Como ir de Valença ao Algarve já este verão, sem sofrer de “ansiedade elétrica”premium

O Governo reconhece que faltam carregadores elétricos nas autoestradas e quer acabar com a "ansiedade da autonomia". Até ao Verão a Brisa inaugura 24 novos carregadores, a somar aos 11 que já existem.

Neste momento, um condutor de um veículo elétrico que queira percorrer Portugal de norte a sul, de Valença do Minho ao Algarve, ou vice, versa, vai encontrar nas principais autoestradas desse trajeto -- A3, A1 e A2 -- apenas 16 carregadores em operação, de acordo com os dados da Brisa. No total são 11 postos de carregamento rápido (50 kW) na A1, espalhados pelas áreas de serviço de Antuã, Mealhada, Pombal, Leiria, Santarém e Aveiras, e mais cinco (também eles rápidos) na A2, em Palmela, Álcacer do Sal e Aljustrel. Na A3 ainda não existe nenhum, por enquanto.

A estes somam-se ainda os recém-inaugurados primeiros quatro pontos de carregamento ultrarrápido (350 kW) da Cepsa e Ionity , na nova rede Via Verde Electric, que entraram já em funcionamento na estação de serviço de Almodôvar, na A2, mesmo à entrada do Algarve. E mais quatro carregadores (dois rápidos de 50 kW e dois ultrarrápidos de 150 kW) da BP e EDP na A1, na área de serviço de Santarém (sentido norte/sul), também já operacionais.

No entanto, para quem chega a Portugal vindo da Galiza, por exemplo, e segue para sul sempre por autoestrada, a primeira chance que tem de carregar o seu veículo elétrico -- sem ter de desviar para um meio urbano como Viana do Castelo ou Braga -- é já abaixo do Porto, na área de serviço de Antuã. O mesmo acontece a quem entra pela fronteira de Badajoz/Elvas, e tem de percorrer toda a A6 sem ter neste momento qualquer ponto de carregamento elétrico, só podendo parar para carregar a bateria já na A2, em Álcacer do Sal.

Esta realidade é suficiente para desencorajar os automobilistas a fazerem a viagem num veículo com menos emissões poluentes. Este sentimento que é gerado por “não sabermos, com toda a fiabilidade, se vamos ser capazes de fazer a nossa viagem integral de autoestrada e ter, quando precisarmos, um ponto de acesso a carregamento elétrico” é conhecido como a famosa "ansiedade elétrica" ou "ansiedade de autonomia", definiu o secretário de Estado das Infraestruturas, Jorge Delgado, na inauguração da Via Verde Eletric. A rede engloba oito empresas parceiras no total (BP, Cepsa, EDP Comercial, Galp Electric, Ionity, Repsol, além da Brisa) e um investimento de 10 milhões de euros pata ter carga rápida (de 50 kW) e ultrarrápida (de 150 kW a 350 kW).

A Brisa garante que até ao verão vão somar-se aos 11 carregadores já existentes nas suas autoestradas mais 24 postos de carregamento em 12 áreas de serviço, o “suficiente para fazer a viagem de Valença até ao Algarve numa viatura elétrica”, garantiu o CEO da Brisa, António Pires de Lima.

Depois do arranque em Almodôvar e Santarém, estas são as próximas inaugurações previstas na rede Via Verde Electric, revelou a Brisa ao ECO/Capital Verde:

  • Barcelos, na A3, 4 postos de carregamento, parceiros IONITY/Cepsa, em maio;
  • Estremoz, na A6, 4 postos de carregamento, parceiros IONITY/Cepsa, em maio;
  • Leiria, na A1, 4 postos de carregamento, parceiros IONITY/Cepsa, em julho;
  • Grândola, na A2, 4 postos de carregamento, parceiros EDP/Repsol, até ao verão.

“Depois do verão, daremos continuidade à expansão da rede e no total serão 82 postos de carregamento elétrico em 40 áreas de serviço, que até novembro, até ao final de 2021, estarão disponíveis para os clientes da rede de autoestradas da Brisa”, disse o responsável, anunciando ainda que as inaugurações dos próximos postos de carregamento desta rede nacional serão já na próxima semana em Santarém, com a BP e a EDP. No final de 2021, 40 municípios portugueses serão abrangidos por esta rede de carregamento elétrico.

Por seu lado, Jorge Delgado lembrou que já existem hoje em Portugal “mais de 1.600 postos de carregamento” de veículos elétricos na rede Mobi.E. No entanto, sublinhou, a nova rede de longa distância Brisa, com pontos ultrarrápidos, “mais do que duplica” os carregadores existentes nas autoestradas portuguesas.

“Tanto quanto sei, este projeto mais do que duplica as áreas de serviço equipadas e mais do que quadruplica o número de postos de carregamento existentes na própria Brisa, o que significa que é um esforço muito significativo”, disse o secretário de Estado na inauguração dos primeiros postos carregamento elétrico ultrarrápido instalados numa autoestrada nacional.

