• Entrevista por:
  • Helena Garrido

A troika mais dura com a banca? “Hoje teríamos o Novo Banco 1, o Novo Banco 2…”

O desafio de Ricardo Reis para os leitores: estaríamos melhor ou pior se a troika tivesse sido mais dura com a banca logo em 2011?

O que teria acontecido à banca e ao país se a troika, Vítor Gaspar e Carlos Costa tivessem imposto medidas mais duras à banca? Ricardo Reis admite que o BES e o Banif já estavam falidos em 2011 mas considera extremamente difícil avaliar se se tomou a decisão certa. Deseja nunca se ver numa situação dessas, de decidir sobre matérias tão difíceis em muito pouco tempo.

A conversa começou pelos desafios dos bancos centrais, nomeadamente no seu novo papel de estabilizar o sistema financeiro. A nova regulação da banca merece de Ricardo Reis criticas. É excessiva e os bancos gastam hoje mais dinheiro com advogados do que com financeiros em busca de negócios.

Sobre o modelo de resgate dos bancos está curioso para ver o que acontecerá se o Deutsche Bank precisar de ser apoiado. Vai ser um importante teste à união bancária.

Integra atualmente o grupo de especialistas que reflete sobre os desafios dos bancos centrais. Quais são eles?

Os desafios são enormes tendo em conta que atual configuração dos bancos centrais é muito diferente da que era há apenas poucos anos atrás. Têm hoje um novo mandato, um papel muito grande na estabilidade financeira. Em segundo lugar, porque o grande desafio hoje é a inflação parecer estar abaixo da meta, ou pelo menos nas projeções para os próximos anos. E em terceiro lugar porque os balanços dos bancos centrais são hoje muito maiores do que eram, o que abre uma série de novas ferramentas que podem ser usadas neste controlo da inflação assim como na tentativa de estabilizar o sistema financeiro.

Não existe um conflito entre o objetivo de estabilidade financeira e o objetivo de controlar a inflação?

Eu penso que sim, que existe. Aliás, eu sou um dos céticos quanto ao mandato da estabilidade financeira. Há apenas 30 anos debatia-se como é que os bancos centrais deveriam desviar-se do seu objetivo a nível dos preços para levar em conta a estabilidade macroeconómica [o crescimento da economia]. Chegou-se a um consenso segundo o qual, embora houvesse alguma primazia à estabilidade dos preços, os bancos centrais deveriam desviar-se de perseguir de uma forma muito rígida essa estabilidade dos preços de forma a tentar acomodar o ciclo económico e a estabilidade macroeconómica. Acrescentar agora a estabilidade financeira parece-me algo precipitado. E preocupa-me que o pêndulo tenha virado demasiado e estejamos demasiado preocupados em dar esse papel aos bancos centrais.

O facto de hoje termos muito mais regulação no sistema financeiro não me convence de que tenhamos melhor regulação.

Ricardo Reis
Mas porquê?

Mais regulação não é melhor regulação. O facto de hoje termos muito mais regulação no sistema financeiro não me convence de que tenhamos melhor regulação. Em segundo lugar, e novamente isto são argumentos comuns a todas as atividades regulatórias, mais regulação vem sempre com menos concorrência porque aumenta as barreiras de entrada no mercado. Ora o sistema financeiro já é um sistema onde há enormes barreiras de entrada, onde é muito difícil começar de novo e como tal parece-me que é um sector onde falta alguma concorrência. Daí que esta deriva para mais regulação vai no sentido errado.

 

O Banco Central Europeu está a fazer tudo ou a dar a entender que está a fazer tudo para reanimar a economia. Sem sucesso, na sua opinião…

Não diria isso. O Banco Central Europeu tem como mandato a estabilidade dos preços. A estabilidade dos preços nos últimos 16 anos, desde o surgimento do euro, tem sido um enorme sucesso para o BCE. Em média, nos últimos 16 anos foi exatamente 2%. Agora, no último ano e meio tem estado abaixo do alvo, em 1,2%. As previsões para os próximos dois, três, quatro anos continuam a ser abaixo do alvo e como tal o BCE está a fazer tudo o que pode para tentar reanimar a economia, para puxar a inflação de volta para os 2%. Olhando para o passado a sua performance é fantástica.

