Barcos voltam ao Douro, mas “é preciso clientes” para que o turismo possa navegar

Os cruzeiros do Douro estão a retomar a meio gás. Dependem do evoluir da pandemia, abertura de fronteiras, retoma gradual da aviação e vacinação. Em 2020, a atividade registou perdas superiores a 80%.

Antes da pandemia, os cruzeiros do Rio Douro tinham a lotação quase esgotada. No entanto, a Covid-19 agitou até as águas mais calmas e os operadores registaram, em 2020, quebras superiores a 80%. Agora, com o país a dar passos no sentido do desconfinamento, a atividade marítimo-turística está a começar a ligar os motores. Sujeita a restrições como a lotação até dois terços da capacidade máxima dos barcos, não passa ainda do ralentin.

Segundo dados da Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL), a Via Navegável do Douro (VND) recebeu 225.893 passageiros entre janeiro e outubro, uma quebra de 78% face ao mesmo período de 2019. Em 2020, dos 93 operadores com autorização de circulação na VND, apenas 61 apresentaram registo de atividade.

Os operadores turísticos estão a arrancar lentamente e alguns ainda nem arrancaram uma vez que dependem do evoluir da pandemia, da abertura das fronteiras, da retoma gradual da aviação. Mas, principalmente do plano de vacinação.

A Companhia Turística do Douro, que conta com cinco barcos e localiza-se no Pinhão, concelho de Alijó, distrito de Vila Real, retomou a atividade na última semana. A responsável da empresa, Vânia Ramos, adianta ao ECO que ” felizmente os barcos já saíram, mas está muito fraco. Não se vê muita gente“, refere.

No dia da reabertura, a responsável da Companhia Turística do Douro conta que no primeiro horário (10h30) transportaram apenas duas pessoas e que no próximo trajeto que iria navegar às 11h30, o barco nem chegou a sair porque não tinham clientes. Durante a semana, tiveram algumas reservas essencialmente de portugueses. Vânia Ramos destaca que tal como o ano passado, este ano a procura será do público português.

Para a Companhia Turística do Douro, os principais constrangimentos prendem-se com a falta de clientes. “O Pinhão vivia de turismo, o tempo está convidativo e por esta altura já tínhamos bastantes clientes. O facto de as fronteiras estarem fechadas acaba por ser um constrangimento”, afirma a responsável.

Apesar de a procura ser bastante baixa, a responsável da Companhia Turística do Douro, sente-se “muito contente” com esta retoma e afirma que “ver um barco a navegar no Rio Douro é muito bom, tendo em conta que já há muitos meses que não víamos nenhum barco”.

Vânia Ramos está confiante com esta retoma e afirma que vão conseguir ultrapassar esta crise. “Pelo menos já estamos abertos e estamos todos motivados”. Espera uma retoma mais progressiva em julho e agosto, meses que coincidem com as férias dos portugueses.

O Pinhão vivia de turismo, o tempo está convidativo e por esta altura já tínhamos bastantes clientes. O facto de as fronteiras estarem fechadas também acaba por ser um constrangimento.

Vânia Ramos

Responsável da Companhia Turística do Douro

Com a limitação a 66% da capacidade total, as cinco embarcações só podem transportar no máximo 140 pessoas. O percurso é do Pinhão até ao Rio Tua ou do Pinhão à Romaneira e os preços variam entre os 10 e os 20 euros por pessoa.

A Companhia Turística do Douro disponibiliza também passeios privados, uma forma de se reinventar em tempos de pandemia. “O ano passado foi uma realidade que teve bastante adesão”, afirma Vânia Ramos. Acrescenta ainda que “os clientes têm um barco só para eles e tem o custo de 150 euros por hora até 15 pessoas. Existem pessoas que não se sentem confortáveis e preferem optar por este tipo de passeio privado”, refere.

Contrariamente a Companhia Turística do Douro, a Douro Azul, maior operadora de cruzeiros fluviais da Europa, está preparada para arrancar com com os 12 navios hotel, cuja capacidade varia entre os 30 e os 130 passageiros, no início de maio. Fonte oficial da empresa confirmou ao ECO que a Douro Azul “encontra-se totalmente preparada para retomar a atividade no Douro com toda a segurança para passageiros, tripulação e para a população da região”.

