FC Porto ganha em campo. Quem vence na bolsa, na dívida e nas finanças?

Dragões sagraram-se campeões numa temporada em que os encarnados partiam em vantagem financeira. Época teve de tudo: pandemia, jogos à porta fechada, uma OPA e atrasos no pagamento de dívida.

Os amantes do futebol costumam dizer que o dinheiro não compra títulos. O cliché poder-se-á ajustar à luta entre Benfica e FC Porto no campeonato em que os portistas levaram a melhor. Os encarnados partiram de uma situação financeira mais robusta do que os rivais. Ainda assim, essa vantagem não se traduziu em mais vitórias dentro de campo, com os dragões a superarem toda a concorrência e a sagrarem-se campeões numa época marcada pela pandemia. Para os investidores, a temporada que está prestes a terminar também trouxe emoções fortes: houve uma OPA falhada (Benfica) e quem fosse obrigado a esperar mais tempo a para reaver o dinheiro investido em obrigações (FC Porto). Aqui fica um resumo não desportivo dos principais acontecimentos da temporada desportiva.

Quem investiu no azul saiu a ganhar

Aparentemente, o desempenho das duas sociedades anónimas desportivas na bolsa portuguesa seguiu de perto os desenvolvimentos dentro de campo, pelo menos, neste sentido: os encarnados lideraram a contenda durante grande parte da temporada, mas são os dragões quem levam de vencida no final.

Quem aplicou dinheiro em ações da SAD portista no início da época, a 1 de julho de 2019, a sua carteira valoriza 27,87% até ao momento. Ao contrário, quem investiu em ações das águias na mesma data regista neste momento uma perda potencial de 12,5%.

Esse não era o cenário a meio da época. O Benfica chegou a liderar neste capítulo, como nos mostra o gráfico em baixo com a evolução das cotações das duas SAD rivais. Em março, deu-se uma súbita valorização dos títulos encarnados, com a cotação a ajustar ao valor da Oferta Pública de Aquisição (OPA) lançada pelo clube sobre o capital da SAD. O clube oferecia 5 euros por cada ação, o que significaria uma valorização de 60% para quem tivesse adquirido títulos das águias no início da época e vendesse na OPA. Mas a operação caiu por terra perante as dúvidas do supervisor, e rapidamente as ações voltaram a ajustar à realidade do mercado.

Por seu turno, a evolução bolsista dos azuis-e-brancos mostram uma época mais tranquila para os lados do Dragão. Isto apesar do sobressalto no mercado obrigacionista, como veremos a seguir.

Evolução acionista de FC Porto e Benfica

Fonte: Reuters

Dragão adia reembolso, águias com sucesso em novo empréstimo

A pandemia afetou a atividade económica de uma forma transversal. O futebol não foi exceção. Entre março e maio, as competições estiveram completamente suspensas. Sem jogos, os clubes deixaram de faturar com receitas de bilheteira, patrocínios e televisão, cortaram salários a jogadores e funcionários e negociaram dívidas com fornecedores.

No caso do FC Porto, a crise sanitária veio debilitar ainda mais as finanças de uma SAD já de si fragilizada financeiramente, colocando à prova a capacidade de honrar os compromissos perante o mercado. De repente, os dragões viram-se sem dinheiro para proceder a um reembolso de um empréstimo obrigacionista no valor de 35 milhões de euros que vencia em junho. Face a essa situação, tiveram de pedir aos credores um adiamento da devolução desse dinheiro até ao próximo ano, autorização que vieram a obter a poucos dias do fim do prazo.

No Benfica, a gestão financeira durante a pandemia foi menos atribulada em resultado das contas mais saudáveis dos encarnados. Não foram revelados cortes salariais aos jogadores (ao contrário do FC Porto e Sporting). E, depois de ter feito um reembolso ao investidores no valor de 50 milhões de euros em plena crise sanitária, não teve agora dificuldades em obter um novo empréstimo de 50 milhões no retalho, com a procura a superar a oferta em quase 20 milhões. Para o Benfica, o sucesso da emissão reflete a confiança na SAD encarnada. Domingos Soares de Oliveira, administrador financeiro, considera que o Benfica garantiu assim uma “folga adicional” para “fazer investimentos adicionais para conseguir sucesso desportivo nas próximas épocas”.

Porto em falência técnica, Benfica com lucros recorde

Do ponto de vista das finanças, os dois rivais estão em situações diferentes em relação àquilo que mostra o maior domínio do FC Porto dentro de campo e a crise de resultados desportivos do Benfica.

Impulsionada pela venda histórica de João Félix ao Atlético de Madrid no verão do ano passado, a SAD benfiquista registou um lucro recorde de 104,2 milhões de euros no primeiro semestre. Já os azuis-e-brancos, depois de terem falhado a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões, apuraram prejuízos (também históricos) de 52 milhões de euros nos seis primeiros meses do exercício.

Lucros e prejuízos históricos

Em ambos os casos, as contas ainda não refletem o impacto da pandemia, pelo que os números serão outros no fecho das contas anuais. Domingos Soares de Oliveira explicou que a pandemia terá um impacto entre 20 e 25 milhões de euros nas contas do clube este ano. Por exemplo, por cada jogo à porta fechada, os encarnados perdem uma receita com a venda de bilhetes na ordem do milhão de euros.

Do ponto de vista patrimonial, as diferenças entre FC Porto e Benfica também são evidentes. Com um ativo de 600 milhões, os encarnados registam capitais próprios positivos de 223,4 milhões de euros. Isto é, o património é suficiente para fazer face a todas as responsabilidades, sobrando ainda 104,2 milhões. No Dragão, a situação é negativa em quase 87 milhões de euros, o que significa que a SAD portista se encontra em falência técnica neste momento.

FC Porto falido, Benfica em bom plano

Tudo junto, terminámos com o cliché com que iniciámos: o dinheiro ajuda, mas não vence campeonatos.

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