Anchorage. “Quero o melhor talento e estou disposto a pagar por isso”premium

É o primeiro cripto unicórnio com ADN nacional, o quarto a nascer este ano e o 7.º a voar com cores nacionais. Diogo Mónica, cofundador da fintech, fala dos seus planos para a Anchorage Digital.

É o mais recente unicórnio com cores nacionais a nascer. A Anchorage Digital, fundada pelo português Diogo Mónica, nos Estados Unidos, acaba de atingir uma valorização superior a 3 mil milhões de dólares, depois de ter levantado no mercado 350 milhões de dólares junto a financiadores como a KKR ou o Goldman Sachs. É o primeiro cripto unicórnio com ADN nacional, o quarto a nascer este ano e o 7.º a voar com cores nacionais.

A ronda elevou para mais de 400 milhões de dólares o montante levantado pela fintech que, diz Diogo Mónica, ainda não gastou dólar dos 80 milhões levantados em fevereiro. Mas agora ganha novo músculo. "A credibilidade da Anchorage torna-se completamente diferente quando temos este tipo de empresas como investidores", diz Diogo Mónica, cofundador da Anchorage Digital.

Dar gás à internacionalização, garantir crescimento mesmo num cenário de 'inverno' nas criptomoedas são outro dos objetivos do cofundador da Anchorage. Quer duplicar dos atuais 200 para 400 o número de pessoas da Anchorage já em 2022. E para isso está disposto a pagar (e bem) pelo talento. Em Portugal, onde quer, no mínimo, ter 100 pessoas em dois anos, está já a conversar com três empresas para uma futura aquisição. Daqui a 9 a 12 meses, estima, saber-se-á se a conversa chegou a bom porto.

Levantaram 350 milhões de dólares chutando a avaliação da Anchorage Digital para mais de 3 mil milhões. São um 'tricórnio'. E agora, quais são os planos?

Ainda não gastámos um dólar dos 80 milhões da série C que levantamos (em fevereiro). A empresa está muito bem capitalizada e toda esta ronda surgiu de uma forma estratégica. Estas instituições de Nova Iorque, das maiores do mundo, como a Goldman Sachs ou a KKR -- que querem usar a Anchorage como clientes -- ficaram tão entusiasmadas com o negócio que decidiram investir. Foi criada uma relação de cliente que se expandiu a uma de investidor. Foi muito para ter acesso a este tipo de marcas e de redes que fizemos este financiamento. Há obviamente o projeto de despender esse dinheiro de forma mais agressiva, mas o principal foi termos estas marcas. A credibilidade da Anchorage torna-se completamente diferente quando temos este tipo de empresas como investidores.

Mas com mais de 400 milhões de dólares em caixa e a robustez destas equity firms por trás qual é o plano estratégico?

O crescimento mesmo em caso de uma retração. Estamos a mitigar o risco de que se houver um novo 'cripto winter', como já aconteceu no passado, em que os preços das criptomoedas caíram 50%-70%. Como o negócio da Anchorage é exposto às cripotomoedas a nossa faturação também cairia, e para proteger a empresa de qualquer tipo de evento, temos mais capitalização. Qualquer empresa hoje olha para a Anchorage e pensa 'esta empresa nunca vai embora, está capitalizada'...

Não vai sofrer com um 'cripto crash'.

E mesmo que haja, não interessa porque está capitalizada e tem muitos financiadores de Nova Iorque. O segundo ponto é que, mesmo que o 'cripto crash' aconteça, queremos sempre continuar a crescer, a contratar engenharia em Portugal, nos Estados Unidos. Quero, pelo menos, duplicar a equipa nos próximos 5 anos e, para isso, obviamente, precisamos de mais capital para termos capacidade de crescer mais rápido do que a nossa faturação e do que os nossos concorrentes. O terceiro ponto é a internacionalização. Uma capitalização mais elevada permite-nos internacionalizar mais rápido, em vez de irmos só para a Ásia, podemos ir para a Ásia, Europa e Canadá ou ir para América do Sul, Ásia e Canadá simultaneamente. Permite-nos maior flexibilidade, porque temos mais capacidade para pagar a empresas externas, a advogados, pessoas, ter uma estrutura de negócio maior. Somos 200 pessoas neste momento, no próximo ano, pelo menos, seremos 400, esperemos que um bocadinho mais.

Sendo a Ásia um dos mercados onde querem crescer, até que ponto o endurecimento da posição da China em torno das criptomoedas não é uma ameaça à expansão?

Quando falo em Ásia nunca incluo a China.

É um player poderoso, é um pouco difícil de ignorar.

Claramente, mas não há empresas norte-americanas que tenham tido sucesso na China, tirando a Apple. O Facebook, Google, empresas tecnológicas, financeiras... é um mercado muito insular. Quando se fala de negócio na Ásia não se fala de negócio na China, mas em Hong Kong e Singapura, muito o nosso objetivo. O mercado da China acaba por acontecer fora da China, continua a haver empresas chinesas a trabalhar em criptomoedas, não o fazem é na China, mas com as suas empresas internacionais. Quando a Anchorage serve Singapura -- estamos a criar aí um escritório e uma entidade regulamentada -- vamos ter o mercado chinês a ser servido em Singapura. Por isso, digo um bocado de forma provocadora que quando falo em Ásia não considero bem a China, porque todas as pessoas da China que querem fazer negócio fazem-no fora.