A barreira entre estabilizar o sistema financeiro e reprimir o sistema financeiro é muito ténue

Ricardo Reis
Mas aquilo que não estão a conseguir fazer é reanimar a economia. Se levarmos em consideração que Mario Draghi está a apelar, de há algum tempo a esta parte, para que os governos façam a parte deles, isto significa que o próprio também acha que está a fazer uma parte do trabalho para reanimar a economia…

O que Mario Draghi diz, e é claro quando olhamos para os dados, é que a política monetária está a dar todos os estímulos que pode ao crescimento económico. Não pode fazer mais. Para a economia crescer mais tem de haver política fiscal, reformas estruturais, políticas que não cabem no âmbito do BCE. Voltando ao ponto da estabilidade financeira que tem do outro lado da moeda a repressão financeira. Os governos há séculos que taxam o setor financeiro. E taxam sobretudo os depositantes e as pessoas que poupam. A barreira entre estabilizar o sistema financeiro e reprimir o sistema financeiro é muito ténue e preocupa-me. No que diz respeito ao desemprego e ao crescimento, Mario Draghi pode dizer hoje que o BCE já fez tudo. Na regulação financeira ainda não temos o conhecimento e a perceção para poder dizer o que é que cabe ao Banco Central e o que é que cabe à política financeira de regulação, fiscal e económica dos governos.

Já voltamos à estabilidade e à regulação financeira e aos seus efeitos… A minha questão em relação ao que se está a passar na zona euro é se considera que as taxas de juro deviam começar a subir?

Penso que não. Parece-me um erro que elas subissem neste momento, tendo em conta que a inflação está abaixo do alvo.

Pensa que os bancos centrais foram os principais responsáveis da crise de 2007?

Antes pelo contrário. Foram os grandes salvadores de a crise não ter sido tão profunda quanto isso.

A crise do setor financeiro em 2008 foi tão grave quanto a de 1929 a 1931 nos Estados Unidos. Mas não tivemos uma grande depressão. Devemos isso aos bancos centrais.

Ricardo Reis
Mas há quem considere que eles próprios alimentaram a bolha financeira.

Já volto a essa questão da bolha… Olhando para a história do Banco Central americano, já que a Reserva Federal tem mais de 100 anos e o BCE apenas 16, registam-se duas grandes crises financeiras: uma foi a Grande Depressão, outra a crise de 2008-2010. O que vemos foi uma mudança radical no que foi a reação de Ben Bernanke e da Reserva Federal em 2008-2010 em relação ao que aconteceu em 1929. A crise do setor financeiro em 2008 foi tão grave quanto a de 1929 a 1931 nos Estados Unidos. No entanto, a quebra no crescimento económico, as falências no setor bancário foram muitíssimo menores do que em 1929. Não tivemos uma grande depressão. Devemos isso aos bancos centrais. O desemprego chegou aos 30% em 1933. Nesta crise, nos Estados Unidos nunca subiu dos 10%. A recessão durou dois anos e meio nos Estados Unidos, durante a Grande Depressão a recessão durou dez anos. Isto sobretudo devido à atuação da Reserva Federal Americana e de Ben Bernanke que reagiu com enormes estímulos, salvando o sistema bancário e permitindo que o sistema financeiro não colapsasse como aconteceu durante a Grande Depressão.

O BCE, a taxa de juro e o Deutsche Bank

 

Não é tarefa do Banco Central Europeu estar a criar negócio para os bancos

Ricardo Reis
E os bancos centrais são agora responsáveis por esta crise na banca? Nomeadamente o Banco Central Europeu.

Penso que não.