A operadora de infraestruturas de transporte fala de uma “cobertura total da rede Brisa”: 11 autoestradas, 1.124 quilómetros, 40 zonas de carregamento de longa distância em áreas de serviço. Os carregamentos elétricos feitos nesta nova rede da Brisa poderão ser pagos através da aplicação móvel da Via Verde, tal como já acontece em parques de estacionamento ou bombas de gasolina. Está também em estudo o carregamento a hidrogénio nas áreas de serviço da Brisa, no futuro.

Dos 82 carregadores, 80% estarão localizados nos três principais eixos rodoviários do país: 28 serão em 14 áreas de serviço da A1 (Lisboa/Porto), 22 em 11 bombas da A2 (Lisboa/Algarve) e outros 12 em 6 áreas de serviço da A6 (Ligação a Espanha via Badajoz).

Do lado do Governo, Jorge Delgado reconheceu que, até agora, na rede autoestradas, ainda não havia ainda “uma densidade, um nível de postos de carregamento elétrico considerável”. Tornava-se necessário melhorar esse aspeto “para vencer aquilo que faz com que as pessoas não optem, de forma tão fácil, por uma opção elétrica quando compram o seu carro, que é a famosa "ansiedade elétrica" ou "ansiedade de alcance’”, salientou o governante.

A esta ansiedade, junta-se uma outra: a de estar parado meia hora, uma hora ou mais numa estação de serviço para que a bateria do carro carregue e a família possa seguir viagem para sul no carro elétrico. A Brisa promete carregamentos elétricos em “10 a 15 minutos quase para a capacidade máxima da bateria”. "Já quase não dá tempo de ir tomar café”, comentou Jorge Delgado.

"Esperamos que este ano haja um movimento importante de portugueses e turistas espanhóis a deslocar-se este verão para as nossas praias do sul do país, e que possam vir já de veículo elétrico”, disse Pires e Lima, acrescentando: "É preciso que os proprietários de viaturas elétricas se atrevam a sair com tranquilidade, com segurança, das cidades, para poderem fazer as suas viagens normais, nomeadamente as suas viagens de verão, sabendo que, num espaço máximo de 80 a 100 quilómetros, dispõem de paragens nas áreas de serviço onde podem carregar o seu carro num tempo relativamente curto, continuando depois a viagem".

Andar 100 Km de elétrico custa 5,80 euros num carregador normal a partir de maio, diz a ERSE

Quanto ao preço de carregamento, o CEO da Brisa diz que “o valor depende do contrato que o cliente tiver celebrado com o seu respetivo CEME [comercializador para a mobilidade elétrica]”.

De acordo com estimativas já avançadas pela Entidade Reguladora para os Serviços Energéticos, é possível considerar a partir de 1 de maio um valor de 5,80 euros num carregador normal e 5,87 euros num carregador rápido, isto para abastecer a bateria do carro com a eletricidade suficiente para percorrer 100 km. O regulador faz as contas considerando um cenário de 12,5 kWh/carregamento, em pontos de carregamento com entrega da rede elétrica em baixa tensão, tanto para pontos de carregamento rápidos (potência acima de 22 kW), como normais (potência até 22 kW), assumindo um consumo de 15 kWh/100 km para o veículo elétrico.

“É impossível pensar que a disponibilidade destes serviços e a concretização destes investimentos se faz e se disponibiliza de forma gratuita às pessoas. É normal que tenham de pagar pelos serviços. O carregamento de um automóvel elétrico é uma opção bastante económica do ponto de vista financeiro. É uma escolha com benefícios e não apenas do ponto de vista ambiental”, frisou Pires e Lima.

A 1 de maio começará a ser cobrada a nova "taxa Mobi.E", que irá agravar os preços da mobilidade elétrica em Portugal. A ERSE definiu os valores e em breve arranca esta cobrança pela Entidade Gestora da Rede de Mobilidade Elétrica (EGME) aos operadores dos postos e aos comercializadores de energia. Os valores variam entre cerca de quatro cêntimos e quase 17 cêntimos por carregamento (seja ele normal, rápido ou ultrarrápido), mas vão acabar por refletir-se no valor final a pagar pelo condutor.

Quem não está de acordo é a Associação de Utilizadores de Veículos Eléctricos, que defende que estas taxas devem ser mais baixas para carregamentos normais face aos carregamentos rápidos, devem ser aplicadas por energia (kWh) consumida e não por carregamento (valor fixo) e a comparticipação das mesmas deverá prolongar-se, no mínimo, por mais dois anos para compensar o impacto negativo da pandemia, para incentivar e fomentar a transição energética nos transportes ligeiros, de passageiros e de mercadorias e a eletrificação das frotas das empresas

"O impacto destas taxas nos proveitos da EGME deverá ser suportada por fundos públicos afetos à descarbonização da economia e à eletrificação dos transportes, por um período de dois anos, até 1 de maio de 2023", defendeu a UVE recentemente em comunicado, sublinhando: "A subsidiação da taxa da EGME deve ser imperativa, caso contrário estaremos a pôr em causa o fomento da mobilidade elétrica para todos".

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