André Rodrigues, head of technology para a Europa do Sul da Amazon Web Services, afirma que a tecnológica está interessada em investir na cloud soberana que o Governo quer implementar.
Na estrutura global da Amazon Web Services, mais conhecida como AWS, existem 38 regiões, grandes centros de dados através dos quais disponibiliza os seus serviços de cloud, e zonas locais, mais pequenas e próximas dos clientes. A Península Ibérica é servida pela região que existe em Espanha, mas a tecnológica americana está a preparar o investimento numa zona local em Portugal.
“Ainda não temos uma data para lançamento, mas acreditamos que em breve poderemos falar sobre uma data concreta para termos essa Local Zone em Portugal“, afirma André Rodrigues, head of technology da AWS para a Europa do sul, em entrevista ao À Prova de Futuro, um podcast do ECO com o apoio da Meo Empresas.
O porta-voz da tecnológica americana para Portugal explica que esta zona local “é uma infraestrutura de serviços da AWS, de computação, de storage, de bases de dados, de analítica e de inteligência artificial”.
A AWS está também interessada em investir na cloud soberana que o Governo pretende lançar no âmbito da Estratégia Digital Nacional, que será lançada até ao final do ano. A tecnológica aguarda apenas que sejam “definidas as guidelines sobre aquilo que será a diretriz do governo para a cloud“.
André Rodrigues afirma que a empresa está já a trabalhar com o Executivo na agenda da transformação digital e na agenda da inteligência artificial.
Alguns estudos apontam para níveis de adesão de serviços cloud em Portugal inferiores à média da União Europeia. Da experiência da AWS, como é que Portugal compara com outros países da Europa?
Vemos a adoção dos serviços de cloud em Portugal de uma forma bastante positiva, não só nas startups como nas grandes empresas. Há algum atraso ainda do ponto de vista do setor público, mas em geral vemos a adoção da cloud com uma firmeza muito grande e é algo que nos orgulha bastante.
A cloud potencia o uso da inteligência artificial (IA). As empresas portuguesas precisam de ser mais ambiciosas para conseguirem estar à frente na adoção da IA?
Eu diria que todas as empresas, independentemente da sua área de atividade, deviam estar a olhar para a adoção de serviços de cloud e de IA de uma forma muito — eu não diria preocupada –, mas atenta. Não só é o futuro, é o presente. E é uma forma de em Portugal nos mantermos competitivos num mercado cada vez mais global.
E como comparamos na adoção de IA?
Lançámos recentemente um estudo que aborda exatamente a adoção de IA pelas empresas portuguesas. Já o tínhamos feito no passado e voltámos a repeti-lo este ano e os resultados são bastante animadores. Em 2024, tínhamos 35% das empresas portuguesas a adotarem ativamente serviços de IA. Este ano atingimos o valor de 41%, o que representa mais ou menos 12 novas empresas portuguesas a usar IA por hora, ou seja, uma a cada 5 minutos.

E como é que esse número compara com outros países da Europa?
Vemos, é curioso, e eu gostava de dividir isto aqui se calhar em duas partes. Vemos que as startups portuguesas comparam com as suas congéneres europeias de uma forma bastante positiva, inclusivamente com uma maior adoção de serviços de cloud e de inteligência artificial do que outras startups europeias. E não é uma adoção superficial, mas de uma forma profunda.
Uma empresa pode dizer que usa IA e, na verdade, usa-a para coisas muito básicas e simples. Outra coisa é ser algo que transforma o negócio.
Que transforma o negócio, que muda, de facto, os processos de negócio, que cria experiências novas para os seus utilizadores internos e externos. E isso nós vemos, de facto, nas startups portuguesas, fruto do ecossistema positivo que nós temos nas startups portuguesas.
Quando olhamos para as PME, para as empresas portuguesas, vemos que a adoção está em linha, mas não é uma adoção transformadora. Não é uma adoção das ferramentas de IA que lhes permita de facto transformar o seu negócio, que lhes permita criar mais riqueza, que lhes permita ser mais produtivos e que lhes permita de facto conquistarem novos mercados e diferenciarem-se no mercado.
O maior desafio está então nas PME?