A banca europeia enfrenta uma nova vaga de crise, nomeadamente em Portugal, na Itália e na Alemanha. Uma das críticas que tem surgido, sobretudo na Alemanha, é que essa crise da banca é em parte da responsabilidade das taxas de juro demasiado baixas. Isso pode significar que o remédio das taxas de juro baixas em vez de ser uma terapia acaba por agravar a doença.

Discordo.

Porque…

As dificuldades quer no Deutsche Bank, quer nos bancos italianos, quer nos bancos portugueses, têm a ver com os erros da primeira década do milénio e com o crédito malparado que nunca foi bem limpo no balanço destes bancos. É essa a fonte dos seus problemas hoje, não é o Banco Central Europeu ou as taxas de juro.

Os erros da primeira década do milénio quais foram?

Em termos dos investimentos do subprime no caso do Deutsche Bank. Na banca portuguesa o elevado endividamento do exterior e a concessão de créditos, muitos deles que acabaram hoje em malparado, sobretudo nos setores não transacionáveis. É verdade que as taxas de juro muito baixas, não tanto as de curto prazo mas sobretudo as de longo prazo, diminuem a margem financeira dos bancos. Mas não é tarefa do Banco Central Europeu estar a criar negócio para os bancos.

O argumento de que se deve subsidiar o setor financeiro através de políticas públicas é um argumento que me mete confusão

Ricardo Reis
Mas também não é prejudicar o negócio dos bancos. Deve ser neutro…

O BCE ou qualquer banco central tem como obrigação fixar as taxas de juro de forma a prosseguir os melhores objetivos de política macroeconómica. O BCE não tem de se preocupar se está a gerar lucros chorudos para os bancos para eles poderem limpar as perdas que acumularam durante 15 de anos de crédito malparado. Não é essa a sua tarefa nem deve ser assim. Para além disso, deixe-me apontar que a curva [de rendimentos] é tão plana nos Estados Unidos como na Europa. Mas o retorno de capitais próprios nos Estados Unidos é bem alto, os bancos conseguiram gerar lucros no outro lado do Atlântico. Porque é que não conseguem deste lado do Atlântico? Não me parece que seja claro que seja culpa do BCE, uma vez que a sua atuação é semelhante à da Reserva Federal.

 

O retorno de capitais próprios nos Estados Unidos é bem alto, os bancos conseguiram gerar lucros no outro lado do Atlântico. Porque é que não conseguem deste lado do Atlântico?

Ricardo Reis
Mas como se pode resolver esse problema? Qual é o problema central nos bancos e o que se deveria fazer?

O retorno nos capitais próprios do sistema financeiro continua a ser muito elevado. Quando olhamos para os bancos sadios, que tinham os seus balanços limpos, continua a ser bastante elevado. O argumento de que se deve subsidiar o setor financeiro através de políticas públicas é um argumento que me mete confusão.

Não se deve subsidiar, mas se calhar também não se deve prejudicar…

Mas não estamos a prejudicar… O BCE está a prosseguir a política de taxas de juro que estimula a economia. Numa altura em que a economia cresce pouco, em que a inflação está abaixo do alvo, dizer que devíamos subir as taxas de juro e com isso criar desemprego, levar a inflação a afastar-se ainda mais do alvo para gerarmos alguma dezenas de milhões de euros de lucros ao Deutsche Bank para poder limpar as suas contas, parece-me completamente nocivo.

Não vamos transformar o problema do Deutsche Bank num problema da banca europeia.

Ricardo Reis
Mas estava a desenvolver as principais estratégias que os bancos…

Olhando fora do Deutsche Bank, olhando fora dos bancos italianos e portugueses que estão em apuros, o setor bancário na Europa continua a obter ganhos. Não vamos transformar o problema do Deutsche Bank num problema da banca europeia.

Não é só do Deutsche Bank, é o Commerzbank …

Bancos que não foram limpos adequadamente e que têm um crédito malparado que vem de há dez anos atrás.

