Leitão Amaro quer profissionalizar comunicação dos governos. O que dizem os especialistas?
O Governo quer centralizar, ou profissionalizar, a comunicação. Nuno Morais Sarmento, João Cepeda, José Bourbon Ribeiro e Vítor Cunha aplaudem "o passo de gigante".
“Aplaudo a coragem política deste Governo ao assumir a decisão [de criar a central de comunicação] e dar-lhe uma orgânica própria”. O aplauso é de João Cepeda, precisamente o responsável pela central de comunicação que também António Costa quis criar e diretor de comunicação do Governo socialista de junho de 2022 até ao final do mandato.
“A orgânica e detalhes são diferentes, mas o resultado pretendido é o mesmo. E apesar de terem demorado um ano e meio, fico satisfeito que assim seja, porque só é possível reforçar a confiança nas instituições se a ação do Governo chegar às pessoas”, diz em declarações ao +M o atual head of the Policy Communication Lab da Nova SBE.
A reação de João Cepeda vem na sequência da criação da oficialmente chamada secretaria-geral adjunta para a comunicação institucional, integrada na secretaria-geral do Governo, avançada na noite de quinta-feira pelo Observador.

“Eu prefiro um Governo que acha que as estruturas do Estado, públicas, de apoio ao Governo, mas separadas do Governo, são dotadas de meios técnicos e profissionais, para que a comunicação de qualidade e profissional exista, tal como acontece na Comissão Europeia e nos governos mais desenvolvidos da Europa, do que Governos que gastam ou gostariam de gastar dezenas e dezenas de milhões de euros em agências de comunicação ou contratações para auxiliar a tarefa de comunicação“, justificou no final do conselho de ministros desta quinta-feira Leitão Amaro, ministro da Presidência e com a tutela da Comunicação Social.
“Também acho que o desejável é que o Estado português invista em recursos que sirvam os Governos do país e não um partido no Governo“, acrescentou, pelo que a ideia passará por colocar “esta estrutura profissional no Governo do país e não ao serviço do Governo do partido A ou B”.
“Quem vier [a seguir] terá os mesmos recursos e capacidades”, prosseguia o ministro, recusando o nome “central de comunicação”, mas sem detalhar como vai funcionar a estrutura, que será liderada por Daniel do Rosário, ex-jornalista e e porta-voz da Comissão Europeia em Portugal. Contactado pelo ECO/+M, Daniel do Rosário remeteu as explicações para a intervenção de Leitão Amaro.

Embora os detalhes oficiais sejam então escassos, a decisão é bem recebida pelos profissionais ouvidos pelo +M. “A Central de Comunicação, ou como se venha a chamar este departamento, deverá servir para modernizar e coordenar a forma como o Estado comunica com os cidadãos”, começa por defender José Bourbon Ribeiro, managing partner da Wisdom.
“Em linha com a recomendação da Comissão Europeia sobre Comunicação de Políticas Públicas – através do relatório “Trustworthy public communication: How public communicators can strengthen our democracies” –, o objetivo deverá passar por garantir clareza, transparência e coerência, substituindo o ruído e a desinformação por informação rigorosa e acessível aos variados públicos que compõem a nossa sociedade”, prossegue o também comentador, sublinhando que “mais do que um órgão de propaganda, esta central terá de ser uma plataforma de serviço público, que traduz políticas complexas numa linguagem clara, compreensível e útil para todos”.

