Finanças vão à COP. Querem-se incentivos alinhados com Paris e mais clareza
Isabel Ucha e António Baldaque falam-nos de finanças no podcast Clima 3.0, no qual poderá acompanhar os temas que irão marcar a agenda da COP30.
- Este texto é escrito com base no podcast Clima 3.0, que trará aos leitores, diariamente e ao longo das duas semanas da COP, uma visão sobre os principais temas discutidos na COP30, numa série de dez entrevistas a especialistas das diversas áreas em discussão.
A 30.ª Conferência das Partes (COP30) tem grandes compromissos financeiros para retirar do papel e colocar mais próximos da implementação. Em conversa com o ECO/Capital Verde, no âmbito do podcast Clima 3.0, a CEO da Euronext, Isabel Ucha, e o diretor executivo do Centro de Finanças Sustentáveis da Católica, António Baldaque, apontam a necessidade de mais clareza e estabilidade regulatória, mas também de uma maior transparência e melhor comunicação em relação às finanças sustentáveis, de forma a fomentar o investimento na ação climática.
Na sequência da última COP, na qual as partes concordaram mobilizar 1,3 biliões de dólares anuais para a ação climática nos países menos desenvolvidos, dos quais 300 mil milhões seriam provenientes de fontes públicas, até 2035.
“Quanto mais nós conseguirmos mobilizar o mundo financeiro para captar poupanças e financiar esses investimentos, mais acelerada será essa transição“, afirma Isabel Ucha. A CEO da Euronext refere-se, em particular, aos investidores que, além do critério da rentabilidade para a alocação do seu dinheiro, usam também critérios de impacto ambiental, social e de governança. Nesse sentido, sublinha, a questão passa “como é que podemos atrair mais mais investimento”.
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Isabel Ucha, CEO da Euronext e António Baldaque da Silva, diretor do Centro de Finanças Sustentáveis da Católica, em entrevista ao Capital Verde Hugo Amaral/ECO -
Isabel Ucha, CEO da Euronext, em entrevista ao Capital Verde Hugo Amaral/ECO -
António Baldaque da Silva, diretor do Centro de Finanças Sustentáveis da Católica, em entrevista ao Capital Verde Hugo Amaral/ECO
Para já, detetam-se alguns desafios. António Baldaque aponta que o investimento climático tem sido sobretudo dirigido a tecnologias já maduras pois, “no clima [económico] em que estamos hoje em dia, é difícil pedir às empresas e aos investidores que arrisquem em tecnologias novas”.
Além disso, “toda esta instabilidade geopolítica” a que se assiste no globo, e, em particular, em termos da legislação europeia de sustentabilidade, “não ajuda”. Em adição, as métricas de medição, reporte e verificação, em termos de sustentabilidade, têm sido “muito complexas”, demasiado para se conseguir trazer “a transparência necessária, para depois o capital vir a seguir”.
Então, como se estimula o investimento? Para Ucha, “o mundo financeiro em particular, tem que ser capaz de comunicar melhor com os cidadãos que poupam e que investem para que eles próprios aloquem mais das suas poupanças a estes investimentos com critérios de sustentabilidade”.
Apesar de já se ter feito “um grande progresso”, a dívida sustentável, por exemplo, ocupa uma percentagem de mercado que não chega a 10%. Ao mesmo tempo, vê a necessidade de que os investidores tenham acesso à informação relativa aos investimentos em sustentabilidade “de uma forma mais clara, mais objetiva e mais comparável”.
O que é preciso é criar um contexto legislativo e um contexto económico onde faça sentido alocar mais capital para a transição.
Por outro lado, “o que é preciso é criar um contexto legislativo e um contexto económico onde faça sentido alocar mais capital para a transição“, defende Baldaque. Sugere sistemas de incentivos como os “mercados de carbono” que, em termos voluntários, considera ainda “incipientes”. No que diz respeito a incentivos, critica que, apesar de vários impostos sobre o petróleo, se mantenham também apoios. “É preciso trabalhar num [contexto de incentivos] que seja mais próximo do objetivo de transição que queremos“, acredita.
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Isabel Ucha, CEO da Euronext e António Baldaque da Silva, diretor do Centro de Finanças Sustentáveis da Católica, em entrevista ao Capital Verde Hugo Amaral/ECO -
Isabel Ucha, CEO da Euronext e António Baldaque da Silva, diretor do Centro de Finanças Sustentáveis da Católica, em entrevista ao Capital Verde Hugo Amaral/ECO
No que diz respeito à COP, Baldaque é perentório: são precisos “mecanismos mais inteligentes” de compensar os países em vias de desenvolvimento para fazerem essa transição que lhes está a ser pedida porque os países desenvolvidos ‘esgotaram’ o stock de carbono permitido. Independentemente dos “altos e baixos” dos investimentos verdes, Isabel Ucha conclui: “Estes temas que são estruturantes vão continuar a progredir”.
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