A regulação da banca, os advogados e os lucros

O maior problema da banca? “Hoje gastam mais dinheiro em advogados dos que em financeiros à procura de negócios.

Ricardo Reis

 

Pensa que o crédito malparado é só um problema da banca ou a banca tem um problema no seu modelo de negócio.

Qual é o maior problema do setor bancário hoje, maior do que as taxas de juro? É a enorme regulação que impusemos sobre os bancos que leva a que hoje, quando entramos no Deutsche Bank e em muitos outros bancos, eles gastem mais dinheiro em advogados do quem em financeiros à procura de negócios. Advogados esses cujo único trabalho é preencher papéis em triplicado para enviar para o regulador. Hoje em dia o setor bancário é talvez o mais regulado de toda a economia e isso vem com enormes custos em termos de criação de emprego para advogados cujo único trabalho é responder ao regulador e prestar informação detalhada sobre o que é que se passa com os balanços. Se as atividades reguladoras e a supervisão financeira fossem mais inteligentes, fosse menos volumosa e mais eficaz, isso teria um maior efeito nos lucros dos bancos do que distorcer a política monetária, de uma forma nociva para a inflação e para o sistema macroeconómico.

O que estou a perceber na sua opinião é que há excesso de regulação no setor bancário.

Neste momento há excesso de regulação. Há regulação que me parece que tem efeitos nulos, talvez mesmo negativos. E não ataca o cerne da questão da regulação.

BES e Banif, já estavam falidos em 2010 e 2011

Nenhum português que tinha um depósito à ordem com menos de 100 mil euros perdeu um euro durante esta crise.

Ricardo Reis
Ou seja, os portugueses, os europeus em geral, não podem estar descansados, ou seja, esta regulação não garante que não haverá novos incidentes bancários?

Há duas partes na sua pergunta que eu não gostava de relacionar. Um: podem estar descansados, podem concentrar-se no seu emprego, nas suas actividades, na sua família, e prosseguir a atividade económica. Não têm de se preocupar se o dinheiro no seu banco está seguro. O dinheiro no seu banco está, de um modo geral, perfeitamente seguro, não têm de se preocupar excessivamente. Agora, a segunda parte da pergunta que é se eliminamos a possibilidade de uma nova crise no próximo ano porque agora temos uma regulação para prevenir essas crises? Com certeza que não. Mas deixe-me lembrar-lhe que nenhum português que tinha um depósito à ordem com menos de 100 mil euros perdeu um euro durante esta crise. As pessoas podem estar descansadas. Agora, quem investe em mercados de capitais por vezes perde. E infelizmente é defraudada quando compra produtos nos balcões do bancos achando que são depósitos à ordem quando não são.

 

 

Na sua opinião porque é que em Portugal aconteceu isto? Nós tivemos o caso BPN logo em 2008, com os lesados do BPN. Voltámos a ter lesados do BES e lesados do Banif. Porque é que pensa que ninguém “aprende a lição” e continua a investir em produtos que não percebe?

Há um problema endémico a todo o sistema financeiro português. Desde o ano 2000 até 2010 o país como um todo endivida-se enormemente, sobretudo na Europa. A forma como nós portugueses nos endividámos, desde o Estado a construir estradas, até às pessoas construírem casas e comprarem casas, pedindo um empréstimo a um banco português que, por sua vez, pedia um empréstimo a um banco alemão, que por sua vez se financiava com as poupanças dos alemães ou dos finlandeses, ou franceses ou espanhóis… Foi o país, como um todo, que se endividou. Os bancos foram apenas o veículo desse endividamento. Em segundo lugar, os bancos, para além de serem um veículo, tiveram políticas de crédito, na primeira década do milénio, que foram excessivamente otimistas. Olhando para trás foram mal alocadas, com más escolhas em termos de endividamento excessivo de setores protegidos, não transacionáveis, em setores que não ofereciam tantas garantias ou mesmo hipóteses de sucesso. A combinação destes dois fatores levou a que, a partir de 2010, com a reversão dos capitais – que é os credores a dizerem “eu gostava de ter este dinheiro que investi em Portugal durante dez anos de volta” -, os bancos foram novamente o veículo através do qual o dinheiro saiu. E as suas más políticas de crédito da década anterior foram expostas. Isto é um problema comum a todos os bancos. Uns tiveram políticas de crédito piores do que outros. Daí alguns terem sobrevivido e outros não. O facto de não terem falido todos em 2010, em vez de falirem no espaço de dois ou três anos, tem talvez a ver com o facto de os termos salvo em excesso e não os termos deixado todos cair em 2009 ou 2010. Acho que foi uma decisão para salvar o sistema financeiro português. O que seria se os tivéssemos deixado falir em 2009 ou 2010? Mas recordo que ainda há pouco tempo queria financiar bancos como o Deutsche Bank e não o queria deixar cair… Foi o que fizemos em Portugal durante muito tempo e acabámos por falir apenas uns anos depois, quando na realidade todos esses bancos, Banif e BES, estavam basicamente falidos em 2010, 2011.

