Economista da Reserva Federal: Mercado de trabalho português é “muito disfuncional” e “prejudica os jovens”

Há 10 anos, Miguel Faria e Castro trocou Lisboa por Nova Iorque e chegou à Reserva Federal de St. Louis. Fala sobre as forças e vulnerabilidades da economia americana, com um olhar sobre a portuguesa.

Licenciado pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, Miguel Faria e Castro rapidamente percebeu que as posições que lhe interessariam requeriam, todas, um doutoramento. Foi essa ambição que o fez rumar até ao outro lado do Atlântico. Com apenas 32 anos e um percurso não “muito tradicional” é, desde 2017, economista na divisão de estudos da Reserva Federal de St. Louis, nos Estados Unidos. Viveu no “olho do furacão” a volatilidade nos mercados provocada pela pandemia.

Ao contrário de muitos jovens da sua geração, Miguel Faria e Castro reconhece que não decidiu emigrar “devido à falta de oportunidades ou à conjuntura económica”, mas porque quis enveredar por um “percurso mais académico” que o levou a prosseguir estudos na Universidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde além de aluno de doutoramento foi também professor assistente. Pelo meio, ainda teve uma passagem pelo Gabinete de Pesquisa e Estudos do Ministério da Economia e da Inovação em Portugal.

Apesar de todos estes desafios, Miguel Faria e Castro aponta o início da pandemia como um dos momentos mais desafiantes da sua carreira. Com a volatilidade dos mercados acionistas, a partir de finais de fevereiro de 2020, os dias de trabalho eram muito intensos, com “horas e horas passadas em reuniões”, já que a Fed tentava a todo o custo “garantir que a pandemia não se tornaria noutra crise financeira como a de 2008”, explica o economista ao ECO. Do ponto vista profissional foi uma experiência “muito interessante”, dado que estava “no olho do furacão”, pelo que podia ver tudo a desenrolar-se de perto “e um pouco por dentro do sistema”.

Apaixonado pela investigação, é precisamente este contacto “muito imediato” com as pessoas que “tomam decisões em termos de política monetária” e o facto de poder apoiar estas pessoas na tomada de decisões que Miguel Faria e Castro aponta como uma das oportunidades “super desafiantes e importantes” em termos da sua realização profissional no cargo que ocupa. Por isso, não pondera, a curto-prazo, voltar a viver em Portugal, ainda que considere que existem oportunidades “semelhantes” às que existem nos EUA.

“Crises são sempre boas oportunidades para dar um passo atrás e repensar a sociedade em que vivemos”

Apesar de viver fora de Portugal há 10 anos, o economista continua a acompanhar de perto a situação económica do país. Num “olhar” atento sobre a saúde da economia portuguesa, Miguel Faria e Castro considera que é indiscutível que a economia esteve “muito vulnerável” à crise provocada pela pandemia, dado que é fortemente sustentada por setores que envolvem um “elevado contacto físico, como o turismo e a restauração”. Não obstante, em linhas gerais, considera que as medidas tomadas pelo Governo foram “bem sucedidas”, dando como exemplo o lay-off, que “evitou um aumento muito grande da taxa de desemprego” e garantiu que uma franja da população tivesse conseguido preservar os seus rendimentos.

Quanto às moratórias, numa fase inicial, Miguel Faria e Castro mostrou-se menos recetivo, temendo que fosse uma “bomba-relógio prestes a explodir” e que pudesse culminar no colapso do sistema bancário como na crise anterior, contudo, agora diz estar mais esperançoso, já que a economia portuguesa “está lentamente a conseguir abandonar” esta medida, sem repercussões para os bancos.

A economia portuguesa tem um mercado de trabalho muito disfuncional e esta disfunção prejudica principalmente pessoas mais jovens.”

Miguel Faria e Castro

Economista na divisão de estudos da Reserva Federal de St. Louis

Ainda assim, o economista da Reserva Federal de St. Louis argumenta que “as crises são sempre boas oportunidades para dar um passo atrás e repensar aquilo que temos e a sociedade em que vivemos”. Miguel Faria e Castro defende que é altura de “levar a cabo reformas mais estruturais da economia”, nomeadamente no que toca ao mercado laboral. “A economia portuguesa tem um mercado de trabalho muito disfuncional e esta disfunção prejudica principalmente pessoas mais jovens“, alerta.

Além disso, o economista aponta que Portugal “tem ótimas condições para beneficiar da digitalização da economia global e do teletrabalho”, pelo que poderia aproveitar esta oportunidade para “atrair emigrantes qualificados” que podem trabalhar para outro país e a viver em território nacional.

Outra preocupação elencada pelo economista prende-se com a “bazuca” europeia e a forma como vão ser executados os fundos em Portugal. Trata-se de um pacote de estímulos “sem precedentes”, no entanto, Miguel Faria e Castro lembra o histórico do país em execução de fundos. “Este dinheiro está a vir todo, mas não é claro se vamos ter que mandar uma enorme parte destes fundos para trás“, afirma. Nesse contexto, Miguel Faria e Castro sublinha que seria importante garantir que estes fundos se traduzirão em “aumentos de produtividade e de bem-estar” e que sejam “equitativamente distribuídos pela população”.

