Maya diz que “vai ser muito difícil manter o rating de Portugal e dos bancos” sem uma solução europeia para a crise

Miguel Maya diz que Portugal e os bancos portugueses arriscam-se a ver os seus ratings cortados pelas agências se não houver uma solução a nível europeu para financiar resposta à crise do coronavírus.

O presidente do Banco Millennium BCP, Miguel Maya, à chegada para a audição na Comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas no âmbito do requerimento apresentado pelo grupo parlamentar do CDS-PP, Assembleia da República, Lisboa, 21 de abril de 2020. MANUEL DE ALMEIDA / LUSAMANUEL DE ALMEIDA / LUSA

“Vai ser muito difícil manter o rating da República e dos bancos se não houver uma solução específica do financiamento europeu para esta dívida. E isso preocupa-me muitíssimo”, declarou o CEO do BCP, Miguel Maya, no Parlamento.

O líder do BCP foi questionado pelos deputados da Comissão do Orçamento e Finanças sobre se as ajudas do Estado para responder à crise seriam suficientes para acudir empresas e famílias afetadas pela pandemia do Covid-19. Segundo o ministro da Economia, Siza Vieira, as medidas já anunciadas pelo Governo custam ao Estado 2,7 mil milhões de euros por mês.

“Se conseguíssemos encontrar um mecanismo, chamem-lhe coronabonds ou fundo de recuperação europeu, em que esta dívida fosse tratada autonomamente de forma a não prejudicar a dívida pública, eu não teria dúvidas de que estas ajudas eram insuficientes”, disse Miguel Maya.

O CEO do BCP lembrou que o FMI aponta para um nível de dívida pública superior àquele que Portugal registava quando as agências de notação financeira atribuíam ao país um rating “lixo”.

“O BCP não pode ter um rating positivo se o Estado tem um rating negativo”, lembrou Miguel Maya, lembrando que isso acarretará maiores custos de financiamento para todos, bancos e Governo.

“O Estado já se está a financiar a um custo superior ao que se financiava no final do ano passado”, recordou Miguel Maya.

Impacto da crise “será bastante relevante”

Miguel Maya acrescentou que não tem dúvidas de que o malparado vai crescer “com significado” por causa da crise económica. Famílias e empresas deixarão de ter condições de pagar os seus créditos ao banco.

“Veremos o significado em função da própria crise”, adiantou o presidente do BCP. “Mas terá sempre impacto que eu considero bastante relevante”, referiu.

Miguel Maya diz que hoje em dia “os padrões de exigência da banca são diferentes do passado”, para melhor. Mas notou que a crise irá provocar um aumento do número de incumprimentos na banca.

Nesse sentido, o CEO do do banco diz que não se pode emprestar dinheiro às empresas por emprestar. “Para isso mais valia dizer-se no início para se passarem os cheques às empresas”. Maya disse aos deputados que se tem “de garantir que os bancos tenham um balanço saudável para ir ao mercado financiarem-se” e poderem ajudar a economia hoje e no próximo ano também.

O gestor bancário descartou ainda que o banco lucre com as linhas de crédito. “Não são rendas para o banco”, disse. “Se fosse um setor muito interessante e que beneficiasse destas linhas, não estaríamos a valer 20% do book value, estaríamos provavelmente mais próximos do book value”. sublinhou.

“O entendimento dos mercados é que os bancos vão passar um momento muito condicionado do ponto de vista de rentabilidade”, disse Miguel Maya, lembrando um relatório da Moody’s que apontou “para resultados marginalmente positivos” para o banco.

(Notícia atualizada às 18h23)

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