A liquidez permite-vos atacar a internacionalização em várias frentes em simultâneo. No próximo ano qual é o foco? Depois de Singapura...

Claramente explorar os mercados europeus que são muito mais caso a caso do ponto de vista da regulação. Por exemplo, na Alemanha --- e não estou com isto a dizer que será o próximo mercado, ainda não decidi -- é preciso pessoas no terreno, uma empresa e regulamentação local. O Reino Unido, não fazendo parte da UE, também exige uma estrutura independente. Os mercados claramente na mira são a Ásia, que significa muitas coisas. Estar em Singapura permite-nos estar na Tailândia, Indonésia, Austrália. Há muito negócio via América do Sul, no Canadá e Europa.

A internacionalização passa pela abertura de mini Anchorages locais ou a facilidade trazida pelo trabalho remoto permite uma expansão sem tanto peso ao nível de estrutura?

Fora dos locais onde temos escritório -- Portugal (no Porto e, muito em breve, Lisboa), Nova Iorque, São Francisco, Los Angeles, Seattle, Dakota do Sul, Indiana e Singapura -- qualquer outro que venha a acontecer só o vamos fazer se houver uma obrigação regulamentar. É o principal motivo pelo qual abrimos um escritório. Claro que, a partir do momento em que há massa crítica de pessoas -- 10 a 15 -- num local, faz sentido ter um escritório de apoio, mas não é a nossa estratégia abrir escritório primeiro. A Anchorage é uma empresa 100% remota com escritórios, para as pessoas estarem juntas. É modo híbrido com o qual vamos para a frente.

Fala-se muito que Portugal está a ficar muito caro, que os salários estão a ficar muito caros. Isso é bom, não é mau, é ótimo para o país, significa que o nosso talento está ao nível mundial e eu estou claramente a participar. Sou uma das empresas que está realmente a aumentar os salários em Portugal porque quero o melhor talento, e estou disposto a pagar por isso.

Querem chegar a 400 pessoas no próximo ano. O remoto explodiu as fronteiras e compete-se pelo talento a nível global. Como é que vão emergir nestes mares agitados como um tricórnio atrativo?

Como fundador e presidente sempre tive esta ideia de que a minha empresa era local, em que as pessoas estão no escritório e se conhecem, porque coloco um foco muito grande na cultura da empresa. No momento em que esse bloqueio mental desapareceu -- por causa da Covid --, o facto de termos uma cultura tão boa tornou-se uma vantagem competitiva para os trabalhadores remotos. A pool de talento aumentou, com essa atratividade. Aliado ao facto de o nosso negócio correr muito bem, mais de 450 milhões de dólares na conta bancária significa que podemos competir com talento. A Anchorage Digital tem dinheiro para competir com talento. Fala-se muito que Portugal está a ficar muito caro, que os salários estão a ficar muito caros. Isso é bom, não é mau, é ótimo para o país, significa que o nosso talento está ao nível mundial e eu estou claramente a participar. Sou uma das empresas que está realmente a aumentar os salários em Portugal porque quero o melhor talento, e estou disposto a pagar por isso. Desse ponto de vista, a Anchorage tem todos os benefícios. Em Portugal, somos únicos, somos o único cripto unicórnio. Se uma pessoa gosta de fintech e quer vir para o mercado cripto não há maneira mais segura, do que entrar numa empresa que é um banco, que é regulamentada, está a ajudar as regras a serem feitas, fundada por um português a contratar em Portugal.

Os portugueses ainda têm muito esta desconfiança de players internacionais a virem para o mercado, que querem explorar os portugueses, as pessoas a mim veem porque estou no mercado. Sou do Técnico, fiz o mestrado, o doutoramento e bacharelato no Técnico, percebo o talento português e estou aqui porque quero dar de volta para o país e contratar pessoas de alta qualidade. São todas estas vantagens que fazem com que sejamos muito atrativos em Portugal. Não perdemos com outras empresas. Em termos de competição, sempre que eu faço uma oferta é aceite.

Em outubro, em entrevista à Pessoas, dizia que a estratégia para Portugal passaria por crescimento orgânico e compra de empresas e, com isso, absorvendo o talento. Das conversas que estava a ter nessa altura, já saiu algo mais concreto?

Ainda não anunciámos nada, mas estamos num processo de entrevistas com mais de três empresas, depois de uma lista inicial de mais de 50. Ainda é demasiado cedo para ver se terá sucesso, diria que vai demorar, pelo menos nove a 12 meses. Portugal necessita de mais soft landings, como se diz nos Estados Unidos. Nos EUA ninguém falha, há sempre uma empresa que permite aos engenheiros, aos designers, às pessoas de produto e aos empreendedores, serem adquiridos. Tira o medo de falhar e permite a mais empreendedores tentarem. E quanto mais tentam, mais sucesso temos. Para o país ter sucesso em termos de empreendedores é necessário que haja compradores como a Anchorage que tirem o medo do risco de falhar.