Esta retoma está, no entanto, também relacionada com a possibilidade dos turistas viajarem para Portugal e conseguirem entrar ao apresentar um teste negativo à Covid-19 ou o certificado de vacinação. A Douro Azul adianta que estão a “aguardar novidades nessa variante que neste momento é condicionante do negócio”. Não obstante, fonte oficial da empresa explica que do ponto de vista operacional, estão “preparados para iniciar a atividade no imediato”.

“Aguardamos que o estado português abra as fronteiras a mercados importantes como o dos Estados Unidos e Reino Unido, a clientes vacinados ou com teste negativo, pois estão todos prontos para viajar, gostaríamos e esperamos iniciar no Douro a 1 de maio, mas infelizmente não depende de nós“, explica ao ECO fonte oficial da Douro Azul.

Estamos totalmente preparada para retomar a atividade no Douro com toda a segurança para passageiros, tripulação e para a população da região, mas isso não depende só de nós.

Fonte oficial

Douro Azul

Apesar da imprevisibilidade, a maior operadora de cruzeiros fluviais da Europa, tem reservas para todo o ano, sendo que 99% são do mercado internacional essencialmente americano, alemão, Inglês, francês e suíço. “O impedimento de operar, em função das condicionantes da pandemia, não diminuiu o interesse no Douro e nos cruzeiros em navio hotel na região”, destaca a empresa lidera por Mário Ferreira que em 2020 foi eleito personalidade do ano na indústria dos cruzeiros.

Em 2020, a Douro Azul esteve impedida de operar grande parte do ano, ao estarem limitados cerca de quatro meses e apenas com uma parte da frota. A empresa refere que “para alguns dos navios e tripulações, a paragem já é superior a 18 meses”. Esta paragem abrupta causou uma quebra de negócio superior a 80%.

O valor dos trajetos da Douro Azul varia consoante o navio, o número de dias e ainda se o cliente pretende um programa com tudo incluído, como os tours e animações. No entanto, o preço médio pode oscilar entre 200 e 500 euros por passageiro por noite.

Do outro lado da moeda, a Tomaz do Douro, que conta com uma frota de 11 embarcações, ainda não tem data marcada para retomar os típicos cruzeiros no Rio Douro. A diretora de marketing da empresa, Célia Lima, explica ao ECO que estão a aguardar as diretrizes da abertura de fronteiras, dos voos, mas sobretudo do desconfinamento. “Infelizmente começamos a ouvir de novo a notícia que pode existir novamente um retrocesso no plano de desconfinamento. Vamos aguardar mais um pouco até ter mais dados. Sem estas informações não faz muito sentido montar novamente a operação toda para fechar a seguir”, afirma a diretora de marketing.

Célia Lima destaca que querem tomar uma decisão com base em novos dados para terem a “certeza que faz sentido abrir a operação e conseguirem ter trabalho que justifique o trabalhador estar no local, os barcos estarem a funcionar e terem pessoas a quem oferecer o serviço. Caso contrário, não faz sentido”, afirma.

“Ouvimos que daqui a 86 dias poderemos estar na linha vermelha da bússola do desconfinamento o que coincide com o mês de julho. Esta notícia é terrível nesta fase e deixa-nos bastante inseguros”, adianta a diretora de marketing da Tomaz do Douro.

Era no mercado externo que as operadoras marítimo-turísticas encontravam os principais clientes. Célia Lima chama a atenção que a pandemia travou a vinda destes turistas e é preciso ter em atenção este fator. “Muitas das vezes não vamos contar com o mercado externo como até agora contávamos. Vamos contar com o mercado interno. Temos que ir analisando isto dia-a-dia”, refere.

Na Tomaz do Douro existe algum otimismo, sobretudo com o plano da vacinação, mas também uma “bastantes reticências relativamente à incerteza que se vive”.

Em 2020 a Tomaz do Douro registou uma quebra superior a 75% no volume de negócios, sendo que a atividade parou durante aproximadamente meio ano. Este ano ainda não reabriu.

De acordo com o comandante da Capitania do Douro, Rui Manuel Santos, as condições para as empresas marítimo-turísticas “são em tudo idênticas às que foram impostas” para outras atividades, nesta segunda fase do desconfinamento. Ou seja, só podem navegar as embarcações que tenham uma área onde os passageiros possam circular igual ou inferior a 200 metros quadrados e com uma lotação limitada a dois terços da capacidade.

 

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