Portugal é exemplo no combate às desigualdades de género durante a pandemia

Fundo Monetário Internacional alerta que o vírus está a aumentar desigualdades de género. Diz que a solução é que os decisores políticos incluam as mulheres na recuperação económica pós-pandemia.

A pandemia do Covid-19 está a aumentar a desigualdade salarial com base no género. De acordo com um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) intitulado “The Covid-19 Gender Gap”, divulgado esta terça-feira, as mulheres sofreram mais o impacto da pandemia na situação laboral e económica do que os homens, devido às características das suas profissões e aumento do trabalho não pago durante o confinamento.

O FMI refere várias razões para o aumento do fosso de rendimentos entre homens e mulheres, que se tem sido agudizado durante a pandemia, um pouco por todo o mundo. A solução, aponta o FMI, está nas mãos dos decisores políticos, que devem criar medidas que contribuam para a inclusão das mulheres na recuperação económica no pós-pandemia. Segundo o fundo de Bretton Woods, Portugal está entre os países que estão a combater o problema.

Teletrabalho não é para todos

Para muitas mulheres, o teletrabalho não foi opção. O FMI lembra que há mais mulheres a trabalhar nos setores sociais — indústria, retalho, turismo e serviços de saúde –, para os quais o teletrabalho não é possível. Devido às medidas de segurança e distanciamento físico para combater a propagação do coronavírus, as profissões que requerem maior interação e contacto direto foram as mais atingidas.

Além disso, as mulheres trabalham mais 2,7 horas do que os homens em trabalho doméstico não pago, destaca o relatório. Devido ao confinamento obrigatório, a prestação de cuidados aos filhos e familiares aumentou, principalmente por parte das mulheres e, em consequência, o risco de perderem os seus empregos.

Por exemplo, no segundo semestre do ano, o desemprego nos EUA entre as mulheres foi 2% mais alto do que entre os homens, devido à natureza das próprias profissões. Neste país, cerca de 54% das mulheres que trabalham no setor social não podem transitar para teletrabalho.

No Brasil, esta percentagem sobe para 67%. Nos países em desenvolvimento, os riscos são ainda maiores. Nestes, em que os salários são mais baixos salários, só cerca de 12% da população pode garantir o emprego através do trabalho remoto.

Maior impacto nos países em desenvolvimento

Em algumas partes do mundo, as mulheres continuam a ser obrigadas a deixar a escola e começar a trabalhar para garantir rendimento para a família. O relatório Malala Fund, revela que a percentagem de raparigas que não frequenta a escola, na Libéria, triplicou após a crise do ébola. Na Guiné, as raparigas têm 25% menos probabilidades de regressar à escola do que os rapazes. Na Índia, os pedidos de registo para casamentos de jovens raparigas aumentou 30%, desde o início do confinamento.

O fraco acesso à educação, alerta o FMI, pode por em causa a “perda de capital humano, sacrificando o crescimento da produtividade e perpetuando o ciclo de pobreza entre as mulheres”.

Nos países com baixos salários, as mulheres têm mais probabilidade do que os homens de trabalhar no setor informal, ou seja, em trabalhos pagos diretamente em dinheiro, sem proteção legal, benefícios como pensões ou seguros de saúde, ressalva o FMI.

214 milhões: é este o número de pessoas que passará a viver na pobreza na América Latina, devido à pandemia do novo coronavírus, sublinha o FMI. A Organização das Nações Unidas estima que a pandemia tenha contribuído para levar mais 15.9 milhões de pessoas para uma situação de pobreza na América Latina e no Caribe, sendo na sua maioria raparigas e mulheres.

Portugal entre os países que tenta quebrar o ciclo

O FMI destaca Portugal, Áustria, Itália, países da América Latina, e o Togo, em África, como alguns dos países que estão a implementar políticas que apoiam as mulheres afetadas pela crise.

Em Portugal, o Governo permitiu aos trabalhadores com filhos até três anos manterem-se em regime de teletrabalho, mesmo sem acordo da entidade empregadora. Contudo, em maio, o Barómetro Covid-19 da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), apontava que a pandemia já estava a acentuar desigualdades, principalmente para os cidadãos com menos recursos financeiros e menos escolaridade.

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Na América Latina, foi criada a Coligação para a Ação do Empoderamento Económico das Mulheres, com o objetivo de promover a inclusão das mulheres na recuperação económica pós-Covid através do financiamento de empresas detidas por mulheres, da criação de fundos de impacto para empresas sustentáveis e de empreendedorismo para novos negócios de mulheres, no campo e na cidade.

O FMI defende que, a longo prazo, é “crucial” e cabe aos decisores implementar políticas que ajudem a eliminar as desigualdades de género, entre elas, as barreiras legais contra o empoderamento económico feminino.

Essas medidas podem, ainda, “implicar mais rendimentos para os meus vulneráveis, a preservação de vínculos laborais, incentivos para garantir o equilíbrio entre o trabalho e as responsabilidades de cuidado à família, o acesso ao planeamento e saúde familiar e reforço do apoio aos pequenos negócios e aos profissionais independentes”, lê-se no relatório.

O novo coronavírus já provocou pelo menos 610.604 mortos em todo o mundo, entre os 14.736.130 casos de infeção diagnosticados, de acordo com dados mais recentes da agência France Presse (AFP).

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