Centeno diz que BCE deve ter cuidado para não ser enganado com subida dos preços

Lembrando a subida dos juros em 2011, em plena crise das dívidas, Mário Centeno defende que o BCE deve ser "ainda mais conservador" na hora de analisar a retirada dos estímulos.

A recente subida dos preços faz despertar os falcões em Frankfurt, que pretendem que o Banco Central Europeu (BCE) comece a apertar os estímulos para travar a inflação. Mário Centeno, governador do Banco de Portugal e membro do conselho de governador do BCE, tem uma visão diferente e deixa o aviso: o banco central deve ser “ainda mais conservador” na forma como se vai mexer daqui para a frente, pois no passado já foi enganado por notícias sobre a inflação e não deve cometer agora o mesmo erro.

Fomos enganados por algumas notícias sobre a inflação no passado, o que nos levou a agir de forma errada, então não queremos, definitivamente, cometer o mesmo tipo de erros desta vez”, avisou Centeno em entrevista ao canal norte-americano CNBC (acesso livre/conteúdo em inglês).

Em 2011, em plena crise da dívida, o BCE subiu as taxas de juros, apanhando o mercado de surpresa, com o então presidente Jean-Claude Trichet a defender-se das críticas perante os números da inflação. Em agosto, a inflação atingiu os 3%, o valor mais elevado em dez anos, aumentando o debate sobre se o banco central deve começar a fazer uma inversão na sua política monetária.

"Fomos enganados por algumas notícias sobre a inflação no passado, o que nos levou a agir de forma errada, então não queremos, definitivamente, cometer o mesmo tipo de erros desta vez.”

Mário Centeno

Governador do Banco de Portugal

Centeno diz que o “BCE precisa de ser muito — diria que ainda mais — conservador na forma como aborda esta questão”.

“Precisamos de garantir condições de financiamento favoráveis a todos os setores da economia à medida que vamos saindo da crise, mas ainda não estamos fora de perigo”, sublinhou o governador do Banco de Portugal na mesma entrevista.

O BCE anunciou há duas semanas que vai começar a reduzir o ritmo de compras de dívida pública, naquilo que a presidente Christine Lagarde considerou ser uma “recalibragem” da bazuca e não uma retirada dos estímulos. Lagarde argumentou que muitos dos fatores que estão a impulsionar a inflação são “temporários” e que a médio prazo a taxa de subida dos preços continua abaixo da meta de 2%. O BCE antecipa que a inflação se situe nos 1,7% e 1,5% em 2022 e 2023.

Esta segunda-feira, numa audição no Parlamento Europeu, Lagarde adiantou que a inflação na Zona Euro poderá exceder as previsões do BCE, mas há poucos sinais de que esse cenário esteja já a ocorrer. “Embora a inflação possa mostrar-se mais fraca do que o previsto se a atividade económica for afetada por um novo aperto de restrições, existem alguns fatores que podem levar a pressões de preços mais fortes do que as atualmente esperadas”, disse perante os eurodeputados.

“Mas estamos a ver sinais limitados desse risco até agora, o que significa que o nosso cenário de base continua a prever que a inflação fique abaixo da nossa meta no médio prazo”, acrescentou.

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