Mercado laboral dos EUA ainda longe dos níveis pré-pandemia

E se a economia portuguesa tem recuperado, ainda que a um ritmo mais lento, Miguel Faria e Castro considera que a economia norte-americana tem recuperado “muito rapidamente”, estando já “acima da tendência pré-pandemia” em termos de produto. Para isso, contribuiu o facto da economia dos EUA ser, “para o bem e para o mal”, uma economia “muito flexível”, bem como “uma política orçamental muito ativa por parte do governo federal americano”, quer da anterior administração de Donald Trump quer da atual administração de Joe Biden.

A economia norte-americana tem recuperado a um ritmo bastante bom. Em termos de produto penso que estamos, aliás, acima da tendência pré-pandemia. E isso também teve muito haver com uma política orçamental muito ativa por parte do governo federal americano.”

Miguel Faria e Castro

Economista na divisão de estudos da Reserva Federal de St. Louis

Houve muito mais apoio orçamental à economia [norte-americana] do que na Europa, por exemplo, e isso tem ajudado muito à recuperação“, salienta o economista da Fed, acrescentando que esta recuperação começou a sentir-se desde que “a vacinação começou a acelerar no início deste ano”.

Ainda assim, o economista sublinha que o mercado de laboral ainda não recuperou completamente, com as “taxas de desemprego e as taxas de participação” ainda abaixo dos níveis pré-pandemia. “Parece que muita gente saiu da força de trabalho com a pandemia e não regressou. Isto é uma coisa para a qual temos prestado atenção e penso que enquanto isso não se resolver não teremos recuperado completamente“, explica.

Outra das principais preocupações apontadas por Miguel Faria e Castro está relacionada com o aumento da inflação nos EUA, já que a Fed tem acompanhado de perto este indicador para calibrar os instrumentos de política monetária. Em julho, o índice de preços ao consumidor (IPC) subiu 0,5%, depois dos 0,9% registados em junho, de acordo com os dados divulgados pelo Departamento do Trabalho norte-americano, a 11 de agosto. Esta foi a maior descida mensal em 15 meses, sendo que este recuo poderá sinalizar que a inflação terá atingido o seu pico. Já no acumulado dos 12 meses terminados em julho, a taxa de inflação atingiu os 5,4%, continuando no nível mais elevado desde 2008.

Para Miguel Faria e Castro, ainda é “bastante cedo” para retirar conclusões definitivas sobre o aumento da inflação, mas avisa que estes dados devem ser lidos com cuidado. O economista considera que é necessário perceber se este aumento é de facto transitório, e aí “não é preocupante”, ou trata-se de uma subida “permanente” e “sustentada” que se vai prolongar no tempo, o poderá ser mais problemático.

O que sabemos é que em alguns setores que foram mais afetados pela pandemia, como a hotelaria e a restauração, estamos a ter agora aquilo a que chamam de labour crushed, que é uma escassez de trabalho e isto tem levado a um aumento muito rápido dos salários nesses setores. E esse aumento rápido dos salários terá derradeiramente de se manifestar em inflação.”

Miguel Faria e Castro

Economista na divisão de estudos da Reserva Federal de St. Louis

Além disso, o economista sublinha ainda que a leitura dos dados deve também ter em conta “as origens desta inflação”. Por outras palavras, Miguel Faria e Castro diz que é importante perceber se a subida dos preços está relacionada com o ” aumento de custos de matérias-primas, como o petróleo”. Se assim for, representa um problema para o poder de compra dos cidadãos, porque os “rendimentos das pessoas não estão necessariamente a aumentar ao mesmo nível”.

Já se o aumento da inflação estiver a ser acompanhado por um aumento dos salários, o poder de compra mantém-se relativamente estável. “O que sabemos é que em alguns setores que foram mais afetados pela pandemia, como a hotelaria e a restauração, estamos a ter agora aquilo a que chamam de labour crushed que é uma escassez de trabalho. E isto tem levado a um aumento muito rápido dos salários nesses setores. E esse aumento rápido dos salários terá derradeiramente de se manifestar em inflação”, argumenta.

Com este crescimento mais rápido do que esperado da economia norte-americana, cresce a probabilidade de uma eventual retirada de estímulos por parte da Fed. Miguel Faria e Castro explica que a Fed está a acompanhar “de forma muito próxima” a evolução da economia norte-americana, por forma avaliar se “se justifica ou não” a retirada de alguns dos estímulos.

O economista detalha que o que “se tem falado mais em retirar são as as compras de mortgage-backed securities, isto é, títulos que estão associados a hipotecas e empréstimos à habitação”, explica. Em causa está o facto de estar a existir um “boom” no setor do imobiliário, com os preços das casas a disparar, o que poderá estar a acentuar a desigualdade.

“Este tipo de estímulos estão de certa forma a contribuir para o aumento dos preços da habitação, o que tem obviamente algumas consequências nefastas ao nível da desigualdade”, alerta, acrescentando que “o aumento do preço das casas acaba também por se manifestar na taxa de inflação através das rendas que são imputadas no cálculo dos indicadores do nível de preços”, conclui.

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