Nuno Prego Ramos: “Daqui a 10 anos o cancro vai ser tratado como uma doença crónica”
Licenciado em Direito, mas com um percurso profissional dedicado à ciência, Nuno Prego Ramos assume-se obcecado com o problema da longevidade e é o mais recente convidado do podcast "E Se Corre Bem?".
Nuno Prego Ramos, fundador e CEO da Valvian, uma biotecnológica portuguesa, é o 46º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Apesar de ser licenciado em Direito, a vida profissional do CEO sempre esteve ligada à ciência e à biotecnologia, áreas que o levaram a desenvolver soluções para o tratamento de doenças como o cancro e, mais recentemente, para o envelhecimento.
“Eu costumo dizer que Direito estruturou-me e deu-me a capacidade de olhar para o mundo de uma forma diferente. E costumo dizer aos meus amigos e advogados que quem tira o curso de Direito é capaz de fazer qualquer coisa“, começou por referir Nuno Prego Ramos, justificando o facto de a sua escolha profissional ser diferente da área em que se licenciou.
Ainda assim, o CEO explicou que, “desde muito cedo”, começou a trabalhar na indústria farmacêutica “por questões pessoais” e, apesar de, mais tarde, ter enveredado pelo curso de direito com o objetivo de seguir esse caminho profissional, a vida voltou a “obrigá-lo” a olhar para o tema da saúde: “O meu pai faleceu com um enfarte, aos 44 anos. Eu tinha dois irmãos mais novos e, portanto, tinha de trabalhar e fui à luta. Trabalhei e estudei. Trabalhei na indústria farmacêutica e fui fazendo o meu percurso”.
Esse percurso passou, também, por fazer um mestrado em Bioquímica, uns anos mais tarde, depois de sentir que precisava de mais competências neste âmbito. Foi nesse mestrado que acabou por encontrar aquela que viria a ser sua sócia, mas que até então era apenas a sua orientadora de mestrado e, depois, de doutoramento. “A Paula Vieira, minha orientadora, tinha muito interesse em fazer coisas que tivessem translação para o mercado e que pudessem chegar a pacientes. Eu achava que a imunologia ia ser crítica e fundamental para o tratamento de algumas doenças, mas entretanto percebemos que também era muito importante na oncologia“, explicou.
Mas, para haver essa translação, eram e são necessários vários atores: “Precisamos de ter ciência a ser produzida na academia, precisamos de pessoas com vontade de levar esse projeto da academia para uma startup ou uma spin off, precisamos de investidores capazes de investir neste tecido empresarial, mas depois também precisamos de outras competências de gestão, que, juntamente com os investigadores, fazem uma equipa. Em Portugal já temos boa tecnologia a ser desenvolvida na academia, mas a translação ainda não acontece com grande facilidade porque não há equipas de gestão e não há ainda pessoas com as motivações certas”.
Esta visão de Portugal surge com base nas experiências e vivências que Nuno Prego Ramos teve noutros horizontes, nomeadamente em Nova Iorque, para onde foi depois do seu mestrado com o objetivo de procurar investidores. “No fim, correu bem. Consegui uma Big Pharma”, contou. Após isso regressou a Portugal e encontrou mais um investidor interessado na sua tecnologia – a Portugal Ventures – que “foi extremamente importante”.
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Nuno Prego Ramos, investigador e CEO da Valvian, em entrevista ao podcast do ECO "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
Nuno Prego Ramos, investigador e CEO da Valvian, em entrevista ao podcast do ECO "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
Nuno Prego Ramos, investigador e CEO da Valvian, em entrevista ao podcast do ECO "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
Nuno Prego Ramos, investigador e CEO da Valvian, em entrevista ao podcast do ECO "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO
No entanto, depois do investimento em Junho de 2019, “veio a Covid-19 e lockdown em Março de 2020”, o que os fez manter o projeto com uma equipa muito pequena, com 2 a 3 pessoas. Contudo, após a pandemia, apareceram vários investidores interessados, o que, para o CEO, era esperado, uma vez que estavam a desenvolver uma tecnologia há muito procurada. “Comparativamente a outras tecnologias que já estavam na clínica a tratar doentes, a nossa era manifestamente superior, já que estávamos a desenvolver uma tecnologia que fazia com que as nossas moléculas se ligassem apenas a células tumorais sem se ligarem a células normais, que é o que toda a gente anda à procura há muito tempo“, revelou.
Neste caminho feito com 1.4 milhões de euros de capital, que os obrigou a ser bastante eficientes, apareceu a BioNTech, à qual vendeu as patentes do seu projeto. E, quando questionado sobre a possível dificuldade de entregar um projeto que era seu a outros, o CEO não teve dúvidas em responder: “A determinada altura, a ciência falava mais alto do que o nosso ego. A prioridade era chegar ao mercado”.
A verdade é que foi só depois desse passo que nasceu a Valvian, em janeiro de 2024, com o objetivo de continuar o desenvolvimento de terapias inovadoras na luta contra o cancro, mas também com o foco na resolução de doenças relacionadas com o envelhecimento. “Acho que daqui a 10 anos o cancro vai ser tratado como uma doença crónica, com a qual se lidará como agora se lida com o HIV. Já em relação ao envelhecimento, acho que temos de pensar na forma como as doenças associadas ao envelhecimento podem ser tratadas. O problema deve ser endereçado tratando as pessoas com doenças associadas ao envelhecimento e não por tentar manter jovem quem ainda é jovem”, lançou.
Contudo, apesar de essa não ser a prioridade, não descarta a possibilidade de começar a “resolver problemas cada vez mais cedo”. “Eu acho que se nós conseguirmos viver 30 anos, vamos conseguir viver mais 40. E, se conseguirmos viver os 40, vamos conseguir viver, depois disso, mais 50. É possível porque a tecnologia vai avançando de tal forma que nos vai conseguindo manter saudáveis. Eu acho que é possível e sou completamente obcecado com conseguirmos resolver o problema da longevidade“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio do Doutor Finanças e da Nissan.
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