Galp está a estudar cadeia de valor das baterias de lítio, admite administrador

Nesta fase, a empresa poderá estar a olhar para o início dessa cadeia de valor e à procura de um parceiro que lhe forneça a matéria-prima para refinar, como tinha já avançado o ECO/Capital Verde.

Da reunião pública que teve lugar esta terça-feira na Câmara Municipal de Matosinhos, resultaram algumas garantidas dadas por José Carlos Silva, responsável pela refinação da Galp e membro da administração da petrolífera: a decisão de encerrar refinaria de Matosinhos em 2021 está tomada e é “irreversível”; o futuro das instalações ainda está em análise, mas o espaço será mantido com uma “utilização de base industrial, alinhado com a transição energética”, e haverá emprego nos próximos três a cinco anos.

A Galp mantém que, à data de hoje, não existe nenhum projeto de refinação de lítio para Matosinhos, mas revelou as suas verdadeiras intenções em relação ao lítio, no contexto da transição energética. “O que existe é o estudo da cadeia de valor de baterias, porque a armazenagem de energia está no DNA da Galp”, revelou José Carlos Silva. Questionada pelo ECO/Capital Verde, a Galp não quis avançar mais informações.

Menos de 24 horas depois, o ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, voltou a frisar que é muito importante para Portugal ter uma refinaria de lítio e que tudo fará para que esse investimento seja uma realidade e esses negócios aqui se possam desenvolver. “Não há nenhum terreno concreto. Há várias intenções de investimento. Há investidores estrangeiros a olhar para Portugal como um sítio onde podem desenvolver várias etapas do lítio”, disse aos jornalistas durante uma visita ao pinhal de Leiria para acompanhar os trabalhos de reflorestação da área com 10.000 hectares, depois do incêndio de outubro de 2017.

No entanto, o ministro lembrou que o Plano Diretor Municipal de Matosinhos diz que o terreno da refinaria tem fins industriais, “pelo que se trata de uma questão de licenciamento, onde o Governo é um agente passivo, que está entre a vontade da empresa e a disponibilidade da autarquia”.

O governante garantiu no entanto que ainda não existe um projeto para a refinação de lítio em Matosinhos e que não há uma relação entre as ambições de Portugal em construir uma cadeia de valor completa para o lítio no país e o futuro da unidade industrial de Leça da Palmeira, que ainda está a ser estudado pela Galp. No entanto, a petrolífera admite que está a olhar para a cadeia de valor das baterias de lítio, tal como o Governo.

O que existe é o estudo da cadeia de valor de baterias, porque a armazenagem de energia está no DNA da Galp”

José Carlos Silva, responsável pela refinação da Galp e membro da administração da Galp

“Portugal tem uma grande aposta. Sabendo que a Europa só tem 9% das matérias-primas fundamentais para o seu desenvolvimento económico, temos uma dessas matérias-primas em quantidade apreciável, que é o lítio. Portugal não tem nenhum projeto de mineração, mas sim um projeto completo, que queremos desenvolver com Espanha”, disse Matos Fernandes aos jornalistas. De acordo com o ministro, o lítio é um metal muito leve, fundamental para a descarbonização e para a digitalização, que pela sua abundância no país permitirá “ter os cinco passos necessários: extração, refinação, transformação em células, construção de baterias e a reciclagem e reaproveitamento de baterias”. “Tudo isto em Portugal”, garante.

Mais uma vez, o ministro passou a bola à Galp: “Não há aqui qualquer relação entre isso e que venha a existir uma refinaria de lítio no terreno da refinaria de Matosinhos, que a presidente da Câmara já disse que deve manter a sua finalidade industrial. Talvez a Galp tenha mais alguma coisa a dizer sobre isso. Aquele espaço é de uma empresa privada e quem gere o território é a autarquia. O Governo não vai ter nenhum projeto para aquele terreno”, rematou.

Na semana passada, horas depois de a Galp ter anunciado o fecho da refinaria, Matos Fernandes convocou uma conferência de imprensa em Lisboa para frisar que quer que a mesma faça parte da transição energética: “A porta está aberta para que seja rentabilizado aquele grande ativo industrial que ali existe. O centro logístico que ali virá a ser construído só aproveitará uma parcela dos trabalhadores e uma parcela do espaço. Pela localização que tem, pelo passado industrial que tem, pela proximidade ao porto de Leixões, estão ali um conjunto vasto de ativos e de terrenos que poderão ser muito importantes para a transição energética com outros projetos industriais diferentes da refinação do petróleo”, disse Matos Fernandes em declarações aos jornalistas.

Questionado sobre se o lítio seria uma boa hipótese para o futuro de Matosinhos, o ministro respondeu: “Há uma coisa que sei: Portugal vai ter uma refinaria de lítio, mas não posso estar aqui a discutir as intenções de empresas privadas”. Questionada sobre as declarações do ministro, a Galp não se quis pronunciar.

Armazenamento de energia está no ADN da Galp

A ideia de que o armazenamento de energia (no passado fóssil, no futuro obrigatoriamente renovável) faz parte da missão da empresa, tinha já sido transmitida pelo CEO da Galp, Carlos Gomes da Silva, na sua recente intervenção no Web Summit, dedicada ao “Desafio da Descarbonização”: “A eletrificação do mundo está em marcha. A forma de descarbonizar o setor da energia terá de ser com renováveis. O armazenamento e as baterias serão fundamentais. Temos de arranjar formas competitivas de armazenar energia e garantir a segurança do abastecimento”.