Os portugueses não são piores investidores, pelo que eu vejo nos dados de uma forma óbvia, do que são as famílias americanas ou inglesas ou alemãs. Fazem erros muito semelhantes.

Ricardo Reis

 

Porque é que portugueses continuam a investir em produtos que não compreendem. Considera que isso é uma especificidade portuguesa?

Nem pensar. A iliteracia financeira é um fenómeno global. A verdade é que as pessoas cometem muitos erros quando investem as suas poupanças. Da mesma forma que cometem muitos erros quando tratam da sua saúde. Isto é verdade dos dois lados do Atlântico, dos dois lados do Pacífico. Percebemos hoje que esses erros têm em parte a ver com falta de educação. Mas muitos deles têm a ver com as fraquezas psicológicas que a economia comportamental e outras têm vindo a apontar. Os portugueses não são piores investidores, pelo que eu vejo nos dados de uma forma óbvia, do que são as famílias americanas ou inglesas ou alemãs. Fazem erros muito semelhantes. Os avanços em economia comportamental vêm justamente mostrar que estes erros, estas falácias em que as pessoas caem são comuns a todos os seres humanos. No entanto, em relação a Portugal, o que é que nós podemos fazer? O ensino de economia no secundário é muito fraco, praticamente não existe, e é garantido que as cadeiras de economia do 11º e 12º anos são absolutamente medonhas na minha perspetiva. São antes cadeiras de direito mascaradas de economia.

(São precisas cadeiras de) literacia financeira…

De literacia financeira com princípios básicos de economia. Nós ensinamos às crianças biologia com uma aplicação muito clara em termos de cuidados de bem-estar e de saúde praticamente desde o 5º ao 12º ano em cadeiras variadas. Nós ensinamos praticamente zero sobre economia e finanças e mesmo as cadeiras a que chamamos economia e finanças são más.

Voltando à regulação e às mudanças que ocorreram sobretudo na Europa, pensa que a União Bancária é hoje uma solução ou passou a ser um problema?

A União Bancária é ainda um processo incompleto, imperfeito, mas a meu ver foi um passo positivo na direção correta. Não acho que seja um problema, também não é ainda a solução porque a União Bancária ainda está em construção.

O que lhe falta ainda é a garantia de depósitos?

Tão ou mais importante que a garantia de depósitos, falta na Europa uma obrigação pan-europeia que seja segura. É impossível começar a garantia de depósitos quando neste momento 20% dos balanços dos bancos italianos está investido em obrigações do Estado italiano. No caso de um banco italiano falir e for pedido à garantia de depósitos europeus que salve esse banco, ela vai estar basicamente a salvar o Estado italiano e isso não é permissível tendo em conta os tratados europeus.

Com certeza que vai haver [mais dinheiro dos contribuintes] nos bancos. É difícil resolver uma crise financeira sem usar algum dinheiro dos contribuintes.

