Dependência europeia do gás natural russo é “um problema gravíssimo”

  • Lusa
  • 15 Fevereiro 2022

O economista Abel Mateus alerta que a dependência da Europa do gás natural russo, no contexto das tensões na Ucrânia, é "um problema gravíssimo" sem solução no médio prazo.

Abel Mateus, economista e ex-presidente da Autoridade da Concorrência, revela-se apreensivo com a dependência europeia do gás russo, não antevendo uma solução no médio prazo.

“Esta dependência da Europa do gás natural russo é algo extremamente complicado, que está a ser utilizado pela Rússia não só em termos de subida de preços, mas também em termos políticos e geoestratégicos”, afirma o economista em entrevista à Lusa.

O atual presidente do conselho consultivo da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social considera que este é “um problema gravíssimo”, para o qual não antevê “solução no curto, nem no médio prazo, porque é um problema de 10, 15 anos e a Europa ainda não pensou como é que vai resolver a questão”.

Questionado sobre a subida dos preços da energia, que tem contribuído para o aumento da inflação na zona euro, Abel Mateus acredita que poderá haver uma descida este ano, mas alerta também para o impacto de “toda a política ambiental de descarbonização da Europa acelerada em relação ao resto do mundo”.

“[A política de descarbonização] implica que neste período de transição de 20 ou 30 anos tem que ser assente em grande parte no consumo de gás natural”, assinala.

A escalada de tensão entre a Rússia e a Ucrânia está a levantar preocupações sobre o fornecimento de gás russo à Europa, numa altura em que os preços da energia dispararam na Zona Euro.

Esta dependência da Europa do gás natural russo é algo extremamente complicado, que está a ser utilizado pela Rússia não só em termos de subida de preços, mas também em termos políticos e geoestratégicos.

Abel Mateus

Escalada dos juros ameaça com recessão

Na mesma entrevista, Abel Mateus diz acreditar que os próximos anos serão marcados por uma inflação elevada, alertando para o impacto de uma subida demasiado rápida das taxas de juro, caso o BCE demore a agir.

“Estas taxas de inflação saem completamente fora dos mandatos que são dos bancos centrais, de manterem a inflação abaixo dos 2%. Muitos destes bancos centrais e os mercados continuam a apostar que é um fenómeno que vai ser sobretudo acentuado no primeiro semestre de 2022 e que depois vai desacelerar. Não estou tão otimista”, disse em entrevista à Lusa.

O economista, que foi administrador do Banco de Portugal na área da política monetária em Portugal e participou na adesão portuguesa à moeda única, considerada “inevitável” que o Banco Central Europeu (BCE) suba as taxas de juro, recordando que a Reserva Federal norte-americana já anunciou que o irá fazer a partir de março.

Apesar de admitir que a inflação na Zona Euro poderá desacelerar devido a fatores ligados às cadeias de produção e estrangulamentos, Abel Mateus salienta que fatores como a transição energética, os ligados ao aumento da liquidez e a poupança extraordinária que é esperada ser canalizada para aumentos de procura vão “descarregar sobre a economia”.

“Poderemos durante alguns anos – não sei quantos – ter uma inflação relativamente elevada, o que obriga a subir taxas de juro”, vinca.

Questionado sobre se existe o risco de o BCE agir demasiado tarde, Abel Mateus recorda que, quando um banco central “sobe tarde as taxas de juro, tem que as subir rapidamente e muito mais do que seria se as tivesse começado a subir gradualmente”.

O atual presidente do conselho consultivo da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social adverte: Se a “subida for muito rápida, arriscamo-nos a ter uma recessão daqui a dois ou três anos”.

“Por exemplo, dois pontos percentuais (pp.) de aumento, que não é nada de extraordinário, já tem um efeito muito sério sobre a economia portuguesa”, assinala, exemplificando que para “uma família que tenha um empréstimo, por exemplo, de 200 mil euros na compra de uma casa, um aumento de dois pp. significa um aumento de quatro mil euros do juro por ano que tem que pagar a mais”.

“Salários não podem subir se não aumentar a produtividade”

Falando sobre remunerações, o economista classifica como “desadequada” a definição de metas para a subida do salário mínimo nacional, defendendo que os salários só podem subir com um aumento da produtividade.

“Acho que é uma perspetiva errada esta política que parece que estar a pegar na moda de que é preciso subir os salários. Os salários não podem subir se não aumentar a produtividade, porque senão vamos novamente reduzir a capacidade das empresas investirem e inovarem”, disse Abel Mateus, atualmente presidente do conselho consultivo da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, em entrevista à Lusa.

O economista argumenta que “só um aumento da produtividade a nível empresarial” em Portugal “é que vai permitir dar este salto”.

Questionado sobre a definição de metas para a subida do salário mínimo nacional (SMN) para a legislatura, Abel Mateus disse à Lusa considerar “isso tudo desadequado”. “Vamos é fixar metas para o crescimento económico e depois os salários vão subir com o crescimento económico”, vinca, justificando que “aumentar o salário mínimo sem que haja crescimento económico vai causar sobretudo dificuldades para os jovens, porque vão ter dificuldade em arranjar trabalho e, por outro lado, vai levar a que algumas empresas evidentemente irão fechar. Se têm baixa produtividade, é inevitável”.

Para o economista, esta estratégia não é a forma de desenvolver um país, sublinhando nunca ter visto “nenhum país ter como política fundamental subir o salário mínimo”.

Abel Mateus defende choque fiscal

Por fim, o economista defende um choque fiscal e uma redução da despesa corrente primária, considerando que a prioridade do Governo deve ser pôr o país a crescer. “É preciso um tipo de políticas diferentes. Sem haver crescimento económico não é possível resolver os problemas e as ansiedades com que o país se confronta neste momento”, disse à Lusa.

Para o responsável, há “uma atitude geral, que foi acentuada pela pandemia, de grande intervenção do Estado na economia”. “Este intervencionismo do Estado tem de ser retirado para que haja um maior dinamismo da iniciativa privada e empresarial. E aí começa um problema que Portugal tem, que é o nível de impostos que todos pagamos: as empresas, as famílias, etc.”, vinca.

Abel Mateus explica que a instituição tem feito uma reflexão sobre as reformas necessárias para alavancar o crescimento do país. “Essas reformas começam, do nosso ponto de vista, por uma redução das taxas de imposto para dar um choque fiscal e permitir que as empresas tenham mais lucros para reinvestir e permitir que as pessoas tenham maiores incentivos para trabalhar, para poupar e investir”, afirma, ainda que tal implicasse uma redução das receitas fiscais.

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