Bancos acenam com taxa fixa para famílias se protegerem da subida dos juros

Bancos estão atentos e a monitorizar o impacto da subida dos juros na prestação da casa, mas afastam cenário de crise. Reforçam ideia de que famílias se podem proteger com fixação da taxa do crédito.

Com a subida em flecha das Euribor e a enorme incerteza pela frente, nomeadamente quanto à duração da guerra e à alta inflação, os bancos parecem não ter grandes dúvidas sobre qual o caminho a seguir para as famílias se protegerem dos riscos de um agravamento acentuado da prestação mensal nos próximos tempos: chegou o momento de fixar a taxa de juro do empréstimo da casa.

Em Portugal, mais de 90% dos financiamentos da habitação têm taxas variáveis, circunstância que torna o país particularmente sensível ao novo ciclo que a Zona Euro está a entrar. Os juros estão a subir progressivamente com os sinais cada vez mais claros de que o Banco Central Europeu (BCE) vai começar a apertar as condições monetárias na região já em julho. Antecipando esse cenário, as Euribor estão a subir há meses – as taxas a 6 e 12 meses deram esta terça-feira o maior salto em mais de uma década –, aumentando os encargos das famílias com a habitação, numa altura em que já sentem nos seus bolsos os efeitos austeros da subida dos preços.

Referindo-se à taxa fixa, Paulo Macedo, presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), o banco com maior quota de crédito da casa em Portugal (24%), recentemente deixou avisos: “Não vale a pena dizer daqui a uns anos que tivemos azar, que as taxas de juros estavam muito altas e que ninguém fez nada por isso. Os instrumentos existem e são para ser geridos“.

Contactados pelo ECO, também o Santander e o Novobanco sublinharam que disponibilizam esta opção às famílias que “permite reduzir a volatilidade do serviço da dívida num contexto de maior subida de taxas de juro”, segundo assinalou o banco liderado por Castro e Almeida. O Novobanco mostrou que há prós e contras: “A opção de taxa fixa mitiga um risco de aumento das taxas, mas pelo efeito de cobertura desse risco, implica uma prestação no período de fixação da taxa fixa mais cara que a prestação inicial variável”.

"Não vale a pena dizer daqui a uns anos que tivemos azar, que as taxas de juros estavam muito altas e que ninguém fez nada por isso. Os instrumentos existem e são para ser geridos.”

Paulo Macedo

CEO da Caixa Geral de Depósitos

Isto é, fixar a taxa de juro do crédito traduzir-se-á imediatamente numa prestação paga ao banco maior do que aquela que se paga agora com a taxa variável. Porém, poderá compensar no futuro: se os juros subirem muito, a taxa do seu contrato fica limitada ao máximo que ficou acertado com o banco, funcionando como uma espécie de seguro para riscos futuros.

A escolha da grande maioria das famílias portuguesas tem passado pela taxa variável, tirando proveito da descida dos juros nos últimos anos, e o Novobanco também assinala que “os clientes, em regra, são mais sensíveis ao preço da prestação do que à cobertura de um risco futuro”.

Euribor aceleram

Fonte: Reuters

Bancos reforçam monitorização

Em todo o caso, os bancos asseguram que estão a reforçar os contactos com os clientes no sentido de detetarem sinais de eventuais dificuldades atempadamente, em linha com o enorme esforço feito recentemente aquando da saída do regime das moratórias de crédito no final do ano passado, mas afastam uma crise de incumprimento das famílias. Estão cautelosos, mas relativamente tranquilos com o que se vai passar a seguir. Porquê?

Há vários fatores que ajudam a mitigar os riscos, segundo os bancos. Desde logo, a economia vai continuar a apresentar bons desempenhos nos próximos anos e a estabilidade do mercado de trabalho assegurará que as famílias manterão os seus empregos e os salários. Depois, as famílias estão menos endividadas e acumularam muitas poupanças durante a pandemia, as quais poderão representar uma almofada importante para amparar eventuais dificuldades ou necessidades.

Mas também é preciso colocar a subida das taxas de juro em perspetiva, frisa o BPI, dado que “vem repor as taxas de referência mais próximas dos níveis neutrais, depois de um longo período de taxas anormalmente baixas, em termos históricos”.

As taxas Euribor negociaram em valores negativos nos últimos anos e só agora regressaram a valores positivos. Apesar de estarem a subir há meses, continuam em níveis historicamente baixos. “Antes da crise anterior (do subprime e da dívida soberana), e tendo por referência a Euribor a 3 meses, os juros subiram de cerca de 2% para cerca de 5% em dois anos. Atualmente, e de acordo com as expectativas do mercado, espera-se que subam para cerca de 1,5%”, lembra o Novobanco.

Os bancos destacam ainda outros fatores: eles próprios estão mais fortalecidos e capazes de apoiar as famílias (como fizeram na pandemia com as moratórias) e há regras mais robustas na concessão de crédito, como a capacidade de reembolso das famílias num cenário de stress com taxas em 3%.

"É preciso colocar esta subida em perspetiva, porque vem repor as taxas de referência mais próximas dos níveis neutrais, depois de um longo período de taxas anormalmente baixas, em termos históricos.”

BPI

Há muitas incertezas, ainda assim: qual a velocidade que o BCE vai imprimir na subida das taxas de juro e qual o nível máximo que elas vão alcançar? Não há uma resposta definitiva, mas as perspetivas dos bancos, com base na informação atual, apontam para um ajustamento das taxas que “não deverá ser súbito, nem muito expressivo”, diz o BPI, mas antes “moderado” e que se traduzirá “num incremento do serviço da dívida que as famílias poderão gerir”, indica o Santander.

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