A opinião é partilhada por Vítor Cunha. “Saúdo a iniciativa e espero que resulte. E espero também que as ‘viúvas do costume’ não entrem em delírio, com críticas ora infantis ora pouco profissionais”, atira o CEO da JLM&A, defendendo que o Governo, qualquer que seja, deve criar “uma direção, um rumo, para a comunicação”.
“Pedir aos governos que saibam comunicar e depois querer recusar os meios para que o possam fazer é simplesmente estúpido”, reforça.
Vítor Cunha vai mais longe, alargando a necessidade de profissionalizar a comunicação não só no Governo, mas nos organismos do Estado. “Não é só o Governo que não sabe comunicar, chegar às pessoas, são também os organismos que se escondem atrás dos biombos da administração pública”, fugindo assim à responsabilidade de prestar contas e dar respostas, aponta.
“A profissionalização da comunicação, em empresas, organismos públicos, e no órgão mais importante, que é o Governo, é fundamental para que cidadãos possam perceber o que se passa” e ajuda a evitar que sejam “intoxicados por bots e discursos nas redes sociais”, defende o administrador da agência.
“É uma inevitabilidade”, conclui João Cepeda. “Num tempo de tanta dispersão informativa, um Governo só consegue chegar às pessoas se profissionalizar a comunicação e falar de forma clara, útil e direta. Isto não se consegue com 17 ou 18 estruturas de comunicação (uma por ministério) a falar individualmente, focadas na imprensa tradicional e com estratégias dos anos 90”, descreve o diretor de comunicação do Governo liderado por António Costa.
João Cepeda vai mais longe, defendendo que prestar contas de forma eficiente não é uma mera vantagem, é uma exigência democrática. Ou seja, é tão importante ter um Governo que faz como um Governo que sabe explicar o que faz. “Convém sempre recordar isto para destruir o preconceito sobre gastos em comunicação e o bicho-papão da propaganda – está sobejamente provado que não vale rigorosamente nada criar iniciativas que os cidadãos não conhecem ou não percebem”, acrescenta.
Depois, e ainda mais importante, “não se conhece nenhuma outra arma contra o populismo tão eficaz como a boa informação”, aponta Cepeda, numa opinião que é partilhada por todos os profissionais ouvidos pelo +M.
“A maior vantagem é o reforço da confiança democrática. Mas a confiança está em crise. As instituições já não falam a linguagem das pessoas, a informação chega invariavelmente tarde, quase sempre mal explicada e desprovida de contexto. Uma iniciativa como esta deverá permitir articular mensagens entre ministérios, eliminar redundâncias e assegurar que a informação pública é coerente e inteligível”, aponta o managing director da Wisdom.
“Um passo de gigante”, defende Nuno Morais Sarmento
E, na realidade, a ideia de montar uma estrutura de comunicação profissional não é original nem remonta ao governo de António Costa. Há mais de 20 anos, no governo de Durão Barroso e depois no de Pedro Santana Lopes, Nuno Morais Sarmento, ministro do Estado e ministro do Estado e da Presidência, com a tutela da comunicação social, tentou implementar uma central de informação, que viria a ser chumbada por Jorge Sampaio, Presidente da República.

Duas décadas depois, sem comentar, por falta de dados oficiais, a iniciativa do Governo em concreto, Nuno Morais Sarmento volta a defender a ideia. “Se olharmos do ponto de vista conceptual, teórico, parece racional”, classifica.
“Se temos duas dezenas de ministros com assessores de imprensa, e muitos secretários de Estado, significa que o governo gasta mais em assessoria de imprensa do que alguns órgãos de comunicação social têm para fazer o seu trabalho”, diz. Ou seja, o Estado “gasta mais ao responder aos meios, aos jornalistas, do que o custo do Público, do Expresso ou do Observador”, ironiza o atual presidente da Flad, alertando, no entanto, que provavelmente a solução passará por uma solução intermédia, o que já é “um passo de gigante”.
Depois, na opinião de Nuno Morais Sarmento, é também praticamente impossível conseguir uma comunicação coordenada, quando os assessores estão dispersos pelos diferentes ministérios. “É um inferno”, resume, realçando ainda a dificuldade acrescida de muitos dos assessores serem jornalistas, “com imensas opiniões próprias”. A solução atual é então, em sua opinião, “ineficiente para o governo, para os ministros, para os jornalistas e para o cidadão”, sustenta.
E riscos desta centralização da comunicação? “O principal risco é o da instrumentalização partidária. Se a central se confundir com comunicação política ou eleitoral, perde credibilidade”, alerta José Bourbon Ribeiro.
“Deve, por isso, ser autónoma, técnica e independente de agendas conjunturais, com regras claras de transparência”, salienta. Outro risco é o da burocratização, que em sua opinião só se evita com equipas multidisciplinares e cultura de agilidade. “No fundo, esta central deverá ser um instrumento de confiança e cidadania, não um megafone do poder”, resume.
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