Entre um euro galopante e uma economia em queda livre, será Lagarde ainda capaz de surpreender?

Reunião do Conselho de Governadores desta quinta-feira tem como principal foco as projeções económicas do Banco Central Europeu (BCE), não sendo esperadas alterações nos juros ou compra de ativos.

Com uma Zona Euro pressionada pela crise económica e pela rápida valorização do euro, o Banco Central Europeu (BCE) vai discutir a política monetária do bloco comunitário, pela primeira depois das férias. Os holofotes estarão virados para a presidente Christine Lagarde e, em especial, para o otimismo que revelar sobre a economia.

Após o Conselho de Governadores desta quinta-feira, o BCE vai divulgar novas projeções para a economia da Zona Euro, que vive a maior recessão desde a II Guerra Mundial devido ao coronavírus. Desde as últimas projeções, começou o desconfinamento, que está a relançar a economia pelo que os analistas já veem a possibilidade de inversão, mas também se tornou mais evidente o aumento dos números de novas infeções, apontando para uma segunda vaga da pandemia em vários países da Europa.

“Prevemos que o BCE reconheça uma recuperação em forma de V dado o levantamento das medidas de confinamento, mas também que sublinhe o elevado nível incerteza” que existe quanto ao rumo da economia, diz Carsten Brzeski, economista chefe do ING. Já o homólogo do Commerzbank, Jörg Krämer, explica que o banco de investimento reviu recentemente as projeções para a economia de muitos países da Zona Euro pela primeira vez desde o início do surto de coronavírus.

Antes das férias de verão, o BCE sinalizou uma postura de esperar para ver. “Antecipamos que o Conselho do BCE mantenha esta postura na reunião desta quinta-feira”, aponta Krämer, apontando para “alguma incerteza” causada pelo silêncio dos vários governadores nas últimas semanas, bem como por “sinais contraditórios” nas atas do último encontro. Os relatos indicavam que o BCE já discutiu limitações à bazuca, apesar da incerteza gerada pela pandemia.

Aliás, incerteza foi a palavra-chave na altura e continuará a ser. Entre as (poucas) certezas que arriscam a ter, certo é que os analistas não esperam alterações nos juros (atualmente em mínimos históricos) ou nos programas de compra de ativos (o corrente ou o pandémico que tem 1,35 biliões de euros para combater os efeitos do vírus) pelo que o foco dos investidores será a mensagem de Lagarde para os mercados.

“Quando Christine Lagarde começou a trabalhar como presidente do BCE em novembro, a descrição das funções era, essencialmente, focado numa possível normalização da política monetária, revitalizar o espírito de equipa no Conselho de Governadores e preparar uma revisão estratégica. Dez meses depois, Lagarde navegou um mar de emoções e a pior crise económica em décadas“, lembra Brzeski, que considera que este encontro será um “teste à comunicação de Lagarde: como vai atenuar o euro sem causar movimentos desnecessários nos mercados”.

Além da recuperação da economia, Lagarde tem uma nova preocupação: o euro galopante. Em menos de seis meses, a moeda única disparou 12% contra o dólar e tocou máximos de dois anos. A valorização (que desacelerou nos últimos dias devido à tensão entre EUA e a China) pode levar a maior conservadorismo sobre as projeções para a inflação.

A inflação tem sido o calcanhar de Aquiles do BCE, desde a crise da dívida. A par do valor da moeda única, também há uma pressão vinda do outro lado do Atlântico. “Digerir a revisão da política da Reserva Federal norte-americana e pensar nas implicações para a adiada revisão estratégica do BCE” é um dos pontos que Paul Diggle, economista senior da Aberdeen Standard Investments espera da reunião.

O banco central norte-americano anunciou uma alteração na política, permitindo que a inflação fique acima de 2% para que a economia possa criar mais emprego e beneficiar os que têm menos rendimentos. O BCE poderá vir a fazer o mesmo, abandonando a parte do “abaixo” da meta de inflação que está atualmente definida em “próxima, mas abaixo de 2%”.

O ajustamento permitiria maior margem de manobra para ajustar os instrumentos de política monetária e justificar a manutenção de políticas expansionistas. O responsável do Commerzbank considera que “o objetivo do BCE será justificar uma adesão ainda mais longa a política monetária expansionista num novo quadro estratégico”, acrescentando que “no fim das contas, o Conselho de Governadores está repleto de representantes de países elevadamente endividados, principalmente do sul da união monetária”.

No entanto, o economista chefe do ING não espera quaisquer alterações já esta semana. “É difícil de acreditar que Christine Lagarde queira esvaziar uma discussão que ainda agora começou, mas no fim o BCE vai mover a meta para um objetivo mais simétrico“, acrescenta Brzeski.

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