Só lhes falta falar. Comboios já andam sozinhos, evitam enchentes e são cada vez mais “verdes”

Com a pandemia, a Siemens Mobility está a apostar em comboios autónomos e movidos a baterias elétricas e hidrogénio, capazes de abrir portas sozinhos e calcular ocupação para garantir distância.

Há males que parecem vir por bem. Com o Covid-19, os transportes urbanos de passageiros viram-se obrigados a evoluir à força, de um dia para o outro, para soluções futuristas que são urgentes já hoje. Antes de a pandemia de Covid-19 tomar de assalto o mundo, obrigando milhões de pessoas a ficar em casa e tornando altamente inseguras e nada recomendáveis as deslocações em transportes públicos nas grandes cidades, a Siemens Mobility, divisão de transporte urbano e interurbano da empresa alemã Siemens, estava a testar um projeto-piloto nos comboios regionais de Londres, que agora se revela muito útil nesta fase de desconfinamento.

Na prática, trata-se de um sistema de operação automática que permite que os comboios circulem sem condutor, através da análise de uma série de dados, como a distância entre veículos e a otimização da velocidade. A partir de maio, e em plena quarentena em muitos países europeus, a Siemens Mobility decidiu introduzir no sistema uma nova variável — o peso do comboio durante a vigem.

Isto permite, por exemplo, calcular a ocupação do veículo e, à chegada a uma nova estação, direcionar os passageiros para as carruagens mais vazias ou mesmo não permitir a entrada de mais passageiros, caso a lotação já esteja acima da média, e assim garantir o distanciamento social. Esta solução futurista mas com aplicação urgente no presente está a ser testada na conexão norte-sul Thameslink, na capital britânica, onde diariamente circulam milhares de passageiros. Estes, ao chegar às plataformas, podem consultar os painéis informativos e descobrir quais as carruagens ou os comboios mais vazios e, pelo contrários, os que circulam com mais pessoas. Acima de 15% de capacidade, o distanciamento social já se torna complicado, diz a empresa.

Apesar de ter nascido com um objetivo diferente (aumentar a eficiência energética dos comboios da marca e melhorar as operações ferroviárias através de sistemas de automação), o projeto está agora a ser usado para estudar o controlo da ocupação nos transportes públicos urbanos, o que permitirá à Siemens criar “cadeias de mobilidade contínuas”, que se querem seguras, eficientes, fiáveis e descarbonizadas, tal como explicou esta segunda-feira Michael Peter, CEO da Siemens Mobility, numa conferência de imprensa online, na qual esteve também presente a co-CEO da empresa, Sabrina Soussan.

“As grandes tendências pré-Covid não vão mudar, como a transição energética e a descarbonização. O que começou antes da crise tem de continuar a ser desenvolvido, a começar pela agenda verde europeia. Muitas pessoas estão relutantes em voltar a entrar em transportes públicos, mas temos de lhes dar garantias de máxima segurança. Os comboios serão a espinha dorsal da mobilidade urbana sustentável no futuro“, disse Sabrina Soussan. Peter acrescentou ainda: “As pessoas continuam a ter de ir para o trabalho, a população está a envelhecer e os transportes públicos não podem faltar”.

Neste momento, a empresa tem já a circular na Áustria o primeiro comboio movido a baterias elétricas e está a desenvolver a sua nova gama flexível Mireo para circular também com baterias de lítio e hidrogénio, anunciou Sabrina Soussan. “Estamos prestes a iniciar um projeto-piloto com um comboio Mireo a hidrogénio”, disse.

A Siemens Mobility reconhece a quebra abrupta do número de passeiros nos últimos meses, mas garante que é apenas um “problema de curto prazo” e espera que os “níveis de ocupação pré-Covid sejam retomados no próximo ano”, até meados de 2021, já que o desconfinamento está em marcha e o tráfego citadino a aumentar. É esperado que o número de passageiros dos transportes públicos tripliquem até 2050, mas ao mesmo tempo as alterações climáticas exigem formas de mobilidade mais sustentáveis.

A empresa revelou ainda que ficou com encomendas pendentes no valor de 32 mil milhões de euros, que espera que avancem em breve e permitam salvar as contas anuais e compensar o impacto da pandemia. No segundo trimestre do ano, a Siemens Mobility viu cair as encomendas 32%, para 2.384 milhões de euros, com os lucros a caírem 80 milhões de euros, face aos resultados positivos de 147 milhões registados no primeiro trimestre, entre janeiro e março.

“As cidades não funcionarão sem sistemas eficientes de transporte público. A pandemia e as novas regras de higiene trouxeram algumas questões à tona, como por exemplo a abertura de portas sem contato manual ou o ar condicionado dos comboios. A tecnologia serve para as pessoas se sentirem bem e seguras. E para travar as emissões poluentes prejudiciais para o ambiente”, disse Soussan em resposta às questões dos jornalistas.

No curto prazo, a Siemens Mobility desenvolveu já uma série de medidas para reduzir o risco de contágio para quem se desloca de transportes públicos: robôs que limpam as carruagens; desinfeção com luzes ultravioleta; impressões 3D de novas peças que permitem aos passageiros abrir portas com os cotovelos; soluções de filtragem do ar. Em franco desenvolvimento estão já projetos para desenvolver títulos de transportes contactless e monitorizar os níveis de ocupação de cada comboio em tempo real.

Com as companhias áreas a exigirem planos de resgate massivos, como é o caso da TAP e da Air France, os comboios saltam agora para a ribalta, sublinha a Siemens Mobility. Em França, o governo decidiu que as rotas aéreas internas no país poderão mesmo ser canceladas no caso de os comboios de alta velocidade puderem assumir essas ligações por via terrestre. Espelho do que já está a ser testado em Londres, os veículos autónomos serão também cada vez mais uma tendência, “especialmente os comboios e autocarros, nas cidades”, no espaço de cinco anos, ou talvez menos, prevê Michael Peter.

“O consumo de energia é menor nos comboios e o distanciamento social entre os lugares dos passageiros pode ser conseguida com menos dano económico do que nos aviões”, disse Michael Peter, sublinhando a urgência da digitalização da ferrovia.

 

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