Quando olhamos para as PME, para as empresas portuguesas, vemos que a adoção está em linha, mas não é uma adoção transformadora. Não é uma adoção das ferramentas de IA que lhes permita de facto transformar o seu negócio, que lhes permita criar mais riqueza, que lhes permita ser mais produtivos e que lhes permita de facto conquistarem novos mercados e diferenciarem-se no mercado.
Como é que se resolve essa lacuna?
De várias formas. A primeira tem a ver com continuar a transformar e a capacitar o talento que nós temos. Porque o estudo indica que continuamos a ter, não só em Portugal, mas na Europa e no mundo inteiro, uma falha do número de pessoas qualificadas para poder potenciar ao máximo a utilização da inteligência artificial. Nesse sentido, a AWS trouxe vários programas para Portugal para ajudar a requalificar e a qualificar pessoas nesta área, como o AWS Educate, o AWS Academy ou o AWS Restart. O primeiro pilar são as pessoas.
Adquirir competências.
Pessoas, talento, competências. O segundo pilar tem a ver com garantirmos que há uma política e há um conjunto de normas e de regulamentos que são simples e que não impõem risco às empresas.
Isso ainda não existe.
Estamos a trabalhar todos neste ecossistema, do lado dos providers, do lado das empresas, do lado do Estado, para criar uma legislação que seja mais transversal, mais simples e mais amiga da inovação. Nós apoiamos políticas responsáveis, mas que não diminuam a capacidade das empresas portuguesas e das empresas europeias de poderem inovar e competir no mercado global.
O terceiro pilar tem a ver com a liderança das próprias empresas. Isto tem que ser uma transformação top-down, tem que vir de cima para baixo, e temos que continuar a ajudar os líderes das empresas portuguesas a tomar essa decisão, porque eu acredito, de facto, que o futuro das empresas portuguesas será mais risonho quanto mais depressa adotarem serviços de IA que lhes permitam diferenciar-se neste mercado global.

Ainda estamos na infância daquilo que a IA poderá fazer.
Nós falamos muito da IA, que nos últimos 3, 4, 5 anos é a IA generativa, mas a verdade é que a inteligência artificial já existe há várias décadas. Apesar disso, acredito que ainda estamos no princípio daquilo que podemos vir a assistir a médio e longo prazo. Ainda só estamos a ver a ponta do iceberg.
Consegue-se dar alguns exemplos do que é que poderá ser esse futuro?
Sim, e não é preciso ir muito longe. É algo que nós vamos começar a assistir já em 2026, já em 2027. Nos últimos dois a três anos começámos a ver um nível muito grande de automação através da inteligência artificial. Com o advento dos agentes, deste novo paradigma da IA, que é a possibilidade de termos agentes inteligentes que não repetem só funções básicas e não só automatizam processos que são sempre lineares, mas têm uma capacidade de se adaptar à realidade.
E tomar decisões.
Tomar decisões, procurar dados consoante as variáveis vão mudando, e isso já é um salto bastante positivo. Eu quero ir de férias e posso pedir ao meu agente para as marcar por mim. Como o agente tem um nível de personalização que me conhece, sabe o que é que eu privilegio, se é um melhor hotel, se é uma melhor viagem, se é o preço, vai tomando essas decisões por mim até que compra o hotel, a agência, a viagem e toma essas decisões.
Na Amazon, nos nossos armazéns ou nos nossos fulfilment centers diariamente há pessoas que não podem ir porque ficaram doentes ou porque tiveram que assistir a sua família e nós temos agentes [de IA] que, em tempo real, atualizam os turnos das pessoas, consoante as mais-valias que cada um tem e as capacidades que cada um tem. Isto é algo que já está a acontecer.
A tendência é que o custo, seja por dados, seja por largura de banda, seja por aquilo que nós quisermos medir, vai continuar a descer.
A IA está a gerar um aumento acelerado da procura por computação cloud. Isso significa que o custo de utilização da cloud tenderá a subir?
Antes pelo contrário. Aquilo que a história nos tem dito é que o custo da computação tem vindo a descer. No caso da AWS, desde a sua génese, nós já reduzimos os nossos preços mais de 150 vezes. A tendência é que o custo, seja por dados, seja por largura de banda, seja por aquilo que nós quisermos medir, vai continuar a descer.
