Lagarde abre a porta a mudar meta de inflação e está de olho no euro

Depois de a Fed ter decidido alterar o objetivo de inflação, permitindo uma subida mais expressiva, o BCE diz que ainda é cedo para seguir o exemplo. Mas a estabilidade dos preços vai ser revista.

Ainda é cedo para saber o que vai mudar, mas a meta de estabilidade de preços estará sob avaliação na revisão estratégica do Banco Central Europeu (BCE). A presidente Christine Lagarde deixou a porta aberta a uma alteração em linha com a anunciada pela Reserva Federal norte-americana, que permita a taxa de inflação superar a barreira de 2%.

“Notámos que o mandato duplo [da Fed] foi revisitado”. Foi assim que a francesa Lagarde respondeu quando questionada sobre a alteração anunciada pelo homólogo norte-americano Jerome Powell no final do mês passado. Nos EUA, a Fed não vai agir de forma automática para travar a inflação caso a taxa ultrapasse 2%, procurando deixá-la subir quando o objetivo é, neste momento, o de estimular o emprego e a economia.

Na Zona Euro, Lagarde lembrou que continua em curso a revisão estratégica do BCE, que estava prevista para este ano e que teve de ser parada por causa da pandemia. Está prestes a ser retomada e irá exatamente avaliar esta questão. “Não seria prudente nem justo da minha parte, dizer quais serão as conclusões, mas haverá um foco na estabilidade dos preços”, disse, esta quinta-feira, na conferência de imprensa que se seguiu ao Conselho de Governadores.“É um dos focos-chave”.

A importância da inflação prende-se com o momento em que os bancos centrais decidem desacelerar estímulos. As políticas monetárias nunca foram tão expansionistas, sendo que, no caso da Zona Euro, o BCE ainda nem tinha reduzido os estímulos implementados durante a crise da dívida quando a pandemia obrigou a novas medidas. A justificação para a conjugação de juros em mínimos históricos, mega programas de compra de dívida e financiamento de baixo custo prende-se com o mandato: a estabilidade de preços.

A Fed tem um mandato duplo de inflação próxima de 2%, bem como de pleno emprego. Para o BCE, é só mesmo uma inflação próxima, mas abaixo de 2%. Ora, sem simetria, a aceleração da taxa “obrigaria” os bancos centrais a inverterem a estratégia e a mudança poderá dar maior flexibilidade.

Galopada do euro na mira do BCE

É exatamente com a mesma justificação, o mandato, que Lagarde garantiu que o Conselho de Governadores está a acompanhar a forte valorização do euro desde o início da pandemia. Em menos de seis meses, a moeda única disparou 12% contra o dólar e tocou máximos de dois anos. Tinha desacelerado nos últimos dias devido à tensão entre EUA e a China, mas o euro voltou a valorizar durante a reunião. Ganha quase 1% para 1,189 dólares, o valor mais elevado numa semana.

“O nosso mandato é a estabilidade dos preços e, claramente, na medida em que a apreciação do euro exerce pressões negativas nos preços, temos de monitorizar cuidadosamente essa matéria. Isso foi exaustivamente discutido no Conselho de Governadores“, apontou. A par do euro, “a inflação global está a ser amortecida por baixos preços de energia e fracas pressões nos preços num contexto de procura moderada e folga significativa no mercado de trabalho”.

O BCE reviu as projeções para a inflação, esperança uma taxa de 0,3% este ano (inalterada), de 1% no próximo (mais 0,2 pontos) e 1,3% em 2021. Da mesma forma, foram também revistas as projeções para o PIB da Zona Euro — em alta para 2020 e em baixa para os dois anos seguintes –, sublinhando que o ritmo de recuperação económica continua a justificar elevados níveis de estímulos monetários.

(Notícia atualizada às 14h55)

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