Como proteger as poupanças contra a inflação

Subida generalizada dos preços pode representar uma ameaça às suas poupanças, mas há formas de proteger o seu dinheiro. Mas terá sempre de assumir algum risco, dizem os analistas.

A inflação está a causar noites sem dormir ao ministro das Finanças da Áustria, como confessou o próprio há semanas. Para os aforradores, a perspetiva de subida generalizada dos preços também deve assustar. Numa altura em que os juros baixos do banco central deprimem as rentabilidades dos produtos considerados mais seguros, como os depósitos, as alternativas para proteger as poupanças contra a inflação implicam uma atitude mais ousada e de maior risco, dizem os analistas ouvidos pelo ECO.

A taxa de inflação está em máximos de 13 anos na Zona Euro, devendo atingir os 4% no final deste ano. O mercado antecipa que a alta dos preços veio para ficar e já está a incorporar uma subida dos juros do Banco Central Europeu (BCE) em julho do próximo ano.

Para os pequenos aforradores, a inflação deve ser também um fator de consideração na hora de investir e poupar: se um produto render 1% num ano e os preços gerais subirem 2% no mesmo período, vai perder dinheiro.

Esqueça os depósitos, mas…

Para os analistas ouvidos pelo ECO, não há um produto de poupança considerado seguro que funcione como uma proteção para o nosso dinheiro contra a inflação. O que significa que terá de assumir algum risco se quiser estar protegido contra essa ameaça.

Não existem atualmente aplicações sem risco que permitam obter um rendimento nominal superior ao da inflação. Para tal, será necessário correr riscos”, assume Rui Bernardes Serra, economista-chefe do Banco Montepio.

Neste cenário, os depósitos bancários são para esquecer, dizem os analistas. “No atual contexto de taxas negativas ou próximas de zero, a remuneração oferecida pelos depósitos bancários é praticamente nula. Com a dinâmica de inflação a acelerar, essa pequena remuneração não é suficiente para preservar o poder de compra do capital investido”, explica Nuno Sousa Pereira, head of investments da gestora de ativos Sixty Degrees.

Mas não “é de excluir totalmente” os depósitos, acrescenta Carlos Almeida, do Banco Best, sobretudo numa fase atribulada como aquela que vivemos atualmente. “Esta aplicação continua a ser indicada para alocar parte da poupança que esteja reservada a um fundo de emergência, pois, além do baixo risco e da garantia de capital até ao máximo de 100 mil euros por titular, tem liquidez imediata”, observa o responsável.

"Não existem atualmente aplicações sem risco que permitam obter um rendimento nominal superior ao da inflação. Para tal, será necessário correr riscos.”

Rui Bernardes Serra

Economista-chefe do Banco Montepio

Certificados já renderam mais

Ainda no capítulo dos investimentos considerados seguros, encontram-se os certificados do Tesouro. Têm sido uma das aplicações preferidas dos aforrados portugueses nos últimos anos, mas o Governo tem progressivamente cortado a rentabilidade do produto face às condições do mercado.

Os atuais Certificados do Tesouro Poupança Valor, lançados há pouco mais de um mês, rendem em média 1% ao longo dos sete anos de aplicação, acrescidos de um prémio em função do desempenho da economia a partir do terceiro ano. Os anteriores certificados rendiam 1,75%, mais o bónus da economia que vinha um ano mais cedo.

“Pode ser uma solução adequada para os aforradores que apresentem uma elevada aversão ao risco, mas sempre numa ótica de diversificação por outros produtos que permitam rentabilizar o dinheiro investido mesmo em aplicações de baixo risco”, considera Carlos Almeida.

Nuno Sousa Pereira lembra, contudo, que “caso a taxa de inflação se mantenha nos níveis atuais ou superiores durante o período de sete anos, neste momento 1,5% em Portugal, a recompensa não será mesmo assim suficiente para preservar o poder de compra do capital”.

"Os certificados do Tesouro podem ser uma solução adequada para os aforradores que apresentem uma elevada aversão ao risco, mas sempre numa ótica de diversificação por outros produtos que permitam rentabilizar o dinheiro investido mesmo em aplicações de baixo risco.”

Carlos Almeida

Diretor do Banco Best

Onde meter o dinheiro?

Não havendo uma opção de baixo risco com capacidade para absorver a inflação, as alternativas passam para assumir um maior risco. Mas também aqui há formas de controlar o risco. Conhece o ditado que diz que devemos “não colocar os ovos na mesma cesta”?

Rui Bernardes Serra dá o mote: “Basicamente os investidores podem investir diretamente no mercado de ações, de commodities, de imobiliário ou em dívida privada, ou, indiretamente, por via de fundos de investimento (incluindo fundos de investimento cotados em bolsa — os ETF), que acaba por ser a forma mais fácil (e barata em termos de custos de transação) de ter uma carteira diversificada”.

Mas o economista-chefe do Banco Montepio deixa duas notas: em todos estes ativos existe risco e, além disso, os preços destes ativos têm subido bastante nos últimos anos, daí que várias entidades já tenham deixado alertas sobre uma possível correção nos preços.

A estratégia de Nuno Sousa Pereira passa por um portefólio com risco adequado a cada investidor e que poderá incluir, além de matérias-primas e ações, ativos reais como imobiliário, arte, propriedades agrícolas.

Para quem privilegia um rendimento periódico, “a aposta em cotadas que pagam bons dividendos pode ser uma boa estratégia”, aponta Carlos Almeida.

"A melhor alternativa de investimento para absorver níveis de inflação mais elevados, será um portfolio, com risco adequado a cada investidor, e que poderá incluir matérias-primas, ações e ativos reais: imobiliário, arte, propriedades agrícolas, entre outros.”

Nuno Sousa Pereira

Head of Investments da Sixty Degrees

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