Mesmo com este aumento de procura exponencial.
Vai continuar a descer porque a economia de escala permite que se tirem benefícios. É apanágio da AWS repassar estas vantagens da economia de escala para os nossos clientes, porque vai fazer com que os nossos clientes adotem cada vez mais a tecnologia, porque é melhor e mais barata. O que vai fazer com que nós consigamos ter mais clientes. É um ciclo virtuoso que eu acho que vai continuar a perpetuar-se com a inteligência artificial.
A cloud da AWS esteve em baixo no dia 24 de outubro devido a um problema num dos seus data centers. Este aumento da procura coloca também desafios acrescidos de resiliência e segurança?
Eu não diria que coloca problemas acrescidos. Para nós, na AWS, os temas de resiliência e de segurança fazem parte do nosso ADN desde o primeiro dia. Se me permite, gostaria de retificar que a cloud da AWS não esteve em baixa. A AWS tem 38 regiões e houve uma que foi afetada durante duas horas. Ao final de duas horas, identificado o problema, foi a nossa principal prioridade tentar restaurar todos os serviços. A cloud beneficia desta escala, desta flexibilidade praticamente infinita e de um nível de resiliência que me permite rapidamente restaurar os meus serviços e continuar a dar serviços aos meus clientes internos e externos, em qualquer uma das outras regiões que estão disponíveis.
A AWS é líder em Portugal?
A AWS é o primeiro cloud provider e o fundador daquilo que nós conhecemos hoje por cloud. Eu até costumo brincar que o nome, se calhar, hoje não seria AWS, Amazon Web Services, seria Amazon Cloud Services, porque na altura nem havia cloud. A AWS acabou por criar esta indústria e a AWS não só é pioneira na cloud, como é, claramente, líder de mercado mundial nas tecnologias de cloud.
E em Portugal também?
Nós não partilhamos dados por geografia e por isso eu não posso confirmar.
Quais são os planos para crescer em Portugal?
Muito antes de termos um escritório em Portugal, já tínhamos clientes portugueses e por isso foi uma decisão natural abrirmos o nosso primeiro escritório em Portugal em 2018, para estarmos mais perto dos nossos clientes, para estarmos mais perto dos nossos parceiros. Em 2019, fizemos o primeiro investimento em infraestrutura em solo português e este ano também voltámos a fazer mais investimentos de infraestrutura com o AWS Direct Connect, que permite que qualquer PME portuguesa, qualquer startup, qualquer grande empresa ou o governo português, se liguem diretamente à cloud da AWS em Portugal. Antes era preciso fazer uma interligação para outro país, hoje, com custo marginal, porque estamos a falar de infraestrutura local, é possível ligar-se diretamente a esta rede de 38 regiões e de mais de nove milhões de quilómetros de fibra óptica que nós temos.
Nós há alguns anos anunciámos uma Local Zone, que é uma infraestrutura que está dependente de uma região. Ainda não temos uma data para lançamento, mas acreditamos que em breve poderemos falar sobre uma data concreta para termos essa Local Zone em Portugal.
Isso que investimento representou?
Eu não posso partilhar os investimentos, mas eu posso dizer que cada uma destas regiões são investimentos de vários milhares de milhões de dólares. Por exemplo, no próximo mês, e isto é público, vamos inaugurar a cloud soberana europeia na Alemanha, um investimento de 7,8 mil milhões de dólares. A região que nós inaugurámos há alguns anos aqui em Espanha, e que serve a Península Ibérica de uma forma muito próxima, representou um investimento de 15,7 mil milhões de dólares.
E para Portugal, está previsto algum investimento desse género?
Para Portugal não está prevista nenhuma região. Nós há alguns anos anunciámos uma Local Zone, que é uma infraestrutura que está dependente de uma região. Ainda não temos uma data para lançamento, mas acreditamos que em breve poderemos falar sobre uma data concreta para termos essa Local Zone em Portugal.
O que é que significa exatamente ter essa Local Zone?
