Quase 90% dos profissionais tech trabalham em regime 100% remoto ou híbrido

Apesar de o caminho já se estar a fazer no sentido do trabalho remoto, a pandemia ditou o sprint final. Profissionais tech que trabalham 100% remoto até ganham mais.

É, seguramente, a indústria com maior percentagem de trabalhadores remotos: 88,6% dos profissionais no setor tech trabalham 100% remotamente ou num regime de trabalho híbrido. Uma realidade para a qual esta indústria já caminhava, mas que a pandemia ditou o sprint final: cerca de 20% destes profissionais trabalham remotamente para uma empresa noutro país. Salário, benefícios e equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal são os principais impulsionadores da carreira destes profissionais, enquanto benefícios de saúde e bónus anual são as vantagens mais desejadas, revela o estudo “Global Tech Talent Trends”, elaborado pela Landing.Jobs, a que a Pessoas teve acesso.

“O setor tecnológico já era dos mais avançados a nível de trabalho remoto. Com a pandemia, o trabalho remoto passou de exceção a regra. E, ao contrário de muitos outros setores, que estão a voltar ao presencialismo, na área da tecnologia não há volta a dar”, defende Pedro Moura, chief marketing officer da Landing.Jobs.

“A principal razão que identifico para este facto é o poder negocial que os profissionais tecnológicos têm, dada a enorme escassez de talento existente. Uma empresa que não se assuma como remote first perante um candidato hoje em dia está a colocar em si própria um selo de falta de atratividade”, acrescenta o líder.

Uma empresa que não se assuma como remote-first perante um candidato (tech) hoje em dia está a colocar em si própria um selo de falta de atratividade.

Pedro Moura

Chief marketing officer da Landing.Jobs

Uma percentagem significativa (20%) de profissionais tech que trabalham para empresas que se encontram noutros países, noutros continentes até. É, sobretudo, o caso dos profissionais que vivem no continente africano (72,8%), asiático (72,6%) e na parte sul do continente americano (82,1%).

Com a possibilidade de aceder a pools de talento que não conhecem fronteiras chegam boas notícias para as empresas, que se deparam com a escassez de talento tecnológico, um tema que não é novo. Já antes da pandemia se estimava que nos próximos anos, só em Portugal, haveria necessidade de mais cerca de 50.000 a 70.000 profissionais, para um universo atual de cerca de 120.000.

“As empresas portuguesas podem aceder a pools de talento em continentes como África, América do Sul ou Ásia para trabalharem remotamente. Uma enorme oportunidade que Portugal tem é, para além de poder contar com estas pools de talento remoto, promover a realocação de profissionais destas geografias para o nosso país, com impactos positivos quer a nível da capacidade tecnológica, quer a nível económico e demográfico”, considera.

“Portugal goza de enorme reputação enquanto destino para talento tecnológico, e perderá uma enorme oportunidade se o Estado e empresas não souberem aproveitar esta possibilidade”, alerta o chief marketing officer da Landing.Jobs.

Estarão as empresas portuguesas prontas para contratar no estrangeiro? “Em geral, as empresas portuguesas são ainda muito conservadoras, muito avessas ao risco. Isto reflete-se na contratação de estrangeiros, sobretudo estrangeiros não europeus”, responde Pedro Moura.

“O que observamos na Landing.Jobs é que, embora as empresas afirmem estarem recetivas a talento de todo o mundo, nas suas ações concretas de contratação demonstram o contrário, tendendo a preferir candidatos locais a internacionais. E é neste ponto que o discurso hoje em dia em voga sobre diversidade esbarra na parede. Espero que a realidade da escassez de talento tecnológico local leve a uma mudança de atitude por parte das organizações”, defende.

Embora as empresas afirmem estarem recetivas a talento de todo o mundo, nas suas ações concretas de contratação demonstram o contrário, tendendo a preferir candidatos locais a internacionais. E é neste ponto que o discurso hoje em dia em voga sobre diversidade esbarra na parede.

Pedro Moura

Chief marketing officer da Landing.Jobs

Este fenómeno acontece, sobretudo, nas empresas mais tradicionais, porque nas startups e scale-ups nacionais, bem como em empresas estrangeiras que criam tech centers em Portugal, o líder de marketing não vê o mesmo comportamento: “têm uma atitude muito mais aberta e bem preparada para contratar internacionalmente.”

Salário e benefícios são os impulsionadores de carreira

Ao mesmo tempo que o aumento da pool de talento traz boas notícias para as empresas, pode também dificultar ainda mais o recrutamento. “As más [notícias] é que as empresas estrangeiras descobriram que podiam contratar portugueses para trabalhar remotamente, o que coloca uma pressão extra sobre a escassez existente, bem como sobre os salários praticados”, explica.

O salário e benefícios são, precisamente, o principais fator tido em conta pelos profissionais de tecnologias nas suas decisões sobre carreira (19,2%), seguido do work-life balance (16,6%). Segundo Pedro Moura, tem-se observado um aumento progressivo da importância de fatores como a qualidade de vida ou o equilíbrio entre a esfera pessoal e a profissional.

Por outro lado, benefícios na área da saúde (19,7%) e bónus anual (18,2%) são as mais regalias laborais mais procuradas.

Os melhores salários tendem a pertencer, agora, aos profissionais 100% remotos. Atualmente, os cargos de gestão ganham, em média, 1,4 vezes mais do que programadores, e trabalhos exclusivamente presenciais são os mais mal pagos (1,9 vezes menos do que os cargos 100% remotos), revela o estudo levado a cabo pela tecnológica portuguesa.

“A nossa melhor explicação é que a pandemia está a acelerar esta mudança na perceção dos profissionais, com uma elevada influência da vivência remota que aconteceu durante este período.”

Ainda no que diz respeito às remunerações, é de salientar que, nos últimos 12 meses, 60,9% dos profissionais da tecnologia viram os seus salários aumentar, enquanto 7,5% sofreram uma diminuição no ordenado.

Pouco mais de metade das mulheres (51,2%) tiveram aumento salarial no último ano, comparativamente a 62,6% dos homens. “Infelizmente, a distância entre as palavras e as ações deixa muito a desejar”, comenta Pedro Moura.

“Há que constatar que houve uma evolução positiva de 2019 a 2021, quer ao nível da presença de mulheres em IT, quer na diminuição das discrepâncias salariais. Ainda não tratámos, para Portugal, os dados de 2022.”

“Tendo a olhar para este tema sob duas perspetivas. A primeira é no campo da moral e da ética, fundamentada na premissa básica ‘trabalho igual, salário igual’, e que deve servir de base a valores e culturas empresariais promotoras de mais igualdade. A segunda é no campo do interesse empresarial, em que a diversidade de perfis e competências é efetivamente encarada como um meio fundamental para o aumento da competitividade e resultados”, explica.

“Considero que as empresas que melhor conseguirem trabalhar e equilibrar estas duas perspetivas serão as que conseguirão vencer no futuro, mais que não seja porque vão ser os lugares onde o talento quererá trabalhar.”

Revelando informações interessantes sobre o panorama tecnológico global, tanto para profissionais de tecnologia como para empresas, o “Global Tech Talent Trends”, da Landing.Jobs, teve origem num questionário com âmbito global que contou com mais de seis mil respostas, envolvendo uma série de países, como Portugal, Brasil e Nigéria, que estão entre os melhores representados devido ao alto número de respostas.

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