Para 2022, assumindo que essas três oportunidades se concretizam, o que poderá ser a Anchorage em Portugal? Queria duplicar presença cá em termos de talento...

O nosso objetivo é, pelo menos, 100 pessoas nos próximos dois anos, é o meu mínimo. Não considero nada abaixo disso. A média das empresas com as quais estou a falar são de 8 a 12 pessoas. Três contratações de 12 pessoas permitem-me adicionar 36 pessoas e 36% dos 100. Se num ano conseguir fazer três aquisições, é perfeitamente previsível que, em vez de ser 100 em dois anos, seria 100 só no próximo ano. Seria um sucesso estrondoso. Também temos de falar dos elementos culturais. É difícil fazer onboarding das pessoas. A cultura é tão importante para a Anchorage -- é um dos motivos pelos quais toda a gente quer vir trabalhar -- que o onboarding tem de ser feito com cuidado.

A Anchorage dá equity (participações) a toda a gente e, portanto, quero que isto seja um padrão, porque riqueza não é criada com salário. É muito raro uma pessoa ficar rica com salário

São o quarto unicórnio com fundadores portugueses em 2021. Sinal de verdadeira vitalidade do ecossistema de startups nacional ou acontece apesar do ecossistema nacional e das suas engrenagens menos bem oleadas?

Tenho sempre um ponto de vista positivo porque o empreendedor, alguém doido o suficiente para criar uma empresa e apostar assim tão alto, tem de ser sempre otimista e o nosso trabalho é resolver problemas. Olho para as partes menos oleadas e para as ineficiências e digo que são coisas que têm de ser resolvidas. Mas diria que realmente há vitalidade no ecossistema. Estas empresas não foram criadas ontem, com exceção da Remote, criada no ano passado e que atingiu o estado de unicórnio muito rápido, em 18 meses, algo espetacular. A Anchorage dá equity (participações) a toda a gente e, portanto, quero que isto seja um padrão, porque riqueza não é criada com salário.

É muito raro uma pessoa ficar rica com salário. A Anchorage ainda tem de fazer muita educação para isso, mas já houve pessoas antes de mim que fizeram alguma educação. Mas não só isso. Com o sucesso destes unicórnios, a capacidade de fazer 'exits' e talvez aquisições, os empregados que entraram na Talkdesk ou na Feedzai muito cedo vão beneficiar, vão criar riqueza e reinvestir no ecossistema ou, pelo menos, vão ter riqueza suficiente para apostar mais, e apostar mais. Para muitas destas pessoas significa criar novas empresas. Era isto que precisávamos, desse bootstrapping inicial, de capital, talento e apetite de risco. Temos o apetite de risco, o talento e o capital está agora aqui. Estou a tentar fazer a minha parte, contratando pessoas, dando equity. Tenho a certeza que destes 3 mil milhões de avaliação da Anchorage muito dele seja distribuído para pessoas portuguesas aquando de um 'exit' no futuro.

Carlos Moedas, o presidente da Câmara de Lisboa, quer criar no Beato Creative Hub uma "fábrica de unicórnios". Como é que olha para esse tipo de estratégia? É demasiado artificial ou pode funcionar como um acelerador de unicórnios?

Temos de experimentar porque não sabemos antes de experimentarmos. Há muitos casos de sucesso de iniciativas que têm feito este crescimento. Tantos outros CEO a mudarem-se para Portugal, a criar equipas, a trazer pessoas da Alemanha, Espanha, de França, dos Estados Unidos... Neste momento está a funcionar. É preciso não estragar. Relativamente a essa iniciativa em concreto, não sei se funcionará, acho que é uma boa iniciativa, uma boa tentativa. É o que precisamos, de mais tentativas. E, depois, precisamos de reinvestir nas que estão a funcionar e, obviamente, eliminar as que não estão.

Tem havido muitas rondas de investimento de elevados valores, sinal de liquidez. Vai manter-se no próximo ano ou estamos a chegar a um ponto em que o mercado vai começar a retrair?

Não vai ser diferente de outras ondas económicas que tivemos no passado. Portugal não tem a dimensão devido à sua realidade económica, dependente da Europa e dos Estados Unidos. E nos EUA temos uma situação muito sensível, em que temos inflação e um défice extremo. Também temos a inflação a não ser ajudada pela cadeia de abastecimento, pelo facto de haver muita procura e muitos atrasos dos portos. Temos uma situação muito frágil, porque no momento em que a Reserva Federal aumentar as taxas vamos ter menos liquidez no mercado e, portanto, vamos ver menos capital, menos unicórnios. No próximo ano vai haver aumentos (isso sabemos), mas serão pequenos (isso também prevemos). Se isso vai ter um impacto muito grande no mercado, ou não, ainda está por ver.

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