A Local Zone é uma infraestrutura de serviços da AWS, de computação, de storage, de bases de dados, de analítica, de inteligência artificial, com uma dimensão mais pequena que uma região. Por isso é que nós chamamos de Local Zone, porque o objetivo, de facto, é estar mais próximo dos clientes, de forma a poder dar aquilo que nós chamamos de baixas latências e residência local dos dados, que é algo que nós assistimos como um requisito cada vez mais permanente, não só em Portugal, mas dos clientes europeus.
O governo português criou a Agência para a Reforma Tecnológica do Estado (ARTE), que agora é o instituto responsável pela direção, coordenação e execução da transformação tecnológica e da digitalização da administração pública em Portugal. Acha que isto foi só uma mudança de nome, face à Agência para a Modernização Administrativa, ou sente que há aqui uma energia diferente à volta da transformação digital do Estado?
Nós temos trabalhado com o Governo português e com todas as entidades que fazem políticas e recebemos com agrado todas as iniciativas que existam, sejam do Estado português, sejam de outras entidades, sejam parcerias público-privadas, para acelerar a transformação digital do país. Parece-me, de todos os sinais que nós temos recebido e de todo o trabalho que temos feito, que a ARTE vai nesse sentido, e por isso nós só podemos estar satisfeitos com essas iniciativas e estamos 100% disponíveis para continuar a colaborar e acelerar a transformação digital do país.
Há pouco referiu que em Portugal a adoção de cloud pelo Estado ainda é comparativamente baixa.
Sim, é um caminho que nós temos que trilhar em conjunto. Há alguns passos que nós temos que dar e acreditamos que um governo digital, um governo mais rápido, passará, obviamente, por tirar partido da cloud e de todos os serviços nativos que a cloud oferece. Ainda não é esse o caso, mas é por isso que trabalhamos diariamente e acredito que a curto e médio prazo é algo que poderá acontecer.
Nós temos trabalhado com o Governo não só na agenda da transformação digital, como na agenda da inteligência artificial e, sempre que somos consultados, sempre que nos é pedida a nossa experiência e a nossa mais-valia, temos todo o gosto em partilhar e é algo que tem acontecido muitas vezes.
Falou na cloud soberana na Alemanha. A ARTE lançou também um processo de consulta para uma cloud Soberana em Portugal. A AWS participou nesse processo?
Sim, nós temos trabalhado com o Governo não só na agenda da transformação digital, como na agenda da inteligência artificial e, sempre que somos consultados, sempre que nos é pedida a nossa experiência e a nossa mais-valia, temos todo o gosto em partilhar e é algo que tem acontecido muitas vezes.
A AWS já está envolvida neste processo da cloud soberana do Estado português?
É um processo que está a decorrer e nós, sempre que somos consultados, temos todo o prazer em participar. Aguardamos que sejam, de facto, definidas as guidelines sobre aquilo que será a diretriz do governo para a cloud.
Uma vez definidas essas guidelines, a AWS poderá concorrer a um investimento para essa cloud soberana?
Sim. Nós na AWS, o nosso roadmap, aquilo que fazemos, parte do que vemos no mercado. 90% daquilo que fazemos vem do feedback direto que nós recebemos dos nossos clientes. É a forma de trabalhar não só da AWS como da Amazon.
A ARTE é presidida pelo chief technology officer do Estado, que veio da Microsoft. O secretário de Estado da Digitalização veio da Google. Como é que a AWS vê estas contratações do Estado? Vê com preocupação ou valoriza serem pessoas que têm outra sensibilidade para estes temas?
De todo. Acho que faz todo o sentido utilizarmos os melhores recursos humanos que nós temos no país, independentemente de onde as pessoas trabalharam.
São empresas que são concorrentes da AWS.
Certo, mas as duas pessoas em questão sempre tiveram uma atividade positiva para a transformação digital do país e acredito que, obviamente, mudando de local de trabalho, e agora estando no Governo, as suas ideias não são diferentes das que defendiam anteriormente e irão garantidamente ajudar-nos a acelerar na transformação digital que nós tanto precisamos no país.

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Amazon Web Services prepara investimento em novo centro de serviços em Portugal. Data será conhecida “em breve”
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