Ricardo Reis
Um dos objetivos da União Bancária foi impedir que fossem os contribuintes a pagar a falência dos bancos. Pensa que se conseguiu atingir esse objetivo? Uma das maiores preocupações das pessoas é que andam a salvar bancos, os seus impostos andam a salvar bancos…

É preciso esclarecer essa afirmação. Infelizmente, tornou-se um ditado popular que não é bem correto: de que o dinheiro dos contribuintes anda a salvar bancos. Mas já voltamos aí. A União Bancária, o que permite, é que não sejam os contribuintes portugueses a responderem pelos bancos portugueses quando esses bancos são muito grandes e por vezes não apenas portugueses. Para não cairmos no que aconteceu na Irlanda. O contribuinte irlandês teve de responder por bancos irlandeses, quando não eram irlandeses porque tinham mais de metade das suas operações fora do país. Nesse sentido penso que a união bancária é um passo importantíssimo em frente. Uma questão diferente é dizer que não vai haver mais dinheiro dos contribuintes nos bancos. Com certeza que vai haver, quando houver crises financeiras. É difícil resolver uma crise financeira sem usar algum dinheiro dos contribuintes.

O que é, afinal, salvar bancos?

Mas há pouco dizia, os contribuintes não salvaram os bancos....

Em primeiro lugar, mas talvez o ponto menor, os contribuintes emprestam dinheiro ao banco, que por sua vez vai tentar recuperar os créditos. Se os recuperar reembolsa o contribuinte. No entanto, vamos ser claros, muitos dos empréstimos acabam por não ser pagos. O que é que acontece quando o contribuinte salva um banco? O que é salvar o banco? Um banco é uma entidade abstrata. Os acionistas do banco em todos os resgates – BPN, BES, Banif – perderam todo o seu dinheiro. Os administradores perderam o emprego e alguns acabaram na cadeia. Os gestores de topo destes bancos acabaram quase todos sem emprego à procura de emprego noutros bancos.

O banco é uma entidade muito abstrata e que serve para imaginar um banqueiro gordo de charuto na boca a quem se salvou. Mas quem nós salvámos foram os muitos depositantes (…) e se quiser as pessoas da lista de devedores do BES, nas quais estão muitas pessoas reputadas da sociedade portuguesa, que deviam centenas de milhões e não pagaram.

Ricardo Reis
Alguns nem podem voltar a trabalhar em bancos...

Alguns nem conseguem. Não estamos a falar de salvar acionistas, CEOs, nem diretores. Quem é que nós salvámos? Salvámos alguns trabalhadores que mantiveram o emprego, mas mesmo esses não salvámos muitos, porque esses bancos estão em alta redução de pessoal. O que aconteceu é que os bancos emprestaram dinheiro a muita gente. E pediram dinheiro emprestado a muitos depositantes. Quando esta muita gente não pagou ao banco, os depositantes iam ficar sem o seu dinheiro. Quem nós salvámos foi os depositantes. Em vez de dizer aos depositantes perdem vocês o dinheiro, dissemos ao contribuinte. Em última instância salvámos também as muitas pessoas a quem os bancos emprestaram dinheiro e que não pagaram. O banco é uma entidade muito abstrata e que serve para imaginar um banqueiro gordo de charuto na boca a quem se salvou. Mas quem nós salvámos foram os muitos depositantes que tinham dinheiro no BES e que o recebeu todo. E salvámos também, se quiser, as pessoas da lista de devedores do BES, nas quais estão muitas pessoas reputadas da sociedade portuguesa, que deviam centenas de milhões e não pagaram. Não salvámos os banqueiros de forma alguma.

Salvámos as poupanças.

Salvámos as poupanças das pessoas. Se vamos usar o populismo algo demagógico para criticar as salvações dos bancos, vamos olhar para a lista dos tais credores que não pagaram. Mas não vamos olhar para os banqueiros. Porque esses perderam emprego, perderam o valor das ações, perderam a reputação e acabaram na cadeia.

