nesta altura será com certeza superior.

Além disso, refere a Segurança Social, 182.124 trabalhadores por contra de outrem e independentes recebiam no dia 1 de março o subsídio de doença, um valor que também estará subavaliado porque não contabiliza ainda os efeitos do Covid-19.

Isto quer dizer que nesta altura há pelo menos 1,6 milhões de trabalhadores portugueses que estão a receber apoios públicos por não estarem a trabalhar. Somando isto aos 698 mil funcionários públicos a quem o Estado paga salários, neste momento, quase metade (47%) da totalidade dos 4,9 milhões de trabalhadores portugueses estão a viver com apoios e salários pagos pelos cofres do Estado.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Metade dos trabalhadores está a viver com salários e apoios do Estado

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião