Banca põe 950 milhões de lado para a crise da pandemiapremium

Principais bancos nacionais viram lucros caírem mais de 900 milhões no ano passado, devido ao impacto da pandemia. Crise obrigou-os a constituir 950 milhões em imparidades e provisões.

Rui Rio disse no início da pandemia que seria uma "vergonha" se os bancos tivessem lucros com a crise. O ano de 2020 terminou e os efeitos do vírus estão à vista. Os resultados das principais instituições financeiras caíram para quase metade no ano passado, deixando a rentabilidade do setor em queda livre, depois das imparidades e provisões de cerca de 950 milhões de euros face a um cenário em que a única certeza parece ser a de subida do crédito malparado após o fim das moratórias. Outro impacto: mais um banco anunciou planos de saídas de pessoal (Santander Totta), depois das notícias do Banco Montepio e do Novo Banco de que vão reduzir os seus quadros nos próximos anos.

Já só falta o Novo Banco apresentar as contas anuais e com elas virá a fatura para o Fundo de Resolução que o ministro João Leão espera que fique abaixo de 480 milhões. De resto, Caixa Geral de Depósitos (CGD), BCP, Santander e BPI já anunciaram os resultados e as contas são estas: descida de 46% dos lucros para 1,1 mil milhões de euros no ano passado.

Dentro de todos os fatores de pressão de cada banco, há uma razão comum para esta quebra tão acentuada. Face ao quadro de deterioração do cenário económico devido à pandemia do novo coronavírus e à expectativa de subida do malparado, estes bancos já tiveram de deixar de lado cerca de 950 milhões de euros entre imparidades (dinheiro que dão quase como perdido) e provisões. Há imparidades e provisões para vários ativos: crédito, fundos de reestruturação. Há ainda imparidades e provisões para outros riscos não propriamente relacionados com a Covid-19 e que não foram considerados nesta soma, como foi o caso dos créditos em francos suíços na Polónia que penalizou o BCP. O banco liderado por Miguel Maya registou imparidades e provisões de 300 milhões, das quais 100 milhões estão relacionados com o caso "Frankowicze".

A fatura final com a pandemia ainda não está fechada e dependerá muito daquilo que vier a ser a recuperação do país ao longo deste ano e nos próximos e ainda da forma como se vai lidar com o fim das moratórias públicas depois de setembro. Se as coisas correrem bem e a situação der lugar a alguma reversão nestas rubricas, os bancos depois terão mais lucros.

Imparidades e provisões atingem os 950 milhões

Fonte: Bancos; dados do Novo Banco referentes a setembro de 2019

Por falar em moratórias, com uma parte delas a terminar já em março, os quatro bancos que prestaram contas tinham, no final de dezembro de 2020, mais de 28,8 mil milhões de euros de crédito "suspenso". As instituições deram conta de uma redução das moratórias em 2,3 mil milhões de euros sem que isso tivesse tido grande impacto nas contas.

A rentabilidade da banca portuguesa já não era famosa antes da pandemia. E agora caiu ainda mais. Bancos como o BPI e Santander viram os rácios de rentabilidade cair para metade no ano passado. O ROE da Caixa baixou mais de cinco pontos para 8,1%, o mais elevado.

Volumes aumentaram mas negócio caiu

Eis mais um efeito da pandemia: os bancos aumentaram os seus volumes de crédito concedido à economia, à boleia das linhas Covid-19 com garantias do Estado, e mais dinheiro foi confiado às instituições sob a forma de depósitos. Ainda assim, isso não se traduziu em mais negócio. Como assim?

O stock da carteira de crédito (excluindo Novo Banco) aumentou quase 4% para 168 mil milhões de euros, enquanto os depósitos dos clientes subiu 6,5% para mais de 200 mil milhões de euros.

Porém, tanto a margem financeira (que resulta da diferença entre os juros cobrados nos empréstimos e os juros pagos nos depósitos) como as comissões registaram descidas de 4% e 2%, respetivamente, neste conjunto de bancos.

Na sexta-feira, o Santander Totta deu a sua explicação para esta situação e os fatores elencados, de alguma forma, aplicam-se aos outros bancos. "Esta evolução é fruto, essencialmente, da redução dos spreads do crédito, por contexto concorrencial ainda elevado, da descida das taxas de juro de curto prazo, da diminuição da procura de crédito por empresas fora do âmbito das linhas com garantia do Estado, e ainda da gestão da carteira de dívida pública", explicou o banco liderado por Pedro Castro e Almeida.

Volumes aumentam

Fonte: Bancos

Saídas e dividendos

Em setembro, o ECO deu a conhecer o plano de reestruturação do Banco Montepio com a saída de cerca de 800 trabalhadores, o que veio a ser confirmado posteriormente pela instituição. Há duas semanas deu-se conta de que o Novo Banco também está a preparar a saída de 750 trabalhadores nos próximos três anos. Na sexta-feira, o Santander Totta lançou dois planos de saídas de trabalhadores através de rescisões por mútuo acordo e reformas antecipadas. Os outros bancos também deverão registar ajustamentos.

A banca tem vindo a reduzir os seus quadros e agências nos últimos anos, mas o caminho não vai parar por aqui. Se a tecnologia já estava a alterar os hábitos dos clientes bancários, a pandemia acelerou esta tendência. Num quadro de redução de negócio, isto tem uma conclusão: redução do pessoal e da rede de balcões para melhorar a rentabilidade.

Ainda que o cenário não pareça favorável, os bancos estão a preparar-se para voltar a pagar dividendos. A Caixa irá pagar cerca de 85 milhões ao acionista Estado e o BPI vai dar 13 milhões ao CaixaBank, enquanto o Santander Totta também anunciou a intenção de retomar a política de dividendos que foi interrompida pela crise. O BCP disse que irá avaliar o tema depois de setembro, à espera de maiores certezas em relação à evolução da pandemia.

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