O grande teste à união bancária

Os sistemas de regulação bancária, assim como de intervenção nas crises financeiras, funcionam sempre quando os bancos são pequenos. Mas é quando chegamos aos bancos muito grandes que estes sistemas são verdadeiramente postos à prova.

A união bancária vai enfrentar agora um teste com o caso Deustche bank?

Um grande teste, pelo qual aguardo com expectativa. Os sistemas de regulação bancária, assim como de intervenção nas crises financeiras funcionam sempre quando os bancos são pequenos. Como os portugueses, ou mesmo alguns dos pequenos bancos italianos. Mas é quando chegamos aos bancos muito grandes que estes sistemas são verdadeiramente postos à prova. E vai ser posto à prova até que ponto é que as regras acordadas são seguidas, ou se iremos rasgar algumas dessas regras tendo em conta o tamanho do Deutsche Bank. Vamos descobrir até que ponto algumas regras não devem ser seguidas, porque são demasiado rígidas e más. Vai ser testado até que ponto toda a informação, de terabytes de dados que estão nos reguladores, é útil para prevenirmos o contágio e percebermos até que ponto é que podemos parar qualquer contágio do Deutsche Bank. Vai ser um grande teste e aguardo com expectativa.

Qual é a sua aposta? Que probabilidade é que dá a que as regras são seguidas ou não?

Não sei, porque é um sistema novo. É o grande teste ao sistema europeu, quando se tem um banco grande que vai à falência e como é que lida com ele. Não estamos a falar no meu campo de especialidade, que é economia. Estamos a falar de política. Alguém vai ter que tomar decisões muito difíceis durante uma noite difícil entre as 10 da noite e as 8 horas da manhã quando abrir o mercado. E essas decisões vão fazer imensa diferença. Tal como fizeram as decisões de deixar cair o Lehman e como fez a decisão de salvar o AIG e o Bear Stearns e as decisões dos anos 30. E essas decisões são muitíssimo difíceis.

Acabou de criticar o modelo de intervenção que vem consagrado da União Bancária. Acabou de me dizer que era demasiado rígido, não?

Penso que não. Disse que vou avaliar esse sistema quando ele for posto à prova. Não disse que era demasiado rígido.

Não acha que seja demasiado rígido?

Vou descobrir. Não tenho a certeza. Se me forçar, parece-me a mim demasiado rígido. Vou aceitar essa caracterização.

A banca e a realidade alternativa na era da troika

Devia a troika ter sido mais dura com a banca? “Hoje teríamos o Novo Banco 1, Novo Banco 2, Novo Banco 3…Estaríamos melhor?

Ricardo Reis

 

Voltemos a Portugal: uma das perplexidades com que nos debatemos é que a troika esteve aqui tanto tempo e não percebeu que havia um problema no sistema financeiro. A troika não viu ou não quis ver?

É difícil fazer esse diagnóstico. Existem ótimos livros a escrever por parte dos jornalistas bem informados que queiram fazer essa investigação de uma forma séria. É claríssimo, e basta olhar para as minutas e programas da troika, que não houve uma reunião que não se apontasse para as fragilidades do sistema financeiro português. Portanto, não se pode dizer que eles não tenham visto ou que não tenham apontado que havia um problema. A troika disse que o sistema financeiro português estava em grandes apuros, com certeza. A diferença é até que ponto é que a troika devia ter imposto algumas medidas ou não. E até que ponto é que elas tinham levado a um melhor desempenho ou performance. Vamos dar o exemplo do que devia ter sido feito, talvez.

O que é que devia ter sido feito?

Não vamos dizer devia, porque depois vamos os dois avaliar se ela devia ter feito isto. Podia ter dito: vamos chamar uma avaliador de ativos internacionais, por exemplo Blackrock , para falar de uma empresa que faz isso, para passar a pente fino o balanço dos bancos portugueses e dizer de facto quanto crédito malparado existe e qual é o valor que existe. Essa avaliação estaria concluída no final de 2011, demorava um ou dois meses. Descobríamos que o BES estava completamente falido, que o Banif estaria completamente falido, que o BCP estava basicamente completamente falido. E que o BPI estava mais ou menos na linha de água. Nessa altura, a troika diria “temos que fechar estes bancos”. Imediatamente no espaço dos próximos dois meses. Começar do zero, tendo em conta que os seus balanços estão maus. Criar três novos bancos no espaço de dois ou três meses.