Também no Web Summit, a Galp lançou através da sua nova empresa EI – Energia Independente uma competição para startups e empresas tecnológicas a apresentarem soluções de articulação entre os sistemas de painéis solares para autoconsumo e equipamentos como baterias estacionárias ou mobilidade elétrica, com aplicação a nível doméstico ou empresarial.

A petrolífera não esconde a vontade de dar o salto do Oil & Gas e transformar-se numa empresa de energia global — assumindo-se já como o principal operador solar na Península Ibérica, com uma carteira de 2,9 GW (que estará 100% operacional em 2024), depois de concluída recentemente a transação de 325 milhões com espanhola ACS. Dos 724 milhões investidos pela Galp até setembro, quase metade (46%) disseram respeito à unidade de Renováveis & Novos Negócios, sobretudo ao portfólio de energia solar fotovoltaica adquirido em Espanha.

Os resultados dos primeiros nove meses de 2020 da Galp dão conta que a capacidade instalada para a geração de renováveis da empresa passou de 12 MW em 2019 para 926 MW até setembro, com a energia renovável produzida a passar de 20,1 GWh no ano passado para 157,4 GWh em nove meses de 2020.

Para já as baterias de lítio são sobretudo usadas nos carros elétricos, para armazenar a energia que permite ao veículo ter autonomia suficiente para se deslocar algumas centenas de quilómetros, mas as baterias estacionárias (compostas por lítio e ferro, ambos existentes em Portugal) são também cruciais para que seja possível guardar a eletricidade excedente gerada quando há excesso de energias renováveis (solar, hídrica ou eólica), podendo depois essa mesma energia ser usada e injetada na rede elétrica nacional de noite ou quando há escassez, sem ser necessário recorrer às energias fósseis.

Na futura indústria do hidrogénio verde, onde a Galp já tem o seu lugar garantido, em Sines, as baterias de lítio também vão desempenhar um papel fundamental no armazenamento de energia limpa.

“O plano estratégico da Galp prevê a descarbonização gradual do seu portefólio. A empresa estabeleceu objetivos de longo prazo para a redução da intensidade carbónica, alinhando o portfólio com a visão de neutralidade carbónica na Europa até 2050 e comprometendo-se a reduzir a intensidade das suas atividades em pelo menos 15% até 2030, face a 2017, diz a empresa na apresentação de resultados.

O armazenamento e as baterias serão fundamentais. Temos de arranjar formas competitivas de armazenar energia e garantir a segurança do abastecimento”.

Carlos Gomes da Silva, CEO da Galp

Galp quer começar a sua “análise” pelo início da cadeia de valor do lítio

“Mantemos o estudo de várias possibilidades. O futuro das instalações de Matosinhos ainda está em análise, o que posso desde já dizer é que nunca houve nenhum projeto concreto para nenhuma estrutura da cadeia de baterias”, frisou José Carlos Silva, na reunião do executivo camarário em Matosinhos referindo que o local alberga já um pólo de mobilidade sustentável, onde se inclui a startup GoWithFlow.

No que diz respeito ao “estudo da cadeia de valor das baterias” de lítio, como referido pelo responsável da Galp, nesta fase a empresa poderá estar precisamente a olhar para o início dessa mesma cadeia de valor e à procura de um parceiro que lhe forneça a matéria-prima para refinar, como tinha já avançado o ECO/Capital Verde. Resta agora saber se será um parceiro nacional ou estrangeiro, já que importar lítio para ser refinado em Portugal acaba por agravar a pegada ambiental deste minério que deve fazer parte da transição ambiental para um futuro mais eletrificado e com menos emissões.

Com a parte da refinação ainda em aberto, e saltando para o fim da cadeia de valor, a Galp garante que ainda “não existe acordo com a empresa” sueca Northvolt para a venda de lítio refinado, mas os responsáveis da companhia nórdica que quer ter várias fábricas de baterias a todo o vapor na Europa em 2023 estiveram já em Portugal numa reunião preliminar para falar com a Galp e com o Governo português, que está a par de todo este processo, disseram ao ECO/Capital Verde fontes próximas do processo.

“A Galp está a desenvolver o calendário de implementação da descontinuidade das unidades afetas a toda a atividade de refinação da Galp em Matosinhos, que começará em 2021. O futuro das instalações está em análise não tendo sido tomada qualquer decisão”, esclareceu fonte oficial da petrolífera.

A Northvolt não nega os contactos com a Galp e reconhece que Portugal tem todas as vantagens: cadeias de abastecimento curtas, fontes de energia renovável e exploração de depósitos nacionais de lítio. “A Europa pode, sem dúvida, desempenhar um papel muito mais importante no abastecimento das matérias-primas de que a indústria de baterias elétricas necessita. Cadeias de valor curtas, fontes de energia renovável ​​e exploração de depósitos domésticos são do nosso interesse. Portugal preenche muitas destes requisitos”, disse fonte oficial ao ECO.

Na calha pode estar também uma candidatura conjunta das duas empresas, com a possibilidade de se juntar ainda uma terceira (de exploração mineira), ao concurso de lítio que o Governo português já anunciou que vai realizar até setembro de 2021, com 11 áreas de exploração, e que “privilegiará a instalação no país de toda a cadeia de valor”.

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