Semana de 4 dias, sextas-feiras livres, 32 horas e o que o flop da Telefónica nos diz sobre o futuro do trabalho

Semana de quatro dias, sexta-feira à tarde livre, semana de 32 horas. As empresas estão a desenvolver várias estratégias para desenhar o futuro do trabalho.

A Feedzai retoma este agosto a semana de quatro dias. Um regresso com ajustes, enquanto outras empresas avançam com estratégias distintas para promover um maior equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho como a sexta-feira à tarde livre ou a semana de 32 horas. Opções que dão que pensar quando a tentativa de avançar com uma semana de quatro dias na Telefónica se revelou um flop junto dos trabalhadores: apenas 2% de um total de 18.000 se mostrou disponível a adotar este modelo em troca de um corte salarial de 16%.

Na Feedzai, o ajuste, neste segundo ano em que a companhia avançou com a semana de quatro dias apenas durante o mês de agosto, não passou pelo corte de salário ou pelo aumento do número de horas ao longo da semana para ‘compensar’ a redução da semana laboral. “Continuamos comprometidos em dar (aos nossos colaboradores) a semana de quatro dias de trabalho em agosto. Decidimos avançar porque queríamos uma boa forma de demonstrar o nosso compromisso com o work-life balance“, justificava, em maio, Dalia Turner, vp people da Feedzai, em declarações à Pessoas.

O motivo para adotar esta medida na unicórnio era simples. “As pessoas não estavam a tirar férias e é uma excelente forma visual de dizer que queremos que tirem tempo para si. E as pessoas começaram a tirar mais férias no verão, precisamente o que pretendíamos. Regressam mais frescas, há um aumento de produtividade, não vimos nenhuma redução de produtividade nesse período em que as pessoas estavam a trabalhar quatro dias por semana”, diz Dalia Turner. “Penso que é uma boa iniciativa.”

Não foi essa a estratégia da Telefónica. Depois do sucesso do piloto com 150 colaboradores, a operadora espanhola negociou com os sindicatos a abertura deste modelo aos restantes 18.000. Para usufruir da redução da jornada de trabalho das 37,5 horas para 32 horas, os trabalhadores sofrem um corte proporcional no seu salário, com a empresa a bonificar 20%, o que se traduzia, na prática, numa perda de 16% na sua remuneração. Apenas 2% disse sim. Num momento em que a economia dá sinais de uma séria travagem e a inflação atinge picos históricos, entre trabalhar menos horas e um corte de salário a opção parece ter sido apenas uma: proteger os rendimentos.

Trabalhar menos e melhor

A operadora espanhola não é a única a afastar-se do modelo ‘clássico’ da semana de 4 dias, que defende redução de horas de trabalho, sem corte nos rendimentos — em Espanha, a Desigual, por exemplo, já avançou com um modelo com contornos semelhantes — e, em Portugal, apesar de inquéritos darem conta do interesse do talento na adoção de uma semana de trabalho mais curta, há quem tenha sérias dúvidas sobre se essa disponibilidade manter-se-ia em caso de corte salarial.

“Para Portugal, o corte salarial para 80% dos trabalhadores não pode estar em cima da mesa. Com um salário mediano de 800 euros, quando 50% dos trabalhadores ganham menos de 800 euros, isso não é uma possibilidade. Há formas de ajustamento que evitam este corte salarial”, considera o economista Pedro Gomes, reader na Birkbeck, University of London e autor de “Sexta-Feira é o Novo Sábado”. Quais? Os ganhos de produtividade obtidos com a medida ou “no limite, uma hora a mais (de trabalho por dia), ou seja, passar para as 36 horas compensa metade do ajustamento”, defende.

Em Portugal, a Feedzai não é a única a avançar com novos modelos de organização do trabalho para lá do remoto ou do híbrido. A PHC anunciou a intenção de dar 12 sextas-feiras por ano aos colaboradores e a Doutor Finanças — que no ano passado avançou com um piloto da semana de quatro dias — este ano está a propor uma semana de trabalho de 32h em vez das 40h tradicionais.

Para Portugal, o corte salarial para 80% dos trabalhadores não pode estar em cima da mesa. Com um salário mediano de 800 euros, quando 50% dos trabalhadores ganham menos de 800 euros, isso não é uma possibilidade. Há formas de ajustamento que evitam este corte salarial.

Pedro Gomes

Reader na Birkbeck, University of London

Na dona do Continente, a MC, a opção para dar mais flexibilidade aos trabalhadores passou por dar a sexta-feira à tarde livre, desde que trabalham mais uma hora de segunda a quinta-feira. Opções que estão a ser adotadas por empresas de menor dimensão, como é o caso da Onya Health. Até 26 de agosto na agência de comunicação especializada no setor da saúde do Porto as sextas-feiras à tarde são livres. Após este período, a consultora pretende recolher feedback e avaliar o impacto da medida na vida dos colaboradores, assim como na produtividade.

E esse é o ‘verdadeiro’ tema: produtividade. Trabalhar melhor e não mais horas. Na Noruega e Dinamarca trabalha-se menos do que as 40 horas semanais e estão no top 10 dos países mais produtivos do mundo. E o piloto da semana de 4,5 dias levado a cabo no ano passado nos Emirados Árabes Unidos com os funcionários públicos revela dados promissores: 70% reporta estar a trabalhar de forma mais eficiente; registou-se uma queda de 55% no absentismo e 71% diz estar a passar mais tempo com a família, revelou, em maio, um responsável governamental num debate do World Forum Economic.

“Se a discussão se centrar apenas em se as empresas conseguem produzir o mesmo em quatro dias do que em cinco estamos a ignorar que há muita atividade económica que vai nascer do tempo de lazer”, argumenta Pedro Gomes.

Não se trata “simplesmente de cortar as horas”, defende o economista, é uma “oportunidade para reorganizar a empresa”. “É exatamente essa oportunidade de reestruturação que seria tão importante para as empresas portuguesas.”

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