Seguir o modelo irlandês.

Era isto. Isto levaria a que hoje estaríamos melhor ou não? O que posso dizer, com bastante segurança, é que isto tinha levado a uma enorme crise no final de 2011, início de 2012, no sistema financeiro. Uma enorme perda de confiança dos depositantes portugueses no sistema financeiro português. Uma enorme pressão sobre as finanças públicas de forma a poder garantir os depósitos de todas essas pessoas. Penso que, tendo em conta o que sabemos da influência dos acionistas destes bancos na comunicação social, assim como dentro das elites políticas portuguesas, que isto tinha sido recebido com uma enorme violência por todos os painéis de comentadores de todos os noticiários da noite. Não tenho dúvidas que ia haver muitos editoriais inflamados dos melhores jornalistas e comentadores portugueses diariamente a dizerem “a troika está a destruir o nosso país, como podem eles fazer isto?”. Parece-me que na altura se fizesse a pergunta à maioria da inteligência portuguesa, a maioria diria que a troika tinha errado profundamente ao fazer esta avaliação dos ativos e ao fechar 70% ou 50% do sistema financeiro português. Agora se chegando a 2016 isto tinha implicado que tínhamos limpado os balanços e tínhamos um Novo Banco 1, Novo Banco2, Novo Banco3 e Novo Banco 4 e tínhamos um sistema financeiro muito mais sadio e entretanto tinha havido uma recuperação maior? Talvez sim. Talvez não. Mas é esta a alternativa de que falamos quando dizemos que a troika errou e que devia ter feito mais…Como se “fazer mais” fosse tornar as coisas mais doces e só tinha benefícios em relação ao que foi feito. É preciso ver que esta é a alternativa. Devia ter sido feito? Eu tenho algumas opiniões, mas mais do que as opiniões é informar as pessoas sobre qual era o cenário alternativo, com uma intervenção mais musculada. Muitas pessoas na troika gostariam de ter feito isto. Teria sido melhor, teria sido pior? Responda você ou a pessoa que está a ver ou ler esta entrevista.

Não é claro para mim que Carlos Costa, Vítor Gaspar e os membros da troika tomaram a decisão errada [ao decidirem não fazer uma avaliação dos ativos da banca logo em 2011]. Não é também claro para mim que tenham tomado a decisão certa.

Ricardo Reis

 

Qual é a sua opinião?

Era um risco imenso tê-lo feito. Estamos a falar de instinto, mas eu tenho muita dificuldade em responder a essa pergunta de uma forma séria. Ou seja, se eu estivesse no papel da troika, do governador do Banco de Portugal, do ministro das Finanças Vítor Gaspar e tivesse de tomar esta decisão, como eles o fizeram no espaço de poucos dias, teria sido uma das decisões mais difíceis da minha vida. Como acho que foram das decisões mais difíceis que tomaram. E portanto prefiro não ter que tomar essa opção, até estar um dia, espero que nunca, nessa posição em que terei de tomar uma decisão desse tipo no fim de uma semana. As decisões da política do seu lado mais nobre. Tens que fazer uma escolha. Os académicos, as pessoas que pensam na economia podem dizer “são estes os cenários, são estes os prós e os contras”. Mas depois temos que tomar essa decisão. É aqui que se fazem os grandes líderes. Não é claro para mim que Carlos Costa, Vítor Gaspar e os membros da troika tomaram a decisão errada. Não é também claro para mim que tenham tomado a decisão certa. Mas é disto que estamos a falar quando falamos de uma intervenção mais musculada da troika.

  • Helena Garrido

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